Após escolher Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentará reduzir a resistência entre as eleitoras com um palanque feminino suprapartidário. A estratégia reunirá lideranças de siglas que não aderiram nacionalmente à sua candidatura, mas que participarão de atos, vídeos e outras peças de campanha, tanto em seus redutos quanto em outros Estados. Aliados envolvidos na articulação afirmam, porém, que ainda falta uma coordenação nacional capaz de conectar essas iniciativas.
O palanque será o plano B de uma estratégia que, durante a pré-campanha, previa a escolha de uma mulher para a vice. Flávio considerava essa composição fundamental para reduzir sua desvantagem entre o eleitorado feminino e, ao mesmo tempo, atrair o apoio formal de outro partido à candidatura.
O plano, porém, não avançou. Tereza Cristina (PP-MS) chegou a aceitar o convite, mas a neutralidade da federação formada por PP e União Brasil inviabilizou a composição; o Republicanos recusou a aliança, frustrando a indicação de Daniella Marques; e o Podemos também decidiu permanecer neutro após o convite a Renata Abreu. Nomes do próprio PL, como Bia Kicis e Júlia Zanatta, chegaram a ser cogitados, mas não prosperaram.
Como mostrou o Estadão, a escolha de Alfredo Gaspar pegou integrantes da campanha de surpresa e desagradou aliados que defendiam uma mulher na chapa.
Definido o vice, aliados de Flávio ouvidos pelo Estadão afirmam que a campanha passou a apostar sobretudo na força regional das lideranças que haviam sido cotadas para o cargo, reunidas no que classificam como um palanque feminino suprapartidário. A presença de boa parte delas no anúncio de Gaspar, em Brasília, foi vista como o primeiro sinal de adesão ao novo palanque. “Todas estão dispostas a colaborar com a campanha, mesmo sem um acordo nacional entre os partidos”, afirma Kicis, que participou do evento.
O desenho inicial prevê a participação dessas lideranças em vídeos, peças direcionadas às mulheres e atos destinados a reforçar o palanque de Flávio dentro e fora de seus redutos. Simone Marquetto, que também foi cotada para vice, deverá atuar principalmente em São Paulo, enquanto Tereza Cristina terá Mato Grosso do Sul como base. Marquetto também deverá percorrer outros Estados para apresentar as propostas do candidato ao eleitorado feminino. As duas são do PP, sigla que integra a federação com o União Brasil e decidiu permanecer neutra após não chegar a um acordo nacional com o PL.
Quadros do próprio partido de Flávio também serão mobilizados, como a vereadora de Fortaleza Priscila Costa e Júlia Zanatta, que deverá concentrar sua atuação em Santa Catarina.
Daniella Marques, nome defendido durante as negociações com o Republicanos, continuará como interlocutora da campanha com o mercado financeiro e ajudará a coordenar o “Brasil por Elas”, programa que reunirá as propostas do candidato para as mulheres. Ela também seguirá participando de atos ao lado de Flávio e deverá estar na largada oficial da campanha, marcada para o próximo domingo, 16, em Copacabana, no Rio de Janeiro.
O núcleo familiar será outra frente da ofensiva. Fernanda Bolsonaro, mulher de Flávio, passará a participar mais ativamente da campanha. Integrantes da equipe afirmam que sua entrada já estava prevista, mas avaliam que a recente crise entre o senador e sua madrasta, Michelle Bolsonaro, acelerou o movimento. Nesta segunda-feira, porém, a ex-primeira-dama afirmou ter colocado uma “pedra” nas divergências com o enteado. Michelle e Flávio também gravaram juntos inserções para o programa eleitoral do senador.
Apesar da reconciliação, integrantes do PL não esperam um envolvimento intenso de Michelle na campanha nacional. A avaliação é que sua participação deverá se concentrar em peças eleitorais e agendas no Distrito Federal, onde ela disputa uma vaga no Senado.
A tentativa de reunir essas diferentes frentes, no entanto, esbarra na falta de coordenação. Integrantes de PP e Republicanos afirmam que as lideranças femininas das duas siglas estão dispostas a se engajar na campanha de Flávio, mas avaliam que a organização do palanque suprapartidário está atrasada. Segundo esse grupo, ainda não há uma divisão clara de tarefas nem um comando responsável por articular as agendas regionais, as caravanas e a comunicação eleitoral.
Entre as razões apontadas estão as sucessivas mudanças na equipe de comunicação e o que esse grupo classifica como falta de “iniciativa” do núcleo responsável pela campanha. Sem essa articulação, avaliam, o palanque feminino corre o risco de se limitar a ações isoladas, em vez de ganhar dimensão nacional.
Desde o início da pré-campanha, Flávio tenta reduzir a resistência entre as mulheres, segmento majoritário do eleitorado brasileiro e historicamente menos receptivo ao bolsonarismo. O desafio apareceu no Datafolha divulgado no fim de julho: em um eventual segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o petista alcança 50% das intenções de voto entre as eleitoras, dez pontos à frente do senador, que registra 40%.
Estadão Conteúdo