Daniel Cardozo
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A discordância de deputados vistos como governistas nos projetos de aumentos de impostos foi interpretada como falta de unidade na base do governo Rodrigo Rollemberg (PSB). Não é isso que acontece, segundo a deputada Sandra Faraj (SD). Para ela, os parlamentares são livres para discordar, mas sobretudo, nota-se uma diferença na relação entre o Buriti de hoje e a Câmara Legislativa. “Para estarmos unidos, não é necessário que todos votem do mesmo jeito. Não precisa. É necessário que os projetos caminhem e que todo mundo entenda o que a cidade precisa nesse momento. Foi uma vitória do governo, mas houve um ou dois deputados da base que não votaram com o Buriti. Chegaram a dizer que se as emendas deles tivessem sido aceitas, eles votariam a favor”, explicou. Os projetos de ajuste fiscal, inclusive, não causam temor à distrital pela desaprovação popular. “Chegamos a um ponto em que medidas impopulares foram tomadas e ainda podem vir outras, se for para a cidade continuar funcionando”, avaliou.
Como foi o início do trabalho para os deputados da base? Houve muitos incidentes?
O governador Rollemberg tem uma característica especial: é uma pessoa muito voltada para os projetos da cidade. Trabalha muito nesse sentido. E há algumas pessoas, alguns políticos, que querem trabalhar as políticas próprias. Não foi difícil. Está sendo uma construção diferente, com um governador de outra ideologia, mas que está conseguindo construir a base dele, com pessoas que pretendem fazer políticas públicas voltadas à cidade. Ele sempre passa isso para nós. Aos poucos, o governador está imprimindo essa característica e está conseguindo fortalecer essa base, para construir as pontes de que ele precisa.
Por ter esse estilo diferente, ele está conseguindo se fazer entender pelos deputados?
Sim. Tenho visto que ele tem conseguido manter entendimento de alto nível com os deputados.
A senhora faz parte de um grupo de 12 parlamentares que acaba de chegar à Câmara. Isso facilita a aprovação de projetos do governo?
Não consigo ver dessa maneira. Acho que inicialmente, quando terminaram as eleições, houve muitos embates. A essa altura, falava-se muito a respeito dos deputados, de suas reivindicações, do que o governo se dispunha a aceitar, de como os deputados queriam ser atendidos e não foram. Mas hoje, com exceção da oposição declarada — que existe, que é do PT — ele tem conseguido construir uma base, independentemente se os deputados vêm da legislatura anterior ou não.
Quais têm sido os maiores desafios no exercício do mandato?
Alguns talvez diriam que é um sonho. Eu me sinto honrada e responsável por uma nova política, porque a gente vem de um histórico muito triste do que vem acontecido em Brasília. Acho que todos olham para qualquer deputado novo como uma resposta. Como alguém que vem para uma cidade que está muito arrasada. Para mim, é uma honra e um desafio muito grandes. Estou me sentindo motivada para cumprir esse chamado.
Conseguir a presidência da Comissão de Constituição de Justiça foi considerada uma grande vitória, devido à importância na aprovação de projetos. Como é iniciar o mandato já diante dessa missão?
Digo que é honroso e desafiador. Mas eu sinto também que é resultado de um trabalho de confiança, que consegui desenvolver junto aos pares e ao governo. Eu acho que a eleição para a presidência da Comissão de Constituição e Justiça é a resposta a uma credibilidade que venho construindo, porque para estar à frente de uma comissão dessas é preciso ter posicionamentos muito firmes, muito comprometimento com a cidade, porque todos os projetos passam pela CCJ. Ela é terminativa, como todo mundo sabe, mas é decisiva. Além de ser muito importante, define o que o governo vai viver. O governo depende das decisões da CCJ. É questão de credibilidade, porque você é votado pelos pares. Acho que viram em mim confiança e credibilidade. Se não vissem isso, não permitiriam que eu estivesse lá.
Houve votação e discussão de projetos e inclusive votos contrários ao governo, vindos de deputados da base. A sustentação ao governo está unida? O que falta para todos votarem a favor dos projetos do governo?
Para estar unido, não é necessário que todos votem do mesmo jeito. Não precisa. O que é necessário é que os projetos caminhem e que todo mundo entenda o que a cidade precisa nesse momento. Foi uma vitória do governo, mas houve um ou dois deputados da base que não votaram com o governo. Eles chegaram a dizer que se as emendas deles tivessem sido aceitas, eles votariam a favor. Ou seja, não estavam contra, mas queriam suas sugestões acatadas. Como eu vejo que a política hoje não é, de acordo com a minha leitura, uma política de um ou de outro deputado, mas sim de projetos voltados para Brasília, acho que a base está se ajustando junto com o governo. Fizemos alterações nesse mesmo dia. O projeto não foi votado na íntegra, como o governo queria — e o próprio governo também entendeu que deveria fazer alguns gestos bons para a comunidade.
O governo anterior era criticado por ter uma base de 21 deputados. A senhora acredita em um número ideal ou em um modelo diferente de apoio?
Precisa ser uma relação de convencimento, porque o Rollemberg não se mostra opressor com os deputados, não nos força a tomar decisões. Ele passa o projeto, fala da necessidade. A prova disso é que a equipe técnica passou vários dias esmiuçando os projetos para os deputados. O governador tem tratado do convencimento. A gente pegou a cidade com os cofres públicos vazios. Isso é muito difícil. São medidas austeras, duras que estão sendo tomadas. Eu, particularmente, sou contra o aumento de impostos, mas isso muda quando você vê que o servidor está sem receber, que professores fizeram bazares para levantar recursos para poder passar o fim de ano. É preciso ir junto com projetos pela cidade.
Foi fundada por você a Frente Parlamentar pela Família. Do que se trata?
Muitas vezes, nós atribuímos a falta de segurança na cidade simplesmente à falta de polícia nas ruas. Mas, se você for estudar a fundo, isso é resultado de famílias desestruturadas, que deixaram seus jovens se envolverem com drogas, que não tiveram oportunidade de crescimento e o seio da família para a transmissão de valores. Quando a família não é valorizada, protegida, quando não se tem políticas públicas que trabalhem pela família, você sente o resultado na sociedade. Alguns servidores que trabalham comigo estão há mais de 20 anos na Câmara e eles me disseram que nunca viram uma frente parlamentar tão cheia. Ter gente de segmentos variados significa que as pessoas querem políticas públicas contra bullying, violência doméstica, uso de drogas, tantas coisas que podem ser trabalhadas. É importante falar também sobre a evasão escolar, sobre a educação religiosa dentro das escolas. As famílias querem ter isso. É uma resposta ao que o povo quer. Muitos problemas sociais começaram no berço familiar. Passei a campanha toda e os anos todos que estou na vida pública sempre dizendo que trabalharia por políticas públicas voltadas à família.
A Antecipação de Receita Orçamentária (ARO) foi aprovada em consenso, mas muitos deputados pediam um artigo que obrigava a exclusividade dos recursos adiantados para o pagamento de benefícios de servidores. Isso acabou não vindo no projeto do Executivo. Por que isso não aconteceu?
Sendo bem sincera, eu nunca escutei que poderia ser utilizado o recurso para outro fim que não fosse aquele. Só que, quando eu li o projeto, me chamou atenção por não haver essa exclusividade. Até por questão de segurança jurídica, vamos fazer uma emenda determinando que, mesmo que alguém queira usar os recursos para outro fim, não será possível. Só para pagamento de servidor. Foi apenas uma questão de segurança propor aquela emenda.
A Câmara tem votado projetos que enfrentam resistência na população. A senhora teme que a população acabe adquirindo por isso uma rejeição contra o Legislativo?
Não. Acho que na hora que a gente descobre o buraco que está, fica sabendo que corre o risco de não ter mais recolhimento de lixo e outros serviços, pensa-se mais no que fazer. Deixar o bairro sem coleta por uma semana ninguém suporta. Na hora em que se percebem os riscos, a população compreende, embora chateada, insatisfeita. Eu estou insatisfeita também. Se a gente amplificar mais esse assunto, não tem ninguém satisfeito com a situação econômica do Brasil. Mas temos de optar por decisões que beneficiem a população. É a história do remédio. Eu detesto tomar remédio, mas quando a garganta inflama, tem que tomar. Chegamos a um ponto em que medidas impopulares foram tomadas, podem vir outras, mas se for para a cidade continuar funcionando, teremos que agir.
Antes do início do governo, chegou-se a dizer que não haveria a barganha por cargos nas administrações, por exemplo, mas os deputados acabaram indicando nomes e brigando para ver quem indica. Haverá uma forma diferente de trabalhar, sem barganhas para aprovar projetos?
Posso tirar por mim. Sou presidente da CCJ e base governista, mas modifiquei o projeto. Tirei o IPTU, Taxa de Limpeza Pública, o projeto de leilão de dívidas e tirei o IPVA zero. Se fôssemos só aprovadores de projetos, do que jeito que viesse, aprovaríamos. Não acho que seremos uma extensão do Buriti. Nós do Poder Legislativo, paralelo e independente, temos o anseio de contribuir para o crescimento da cidade, para desenvolvimento de certas áreas. Eu discutia tudo isso com o governador e sabia que ele não faria troca de cargos, loteamento do governo. Assegurou isso. Mas disse para ele que profissionais bons, que têm capacidade para ocupar administrações, secretarias e empresas públicas, indicados ou não pelo deputado, têm que ser levadas em conta. São quadros que vão contribuir para uma boa gestão. E existe uma coisa muito séria: quando alguma decisão do governador não vai bem, a população culpa os deputados. A gente passa o tempo todo torcendo para que as coisas corram bem, porque podemos levar o ônus de ter que fazer oposição. O deputado é um braço construtor do governo. As nomeações que aconteceram foram de profissionais capacitados para estar onde estão. Agora, as negociações para as administrações ocorreram antes do pacote e houve gente que se absteve de votar mesmo tendo espaço dentro do governo. Por isso eu acho que não vamos ser apenas aprovadores.
Quais serão suas bandeiras, além da família?
Eu gostaria muito de contribuir para a desburocratização. Tudo é muito engessado. Eu escutei uma matéria sobre o setor de construção mostrando que o tempo que se demora para aprovar o projeto de um prédio é o tempo da construção dele. Isso prejudica muito o mercado, a geração de emprego e arrecadação de impostos. Uma cidade com tanta burocracia é fadada ao fracasso. A burocracia também contribui muito para a corrupção. Pelas famílias, também quero promover políticas públicas de recuperação do dependente químico. Nós temos muitas políticas de prevenção, de punição – lógico, é preciso ter para quem está envolvido com o crime -, mas não existem em número suficiente para a recuperação do dependente químico. Não temos clínicas públicas de recuperação. Na área de educação, tenho feito propostas para combater a evasão escolar. Queremos trabalhar para que as crianças até cinco anos estejam nas creches, nas escolinhas. Eu sonho com uma cidade que tenha acessibilidade. Então, protocolei um projeto que obriga os cursinhos preparatórios para concurso tenham uma área em braile, para cego, surdo, mudo. Nas ruas também não existem condições para que cadeirantes andem. Gostaria que nossa cidade fosse para todos. Sou apaixonada por Brasília. É linda, é maravilhosa de se viver. Mas nós temos problemas muito sérios que precisam ser revistos. Tenho uma preocupação muito grande com os pobres. Abrimos também a Frente Parlamentar em Defesa do Sol Nascente e do Pôr do Sol, para ser a voz daqueles que ainda não podem responder por si. Sou muito sensibilizada com a questão dos mais carentes. Enfim, a gente é eleito para as pessoas. Deixamos de ter uma vida pessoal, privada, para ter uma vida pública, para os outros.
Entre os seus projetos existe um que trata de facilitar a adoção de crianças. Como seria?
Hoje, para um casal adotar uma criança leva em torno de um ano e meio para fazer o trâmite girar. Isso é muito tempo. Existem muitas crianças em abrigos e, se o trâmite fosse mais rápido, a gente teria menos crianças nos abrigos. Levei ao presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal proposta para que haja uma vara exclusiva para adoção, até porque a responsável por isso é a vara que trata de todos os assuntos de família. São muitas demandas que não caminham. Nós pedimos ao presidente a abertura dessa vara exclusiva. E colocamos um projeto para que seja criada essa vara. Quanto mais rápido a criança estiver inserida no seio familiar, mais oportunidade para ela sair do abrigo e tem mais chance de uma vida bem-sucedida.