EDUARDO MOURA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Numa campanha, uma imagem diz mais que mil propostas. Pensando nisso, a Folha de S.Paulo convidou dois críticos de cinema para analisar propagandas de televisão dos presidenciáveis Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) os demais candidatos não têm espaço no horário eleitoral.
Thiago Guimarães, crítico cultural e roteirista, e Natália Bocanera, advogada e crítica de cinema, analisaram o primeiro episódio das propagandas eleitorais de TV dos candidatos a presidente, que têm seu último dia nesta quinta-feira (1º).
Lula e Flávio podem até ser vistos como opostos no espectro político, mas no audiovisual suas propagandas guardam semelhanças de estrutura e estilo. Ambas parecem mirar o mesmo público-alvo.
Os programas dos dois começam da mesma forma. Com uma estética fria e acinzentada, apresenta-se uma denúncia. Lula mostra vídeos e áudios que querem comprovar que Flávio mente e que está mergulhado em acusações no caso Master. Flávio, por sua vez, denuncia um país em frangalhos. Lojas fechando as portas, geladeiras vazias e pessoas com graves problemas financeiros. A culpa é atribuída a Lula.
“Num contexto de crise de credibilidade generalizada, as candidaturas vão usar a estética documental e jornalística para transmitir credibilidade”, diz Thiago Guimarães.
Nos dois casos, há uma virada estilística drástica após o fim da introdução. O acinzentado e o sombrio dão lugar a uma estética colorida, com pitadas de melodrama e trilha sonora esperançosa.
Entre os críticos e jornalistas da Folha de S.Paulo que assistiram às propagandas do petista e do peelista, houve até quem se confundisse e achasse que aquela introdução fosse outro programa.
“No cinema existe necessidade de unidade estilística no filme todo. Aqui você não tem nenhuma”, diz Natália Bocanera.
No contexto anárquico das redes sociais e das mídias multiplataforma de hoje, alguém pode se deparar somente com esses trechos iniciais das peças publicitárias e interpretar essa parte da propaganda como uma reportagem jornalística ou um docudrama.
Mais para frente em suas propagandas, Flávio e Lula partem para uma espécie de cinebiografia, seguindo a estrutura narrativa da “jornada do herói”, cada um à sua maneira. Lula, “só mais um Silva”, nasceu no sertão e veio para São Paulo para lutar pelo direito do brasileiro de sonhar. Já Flávio narra a trajetória de um jovem político preocupado com a economia, que acredita em “mais dinheiro na mão do povo”.
Na segunda metade da propaganda de Lula, surge uma trilha sonora de ares esperançosos. O som dos tímpanos, trompas e violinos cria uma atmosfera semelhante ao que se encontra em filmes de guerra, como “O Resgate do Soldado Ryan”, por exemplo.
“É até curioso, porque uma trilha sonora militarizada me parece uma temática que seria mais típica, por exemplo, de uma propaganda do Flávio”, diz Bocanera.
Flávio aposta na dramatização para denunciar as mazelas do Brasil. Em uma cena, uma senhora numa casa paupérrima de pau a pique assiste, numa TV de tubo, a uma reportagem sobre o endividamento da população. Em seguida, em outro cenário, um homem de meia-idade leva a mão à testa, envolto por uma infinidade de contas a serem pagas, boletos voam pelos ares.
Para Natália Bocanera, essas imagens bebem da fonte do realismo social, movimento estilístico que tem como um de seus principais nomes o cineasta britânico e socialista Ken Loach. “É um diretor que investiga justamente situações de pobreza e miserabilidade”, diz.
A propaganda do candidato do PL tem ainda uma dramatização de uma mãe e sua filha no mercado. É Flávio quem narra a cena. “A criança pega um biscoito, um chocolatinho, e bota no carrinho. Na hora de passar no caixa, a criança tem que tirar o seu biscoito dentro do carrinho e devolver na prateleira do mercado, porque o salário dessa mãe já não dá mais para fazer compra, nem para comprar um biscoito.
Esse não é o Brasil que eu quero, gente”, declama o senador.
“É extremamente literal. Remete inclusive à novela”, diz Thiago Guimarães.
“Na telenovela, se trabalha com uma literalidade mais explícita do que no cinema, por exemplo. Esse tipo de produto trabalha com a imagem estereotípica da dona de casa que está lavando a louça enquanto a novela está passando”, diz.
Quase no fim, a propaganda de Flávio mostra um segmento gerado por inteligência artificial que retrata pessoas em uma favela. Na visão de Guimarães, uma imagem “muito plástica, polida e artificial”, diz. “E é essa estética escolhida para mostrar a favela.”
Caiado opta por iniciar sua propaganda com belas e impactantes imagens de um pôr do sol numa fazenda.
O goiano surge na tela em contraluz e contra-plongée enquadramento de baixo para cima. Para Bocanera, esses recursos “tornam ele já uma figura mais imponente ainda do que ele já é”, além de afirmá-lo como uma figura de conduta ilibada, como um xerife nos faroestes de John Wayne.
Para Thiago Guimarães, o contra-luz remete a heroísmo. Seja cowboy ou super-herói, Caiado parece mirar na imagem de perfeição. “É tão bonito, tão colorido, tão verde, tão iluminado, o contra-luz é tão intenso, tão imagético que chega a ser onírico. Chega a ser fantasioso”, diz Thiago Guimarães.
Cury, em seu curto tempo de TV, opta por sentar-se numa poltrona enquanto, ao fundo, são exibidas cenas de caos e destruição.
As imagens são projetadas no esquema chroma-key, técnica pela qual uma determinada cor é substituída por outras imagens na pós-produção do filme. Geralmente é um fundo verde.
No caso de Cury, é fácil perceber que se trata de um fundo improvisado, que deixa o piso laminado de madeira à mostra. Fica evidente o amarrotado do pano que ele usa de tela para exibir o inferno que se tornou o Brasil, conforme sua narrativa.
Ele olha para a câmera e pergunta ao espectador: “É isso que você quer?”
Para Bocanera, a construção se aproxima de um pesadelo criado pela mente de David Lynch, diretor de obras como “Twin Peaks” e “Império dos Sonhos”.
Para ela, o filme de Cury é mais sofisticado do que aparenta ser, porque causa impacto visual mesmo tendo poucos segundos de duração.
Guimarães discorda. “Acho que ele tinha condições de fazer algo melhor”, diz. Para ele, a propaganda de Cury remete a obras como “Tropa de Elite”, de José Padilha.
“É a imagem de um país em desordem e que precisa ser colocado em ordem. Quer dizer, essa é a forma como muita gente percebeu Tropa de Elite, né?”