Estreante nas urnas, o pré-candidato à Presidência pelo Missão, Renan Santos, aposta em um desgaste do bolsonarismo para viabilizar sua ida ao segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista ao Estadão/Broadcast Político, o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) avalia que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é “inviável” como alternativa da oposição ao petista e estabeleceu como meta atingir 10% das intenções de voto até o início da campanha eleitoral, em agosto.
“A campanha do Flávio é uma campanha morta. É uma campanha de defesa, não de ataque”, observa. Renan afirma que pretende reformular o Bolsa Família, com incentivos à inserção dos beneficiários no mercado de trabalho. “Tem que mexer. A Região Nordeste, que tem 40% dos domicílios no Bolsa Família, é claramente um lugar que está doente”, destaca. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em maio, 32,4% dos lares nordestinos possuem beneficiários do programa.
Em segurança pública, Renan propõe medidas para fortalecer o combate ao crime organizado, como a decretação de estado de defesa para retomar territórios controlados por facções e a inclusão, na legislação brasileira, da tese jurídica do “direito penal do inimigo”, que suspende garantias constitucionais de integrantes de facções criminosas.
Na economia, o pré-candidato do Missão defende uma revisão profunda das renúncias fiscais concedidas a setores produtivos e citou a Zona Franca de Manaus como exemplo de modelo que precisa ser reavaliado. Também afirmou que a reforma da Previdência que pretende implementar será baseada na criação de um gatilho para elevar a idade mínima de aposentadoria e na revisão de exceções aplicadas ao funcionalismo público.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
O senhor vem numa trajetória crescente nas últimas pesquisas, mas ainda distante de tirar Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) da liderança. Como pretende mudar esse cenário e chegar eventualmente ao segundo turno?
Não acredito no Datafolha. Eu me fio muito mais em pesquisas como as da Atlas. Por quê? Porque é a metodologia que vem acertando no mundo, ela costuma captar o avanço das tendências de maneira mais veloz. Na Atlas, eu já abri uma distância para os governadores [Ronaldo Caiado e Romeu Zema] e estou buscando os 10%. Como fazer isso? Se eu busco os 10%, e dado que Flávio Bolsonaro é um candidato inviável contra o Lula, haverá naturalmente uma migração de votos para o terceiro colocado viável no campo antipetista. Então, é uma questão de demonstrar essa viabilidade, chegar nesses 10%. Eu comecei no final do ano passado, quando meu nome começou a ser aventado como pré-candidato à Presidência, ninguém acreditava. Eu ultrapassei eles. Então, minha ideia fixa é buscar esses 10% antes do começo das eleições em agosto.
O senhor é o único pré-candidato da oposição que reconhece que o ex-presidente Jair Bolsonaro cometeu golpe contra o País. Com isso, como conquistar o eleitor bolsonarista “raiz”?
O próprio eleitor do Bolsonaro, a gente precisa entender isso, quando eu falo eleitor, a gente tem que separar eleitor antipetista de eleitor bolsonarista. São duas coisas diferentes. Todo bolsonarista é antipetista, mas nem todo antipetista é bolsonarista. Essa é a primeira separação. Esse eleitor raiz do Bolsonaro, não dá mais de 10% a 15% do eleitorado total. É uma questão demográfica. E aí existe um eleitor antipetista, especialmente entre os seus 30 a 55 anos, que toma decisões que são racionais e pragmáticas contra o PT. Esse eleitor é menos ideologizado no bolsonarismo. […] A campanha do Flávio é uma campanha morta. É uma campanha de defesa, não é uma campanha de ataque. Ela não vai avançar sobre os outros eleitorados, ela tem que defender o que ele tem por conta do legado do pai. E esse tipo de campanha costuma perder. Para você vencer, tem que ter uma energia de expansão e não é o que está acontecendo ali.
O senhor diz que sua prioridade número será a segurança pública. Entre as suas principais propostas, estão, por exemplo, a possibilidade de colocar cidades controladas pelo crime organizado em estado de defesa e também a aplicação da tese jurídica do “direito penal do inimigo”, que suspenderia garantias constitucionais para alguns criminosos. Como o senhor pretende evitar que essas exceções se tornem regra e acabem virando abusos do Estado brasileiro caso o senhor venha a ser presidente?
Delimitação muito clara. Essa lei, como prevê uma retirada de direitos e prerrogativas de determinados brasileiros, ela tem que ser muito clara, não pode ser aberta. O maior perigo dela é a interpretação extensiva feita pelo Judiciário, vamos ser claros. Porque o Judiciário vive disso hoje. Então, a letra da lei, a redação de um projeto desse, ela tem que ser muito clara. Então, o que delimita o que é uma facção criminosa? O que delimita o que é a ocupação territorial? O que delimita o pertencimento nessa facção? Isso tem que ficar muito claro para não haver interpretações extra.
O senhor pretende fazer uma série de reformas. Uma delas é a da Previdência. Qual modelo o senhor adotaria?
É uma reforma paramétrica. São sobre os parâmetros que hoje não estão corretos, que envolvem privilégios para o funcionalismo e algumas diferenças de idade para alguns casos especiais. É basicamente isso, é resolver os parâmetros. E estabelecer um gatilho baseado no IBGE para o aumento da idade da aposentadoria. Então se a idade de sobrevida do brasileiro aumenta, aumenta-se automaticamente sem você precisar fazer uma reforma. É isso. Resolver os parâmetros, porque a última reforma foi tão eivada de exceções que ela não foi suficiente. Nem de longe.
E envolveria serviço público, serviço privado? Como seria?
Com certeza o serviço público, porque é o maior beneficiado nas exceções, de longe.
O senhor também defende redução da carga tributária. É favorável à manutenção do Imposto sobre Valor Agregado como foi aprovado na reforma tributária de 2023?
Sou muito realista. Eu tenho que ser realista em tudo e, com vocês, vou ser o mais honesto possível. Eu defendo a redução da carga tributária. Dito isso, eu só vou conseguir fazer isso no segundo ano, após uma reforma fiscal. Sem reforma fiscal não tem reforma tributária, porque a despesa no Brasil está em um processo de estouro. Temos que mexer nas alíquotas, mas pós-reformas fiscais, que eu quero fazer já na transição, na nossa agenda de reforma fiscal. Do ponto de vista da reforma atual, a que passou, os parâmetros dela geraram muitas insatisfações em muitos setores. [..] E aí, alguns benefícios setoriais, isso tem que sentar e conversar.
Então, o senhor está dizendo que pretende rever benefícios fiscais para alguns setores econômicos?
Com certeza.
Teria já em mente quais setores?
Olha, você tem aí duas centenas de bilhões de reais, setores industriais. Assim, desde setores da nova economia até da velha indústria, você tem benefícios de toda sorte. O mais óbvio, o mais gritante, são os ligados à Zona Franca. Só a Honda na Zona Franca de Manaus tem de 15 a 16 bilhões de reais de renúncia fiscal por ano. Esse tipo de coisa, respeitando, vamos dizer, um processo de transição, um soft landing, tem que fazer um processo de desmame de modelos fracassados.
O senhor mexeria no Bolsa Família?
Lógico, tem que mexer. A Região Nordeste, que tem 40% dos domicílios no Bolsa Família, é claramente um lugar que está doente. Então, a gente tem que partir para o diagnóstico. Existe um modelo de incentivos na política brasileira em que o político é premiado se ele dá coisa para a população e não tem compromisso com o aumento da atividade econômica e tampouco com a consecução de políticas públicas que melhorem a formação daquele capital humano dessas cidades. Então, nós temos que tirar fraudes do Bolsa Família, assim como do BPC, e a segunda coisa é: nós temos que levar para os municípios que estão tomados pelo Bolsa Família frentes de trabalho para que, especialmente homens e mulheres, mulheres sem filho, em idade para trabalhar, elas possam participar de frentes de trabalho nas mais diversas áreas. […] Agora, do jeito que está, não dá e não pode ser assim. Até porque existe uma questão de justiça. Alguém está pagando o Bolsa Família dessas pessoas.
A gente observa que o senhor tem uma boa entrada com o eleitorado jovem, que é um eleitorado volátil, e muito desse público tem aversão à política. Mas como fazer esse jovem ir votar, apertar o seu nome na urna de fato?
Não estou nem um pouco preocupado com o jovem, porque ele já está engajado. O jovem passa por processos de alienação e de esperança. Agora é um processo de esperança entre os jovens. Quem está alienado e desesperançoso são as pessoas mais velhas. As pessoas mais velhas à esquerda viram que o governo Lula foi fraco, essa é a real. Ninguém está motivado em fazer campanha para o Lula. E o bolsonarismo morreu, ainda mais com um candidato como o Flávio. Então é um fenômeno morto. Os mais jovens, entretanto, como a gente veio com uma perspectiva cheia de novidades, uma visão de Brasil otimista, nossa pré-campanha é otimista. Por ser uma pré-campanha otimista, isso agrega essa energia dos jovens. E eles estão fazendo uma pré-campanha colossal para mim. Então, não vejo problema. Inclusive, a conversão deles, isso não me preocupa. O que me preocupa agora é eu crescer nas outras camadas, vamos dizer, etárias da sociedade. Que esses estão desesperançosos. Esses não estão falando de política agora. Esses estão se alienando agora na Copa.
O público que o senhor quer trabalhar melhor é o público da melhor idade?
Aí não necessariamente, porque se eles estão desengajados, a quantidade de energia que eu tenho que colocar para convencê-los é muito grande. Existe um público que vai dos 25 aos 55, que está na rua, esse público é o assaltado. Um aposentado passa a maior parte do tempo em casa, ele não vive boa parte do drama da violência, como as pessoas que estão na rua vivem. Então, o moço e a moça de 25 a 55 anos, o adulto brasileiro, este, sim, está em disputa e é esse que a gente tem que buscar com maior energia.
Estadão Conteúdo