Quando foi anunciado secretário de Governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), Gilberto Kassab (PSD) ganhou o status de “homem-forte” do governador. À época, Tarcísio era visto como um forasteiro, sem experiência no Executivo tampouco base política em São Paulo. Kassab, por outro lado, já carregava a fama de exímio articulador e profundo conhecedor do tabuleiro paulista.
Três anos depois, às vésperas da eleição, o cenário é outro. Embora tenha fortalecido o próprio partido, o PSD, que hoje reúne três pré-candidatos à Presidência, Kassab vive uma relação tensa com Tarcísio e enfrenta desconfiança do núcleo mais próximo do governador. Seus poderes na administração foram limitados ao longo do mandato, a ponto de aliados do Palácio dos Bandeirantes afirmarem que o secretário tem “caneta”, mas “sem tinta”.
Kassab não esconde que seu projeto pessoal é ser governador de São Paulo. O cálculo do cacique passa justamente por ocupar a vice na chapa de Tarcísio à reeleição, estratégia que remete a 2004, quando, ainda deputado federal pelo PFL, Kassab foi escolhido vice na chapa de José Serra (PSDB) à Prefeitura de São Paulo. A manobra o levou ao comando da capital paulista e abriu caminho para estruturar o PSD, que em 2024 se tornou o partido com o maior número de prefeituras no País, desbancando o MDB.
Procurados, nem o governo de São Paulo nem Kassab se manifestaram.
Como mostrou o Estadão em setembro do ano passado, Tarcísio disse a aliados que não há qualquer possibilidade de Kassab ocupar a vaga de vice em uma possível chapa à reeleição. Reservadamente, o governador diz que seu desejo é manter Felício Ramuth (PSD), que passou a ser assessorado pelo marqueteiro Pablo Nobel a seu pedido. Nobel foi responsável pela campanha vitoriosa de Tarcísio em 2022, e a dobradinha deve ser reeditada neste ano.
Ramuth construiu sua carreira política no PSDB, mas foi levado ao PSD por Kassab com o objetivo de disputar o governo de São Paulo em 2022. No fim, o partido decidiu apoiar Tarcísio e Ramuth foi integrado à chapa.
Ramuth é visto como um vice fiel e discreto, que não gera problemas dentro do governo. Ao longo da gestão, aproximou-se mais de Tarcísio do que de Kassab, a ponto de, dentro do PSD, circular a expectativa de que Kassab tente vetá-lo para se afirmar como candidato. Tarcísio, por sua vez, já sinalizou que poderia acomodar Ramuth em outro partido para mantê-lo na vice.
O MDB é apontado como uma possível “barriga de aluguel” de Ramuth. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), no entanto, já disse a aliados que, se a vaga de vice ficar com o partido, prefere que o posto seja ocupado pelo presidente nacional da legenda e seu aliado, deputado Baleia Rossi (SP).
Pessoas próximas a Baleia veem a possibilidade como remota, já que outras legendas também pleiteiam a vaga, mas reconhecem que ele poderia ser um nome de consenso entre os partidos.
Assim como Tarcísio faz hoje, Serra resistiu ao nome de Kassab em 2004, mas acabou cedendo diante do peso do então PFL no tempo de televisão. À época, Serra avaliava alternativas como os ex-secretários Lars Grael e Alexandre de Moraes, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Anos depois, inclusive, o então candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, Geraldo Alckmin, acusou Kassab de ter dado um “golpe” para se tornar o candidato a vice de Serra.
O problema agora é que o nome de Kassab não é apenas preterido por Tarcísio e seu entorno. Presidentes de partidos da base também rejeitam a hipótese, alegando que o secretário teria usado a estrutura da pasta para fortalecer seu próprio partido.
Entre aliados do governador, há a leitura de que Kassab ampliou seu espaço nos Estados e no plano nacional justamente para acumular poder de barganha. A aposta seria usar a montagem dos palanques regionais e da articulação nacional como moeda de troca para viabilizar a vice — oferecendo aos partidos algo que compense o desgaste e a resistência ao seu nome.
Em 10 de dezembro do ano passado, o jornal O Globo publicou que Kassab deixaria a Secretaria de Governo nas semanas seguintes. À época, a informação foi confirmada pelo Estadão com fontes no Palácio dos Bandeirantes, que disseram que a decisão já estava tomada.
Porém, após uma reunião com Tarcísio na tarde daquele mesmo dia, o cenário mudou. Conforme apurou a reportagem, a saída deixou de ser iminente e os dois combinaram de conversar no início de 2026 para definir se e quando Kassab deixaria o governo. Até o momento essa conversa não ocorreu, mas o prazo se aproxima: para disputar a eleição, Kassab precisa deixar o cargo até 6 de abril.
Desde então, houve ao menos um ruído público entre os dois. O presidente do PSD disse no final de janeiro que Tarcísio precisa ter identidade própria em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). “É fundamental que ele tenha a sua identidade. Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão”, declarou Kassab.
Tarcísio reagiu à declaração do seu secretário no dia seguinte. “É nesse momento difícil que os amigos aparecem para dizer ‘estou contigo, conta comigo’. Isso não tem absolutamente nada a ver com submissão”, afirmou.
Outra declaração de Kassab, ainda que em tom de brincadeira, chamou a atenção de aliados de Tarcísio na semana passada. Ele explicou durante um evento que a legislação permite ao PSD apoiar a reeleição do governador, mas ter um candidato a presidente diferente do de Tarcísio.
“Aqui em São Paulo, o governador Tarcísio no seu palanque vai ter Tarcísio governador, Flávio presidente. No nosso palanque nós vamos ter Tarcísio governador e o nosso candidato [do PSD] a presidente. Mas o nosso palanque vai ganhar. Nessa o Tarcísio vai me desculpar, mas nós vamos dar um couro nele”, disse Kassab.
‘Caneta sem tinta’
À frente da Secretaria de Governo, Kassab é oficialmente responsável pela interlocução com os municípios e pela celebração de convênios com as prefeituras. Na prática, porém, sua atuação fica mais restrita à organização de demandas e ao acompanhamento da execução das emendas parlamentares. Convênios de maior porte, acima de R$ 1 milhão, dependem de aval da Casa Civil e do próprio governador.
Mais recentemente, a troca no comando da Casa Civil foi vista por aliados de Tarcísio como um revés para Kassab. A pasta passou a ser comandada por Roberto Carneiro, presidente do Republicanos, partido do governador. Carneiro recebeu a missão de reforçar a articulação política do governo de olho na reeleição de Tarcísio, estreitando laços com prefeitos e com os partidos aliados — atribuições que se sobrepõem às da Secretaria de Governo.
Segundo fontes do Palácio ouvidas pela reportagem, o novo chefe da Casa Civil passou a auxiliar outras legendas da base na montagem de chapas municipais e estaduais, numa tentativa de conter o avanço do PSD no Estado e evitar insatisfação entre aliados.
Um integrante do alto escalão afirma que, após Kassab filiar seis deputados do PSDB à Assembleia Legislativa, o “sinal de alerta foi ligado”, e a avaliação interna foi de que o governo precisava agir diretamente para equilibrar a distribuição de espaço político entre os partidos da base.
Estadão Conteúdo