Menu
Política & Poder

"O grande desafio de todos nós, no governo, é assumir responsabilidades e tomar decisões"

Arquivo Geral

12/05/2015 6h30

Sorridente, simpática e cheia de graça. Leany Lemos, a secretária de Planejamento, Orçamento e Gestão do governo Rodrigo Rollemberg é toda sorrisos. Passados os primeiros momentos da crise financeira que a nova gestão encontrou no Distrito Federal, ela explica que o governo tem trabalhado para diminuir o impacto das dívidas deixadas pelo ex-governador Agnelo Queiroz. É ela que se reúne pessoalmente com os secretários, para reduzir o orçamento de cada pasta e trabalha para reduzir o deficit que o governo já anunciou que terá no fim de “um ano difícil”, como reitera a servidora do Senado, que está cedida para o Governo do Distrito do Federal. Aos 45 anos, Leany tem se dividido entre o trabalho e o pouco tempo para a família e a vida pessoal. Ela diz, no entanto, que tem muita energia para trabalhar pela cidade onde nasceu e que acredita nas boas intenções da equipe e do governador. 

Qual o principal desafio no comando da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão?

O grande desafio de todos nós, no governo, é assumir responsabilidades e tomar decisões, ainda conhecendo um pouco a máquina, e com todas as dificuldades que encontramos, não só do ponto de vista financeiro e orçamentário – contratos vencendo, convênios vencidos ou vencendo, muita coisa atrasada -, mas também da gestão. Você montar equipe, querer inovar e querer começar novos projetos, enquanto você não deixa os serviços públicos pararem. É aquela história: consertar o avião em pleno voo, cuidando para não deixá-lo cair.

Diante de toda a turbulência, como a secretaria consegue fazer planos?

O desafio é justamente esse: olhar para trás, porque o passado ensina, mas é preciso também inovar. No processo de transição, a gente começou a usar uma metodologia para identificar e acompanhar os riscos. Com as limitações de acesso à informação que tivemos na época, conseguimos mapear os problemas que enfrentaríamos. Esse tipo de prospecção, com um pouco de ciência, ajudou a gente a fazer um planejamento e manter uma agenda positiva. A gente fez, em conjunto com todos os gestores e equipes,  nosso mapa estratégico, que mostra onde pretendemos chegar, tudo alinhado com o plano de governo. As políticas públicas vão todas em direção às metas que pretendemos alcançar: aumentar a qualidade de vida e reduzir a desigualdade social; conquistar confiança da população no Estado – não no governo, mas no Estado mesmo; e tornar Brasília um modelo de cidade sustentável. Sustentabilidade não só do ponto de vista ambiental, mas do ponto de vista social. Sabemos que não é fácil, porque vamos entrar em um momento de crise nacional. Tivemos uma reunião do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e foi colocado exatamente isso: houve redução da pobreza na América Latina, nos últimos anos, mas a curva mudou e a desigualdade voltou a aumentar. Nosso desafio é diminuir a desigualdade em um momento que ela tende a aumentar. Agora, cada um dos pontos do mapa estratégico serão desdobrados em projetos, que vamos monitorar. É um modelo de gestão por resultados, baseado na metodologia BSC (Balanced Scorecard), que foi  desenvolvida na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. 

A partir dessa ferramenta de monitoramento de riscos que se chegou ao mapa que define as ações do governo?

 Reunimos os secretários, fizemos oficinas, pegamos as ações e compromissos do plano de governo, discutimos e chegamos à nossa visão de futuro, com o objetivo de recuperar a autoestima da população, para que as pessoas tenham orgulho de viver numa cidade com qualidade de vida. Agora, em  maio, o trabalho continua: vamos estabelecer as prioridades, indicadores e metas das secretarias. Vamos começar a criar uma cultura de um modelo de gestão em que não se paga só incêndio. Na administração pública, há muitos desafios e o dia a dia consome muito. Então, é preciso saber onde se quer chegar. Ainda na transição, identificamos 62 riscos e conseguimos nos antecipar aos problemas. 

E esses riscos têm sido confirmados ao longo deste ano?

Sim. Praticamente, todos. Alguns foram anulados, porque identificamos antes. Dos 62 riscos que tínhamos, 31 já foram superados. Alguns riscos, na minha opinião, são, inclusive, agenda positiva. Exemplo: não conseguimos colocar recursos para fazer o  Carnaval  ou a Corrida de Reis, em Brasília, porque não tinha dinheiro. No fim, a Secretaria de Esportes conseguiu fazer a corrida, com parcerias com a iniciativa privada, e o Carnaval de Brasília foi um sucesso.

A ferramenta de mapeamento de riscos foi desenvolvida no governo?

Sim. Ela foi adaptada de uma ferramenta que já existia.

Quem tem acesso?

Têm acesso à ferramenta todos os secretários, o governador, a equipe de monitoramento e a rede de gestão, que é formada por 50 pessoas das secretarias e das empresas públicas, que são responsáveis por alimentar o sistema. A gente ainda está criando a cultura de utilizar a ferramenta. Fizemos várias reuniões, capacitação para as equipes e continuamos trabalhando para fortalecer o modelo.

 O que a senhora acha que pode atrapalhar a execução dos objetivos estabelecidos nesse mapa estratégico?

A falta de dinheiro é um problema, mas é uma questão que vamos ter que lidar. Não temos recursos e a arrecadação é insuficiente para cobrir nossas despesas. Por isso, devemos buscar outras fontes e as operações de crédito são um instrumento importante. Podemos também estabelecer parcerias. A União, por exemplo, tem vários recursos. É uma forma de buscar alternativas. Outra coisa que pode ser feita é cortar despesas. Tem algumas coisas redundantes. É preciso ter eficiência e qualidade no gasto. Existe a necessidade de aumentar investimentos, mas pode-se melhorar os serviços com os recursos existentes, administrando melhor, priorizando… A dificuldade financeira pode atrapalhar, mas também há outras questões. Por exemplo: o Distrito Federal tem uma baixa execução do orçamento na área de investimento. Sabemos que há uma série de variáveis e percalços que podem impedir a execução destes projetos estratégicos. Mas eu acho que um governo alinhado, em que as pessoas estão voltadas para resolver os gargalos e os problemas ajuda.

No início dessa nova gestão, foi instituída a Câmara de Governança Orçamentária, Financeira e Corporativa do Distrito Federal (Governança-DF) e a senhora, na condição de secretária de Planejamento, ficou na coordenação do grupo.  Como tem sido esse trabalho?

O principal papel da Governança, que é composta por mim, secretária de Planejamento, pelos secretários de  Fazenda, da Casa Civil e da Gestão Administrativa e Desburocratização e a procuradora-geral do Distrito Federal,  é  tomar decisões conjuntas. O que acontece muito nos governos, e eu acredito que acontecia na gestão passada,  é que as decisões são tomadas de forma unilateral. Isso gera desequilíbrio. A criação da Governança é justamente para alinhar as decisões que têm, principalmente, impacto financeiro e orçamentário. Sem ter esse equilíbrio e sem  ter saúde financeira, fica difícil fazer investimentos. Se há um grau de organização das contas, facilita-se a tomada de decisões no momento de apagar o incêndio. Acho que o grande ganho da Governança é trazer para o governador condições de tomar decisões baseadas em informações e não na intuição. Cada secretário, em sua pasta, vê apenas um pedação (do governo). Quando você está nos órgãos centrais, tem uma visão do todo. Administrar a escassez é difícil.  

A Governança foi criada apenas para administrar a crise ou tem natureza perene?

Perene. Ela funcionou muito no primeiro mês como gabinete de crise, mas a natureza dela é de dar diretrizes e avaliar tudo aquilo que tem impacto. Isso leva a decisões mais responsáveis. 

A Governança tem trabalhado para montar um cronograma de pagamento das dívidas deixadas pelo ex-governador Agnelo Queiroz. Já tem alguma previsão de quando as empresas começarão a receber?

Isso está sendo discutido, não tem nada fechado ainda. 

 E a reprogramação financeira e orçamentária, que tem sido feita com cada secretaria, com o objetivo de reduzir os gastos, ainda está em curso?

A gente tem sentado com os secretários e os sub-secretários de Administração Geral (SUAG), que é o ordenador de despesa das pastas, e olhado para os orçamentos, tentando ver onde é possível fazer a redução, para que todo mundo possa caber nos próprios orçamentos. E a gente tem conseguido relativo sucesso. Por que, além de identificar onde dá para cortar, ajuda também a identificar aquelas áreas que estão com orçamento subestimado e que vai precisar de suplementação. Já fechamos com 15 ou 16 secretarias e identificamos  quais são os grandes problemas. Isso também nos ajuda a fazer previsões . Sabemos que não será um ano fácil. Teremos dificuldades, mas estamos fazendo um esforço de agora…

E o ano vai fechar com deficit?

É possível. Temos trabalhado para reduzir o deficit. Mas, só em relação a gastos com pessoal, o deficit é de R$ 2,5 bilhões, na projeção mais conservadora. Quando fazemos a reprogramação orçamentária aqui, nós vemos: há casos de secretarias que têm R$ 20 milhões previsto no orçamento para a folha de pagamento e precisa de R$ 44 milhões. Ou seja: o orçamento só dá até junho em algumas pastas. Em umas, orçamento dá para chegar até maio, outras até setembro. Por que o pagamento  não é centralizado, é por unidade. Então, as unidades informam à Segad  (Secretaria de Gestão Administrativa e Desburocratização) quanto que vão pagar de folha, a Segad roda a folha e a Secretaria de Fazenda paga a folha. 

Quem é e como é a rotina da Leany Lemos?

Tenho três filhos adultos: um   matemático,  que estuda  na Alemanha, faz doutorado lá; tenho uma filha que acabou de se formar na USP (Universidade de São Paulo), em ciências sociais, que é uma graça também; e um de 19 anos, o único que mora comigo, que faz engenharia ambiental na UnB (Universidade de Brasília).  Tenho jornadas estendidas, chego cedo saio tarde, trabalho também no fim de semana… mas tenho muita energia, muito entusiasmo. Primeiro, por que acredito muito no Rodrigo Rollemberg, como uma pessoa bem intencionada, que quer fazer o melhor pela cidade. E eu acho que a cidade precisa de renovação. Eu também acredito no secretariado. Tem muita gente legal, muita gente nova, da cidade, que quer fazer o melhor para Brasília.

 E você tem tempo para fazer as coisas que gosta?

Hoje, praticamente, minha agenda é toda de trabalho. Tenho pouco tempo para fazer as coisas que gosto: nadar, correr, ficar com a família e os amigos. Todo fim de semana, tento arrumar um tempinho para sair com amigo, ir à casa de alguém,  conversar e relaxar um pouco.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado