LAURA SCOFIELD
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O PT prepara uma estratégia para questionar no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) conteúdos que considere desinformação contra o presidente Lula e o partido durante a campanha eleitoral, mas há pelo menos dois tipos de obstáculo nesse caminho.
Um deles é o desenvolvimento da inteligência artificial e de novas técnicas de viralização. O outro é a mudança de composição do TSE.
Na eleição de 2022, o partido apresentou mais de 300 representações sobre desinformação eleitoral.
Quem presidia o TSE na ocasião era Alexandre de Moraes, ministro ligado ao tema como relator do inquérito das fake news e que fortaleceu o programa de combate à desinformação, inclusive por meio de parcerias com organizações de análise de redes e universidades.
Agora, o comando do tribunal caberá a um ministro indicado por Jair Bolsonaro (PL): Kassio Nunes Marques, cuja atuação na área deve ser menos intervencionista e mais restrita.
Outro ponto de atenção petista é o surgimento de novas estratégias de viralização nas redes. A principal é a adotada em 2024 pelo ex-candidato a prefeito de São Paulo Pablo Marçal, que utilizou competições de cortes de vídeo para difundir conteúdo e distribuiu prêmios em dinheiro às pessoas que conseguissem ter mais visualizações.
Em abril de 2025, ele foi condenado pelo TSE e se tornou inelegível por oito anos devido ao uso indevido dos meios de comunicação na campanha de 2024, mas a estratégia de pagar pessoas –que passaram a ser chamadas de clipadores– para fazer cortes e difundir conteúdos se profissionalizou, sendo utilizada por empresas para divulgar produtos.
O governo Lula sugeriu neste ano que o TSE incluísse uma cláusula para proibir explicitamente os cortes, mas não obteve sucesso. A estratégia permite o impulsionamento de conteúdo sem passar pelos mecanismos oficiais das plataformas, como os anúncios políticos, que ficam registrados em bibliotecas. A fiscalização, então, torna-se mais difícil.
A expectativa de responsáveis pela elaboração da estratégia petista é que temas já explorados pela campanha de Bolsonaro durante as últimas eleições presidenciais se repitam.
Entre eles estão assuntos morais, como a defesa do aborto e da criação de banheiros unissex, além de acusações sem provas de relação entre o partido e o crime organizado. Nas últimas eleições, esse foi um dos temas mais frequentes das campanhas bolsonaristas.
Quando Lula usou um boné com a sigla CPX, que significa complexo, por exemplo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), rival do petista no pleito deste ano, compartilhou fotos de fuzis com a sigla gravada.
Apoiadores de Jair Bolsonaro, como o deputado Mario Frias (PL-SP), afirmaram à época que a sigla significava “cupinxa, parceiro de crime”, o que é falso.
Uma representação produzida pela equipe jurídica do PT neste ano, apresentada à Justiça Eleitoral em 16 de março, identificou a discussão sobre a classificação de facções criminosas como terroristas como um novo tema de potencial repercussão na campanha eleitoral.
Uma das publicações denunciadas em março, compartilhada pelos perfis do PL, de Flávio e de Carlos Bolsonaro (PL-SC), retrata Lula com rosto diabólico e fundo vermelho. O conteúdo também diz que Lula não quer que as facções sejam tratadas como terroristas. A ação do PT foi assinada pelo escritório Ferraro, Rocha e Novaes.
De acordo com os advogados, as peças “propagam fatos inverídicos e descontextualizam uma complexa questão de diplomacia/soberania nacional para realizar propaganda eleitoral antecipada negativa”.
Em 2022, o TSE deu decisões favoráveis aos advogados petistas em um tema parecido e ordenou a exclusão de publicações que ligavam o partido ao crime e à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Dessa forma, a avaliação de envolvidos é de que parte dessa jurisprudência servirá para fortalecer as ações judiciais.
A reportagem questionou o escritório sobre como eles atuariam contra informações falsas na próxima eleição, mas não houve retorno. O presidente do PT, Edinho Silva, também foi contatado por meio de sua assessoria, mas não respondeu.
O resultado das ofensivas judiciais passadas é levado em consideração pelo partido na preparação da nova estratégia. Nas eleições de 2022 e entre 2024 e 2026, o partido contabiliza ter recebido ao menos 78 decisões favoráveis em processos ligados à disseminação de desinformação, das quais 13 foram na Justiça comum e 65 na eleitoral.
Na esfera eleitoral, no contexto da disputa de 2022, o partido registra ter derrubado postagens que buscavam ligar o PT à perseguição de cristãos, à tentativa de eliminar o agronegócio, à defesa do aborto e à manipulação de urnas eleitorais, por exemplo.
Uma foto do presidente manipulada para sugerir um encontro com Suzane von Richthofen, condenada por matar os pais, foi levada à Justiça e recebeu decisão para remoção.
A principal ação sobre desinformação do partido, entretanto, não foi julgada. Trata-se da Aije (Ação de Investigação Judicial Eleitoral) apresentada ao fim da campanha de 2022 como forma de concentrar as denúncias de desinformação. A ação acusa a equipe de Bolsonaro de criar um ecossistema de divulgação de fake news.
A Aije argumentou que esse ecossistema contava com a participação de ao menos 81 perfis na internet, incluindo os filhos de Bolsonaro e parlamentares como a deputada Bia Kicis (PL-DF) e a ex-deputada Carla Zambelli, atualmente presa por invadir os sistemas do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).