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Política & Poder

Prefeito eleito de Alexânia (GO) quebra hegemonia de 16 anos da dobradinha PMDB/PSDB no município

Arquivo Geral

11/10/2016 7h00

Atualizada 10/10/2016 23h47

Prefeitura de Alexânia: administração costuma ser acusada de inércia ao empreender obras que eram prioritárias. Foto: Angelo Miguel

Eric Zambon
eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br

O prefeito eleito de Alexânia (GO), Dr. Allysson (PPS), aos 31 anos, não apenas é o mais novo da Região Integrada de Desenvolvimento Econômico do DF (Ride-DF), como quebrou uma hegemonia de 16 anos da dobradinha PMDB/PSDB no município. Sua vitória, com pouco mais de um terço, quase 36% dos votos válidos, foi surpresa até para o próprio, que chegou a figurar com menos de 9% de possibilidades em pesquisas boca-de-urna antes das eleições.

O JBr não conseguiu contato com o vencedor, mas a uma TV local ele admitiu ter se surpreendido e creditou o resultado à vontade da população por “algo novo”. Dr. Allysson também agradeceu a um dos representantes do clã Rollemberg em Goiás, seu vice Armando (PSB), irmão do governador de Brasília. “Alexânia entrará para a história porque terá dois prefeitos”, afirmou Allysson.

Os habitantes da pequena cidade a cerca de 70km de Brasília, no entanto, revelaram indiferença ao suposto poder do sobrenome do vice-prefeito eleito. O churrasqueiro Humberto Pereira e Silva, 32, nascido e criado na cidade, alegou jamais ter visto Armando, também natural de Alexânia, conforme seu registro eleitoral.

“Só fiquei sabendo sobre ele pertinho da eleição. Não sabia nem que era político”, revelou, com franqueza, Silva. Ele garantiu, portanto, ter votado em Dr. Allysson por acreditar na necessidade de alguém diferente e não ligado ao atual prefeito Ronaldo Queiroz (PMDB) no comando. “No local onde eu moro o posto de Saúde está desativado há três anos e a reforma só começou agora, por causa das eleições”, reclama, estendendo a responsabilidade ao atual prefeito.

“O Ronaldo já tinha sido prefeito, foi agora de novo, e sinto que a cidade não cresceu em nada. A gente tá precisando de muita coisa, principalmente melhorar nosso hospital”, reivindica.

O churrasqueiro reclama ainda sobre a falta de ambulâncias para a zona rural de Alexânia e da falta de fomento ao comércio local, especialmente após a implantação do pedágio na BR-040, nas proximidades de Goiânia. “Depois disso o movimento no restaurante onde eu trabalho caiu muito. Acho que as pessoas pensam duas vezes antes de pegar a estrada por causa desse pedágio”, analisa.

A vendedora Terezinha das Graças, 51 anos, há 40 no município, acredita ser a violência o grande problema da cidade. Ela afirma ter tido a casa invadida e ter sido assaltada há cerca de cinco meses, e diz ouvir casos semelhantes diariamente.

“A situação ficou ainda pior de uns quatro anos para cá. Verdade seja dita, o prefeito não fez nada”, dispara a vendedora, que diz querer sair de Alexânia por conta da falta de segurança.
“A gente já sofreu tanto que não tem como esperar nada da política daqui, mas eu acredito que o Dr. Allysson seja uma boa pessoa”, pondera Terezinha, irritada.

Saiba mais

  • Em 2004, na esteira da candidatura de um rinoceronte em São Paulo e de um macaco no Rio de Janeiro, Alexânia teve como candidato a prefeito um bode, cujo número era 99 e, surpreendentemente (talvez nem tanto), recebeu milhares de votos.
  • O bode contou com apoio de Chico Vigilante (PT), que chegou a viajar para Alexânia para fazer campanha pelo animal. O bode tinha jingle, tocado nas rádios locais, e até banners de campanha.
  • O último prefeito não pertencente ao PMDB ou ao PSDB em Alexânia foi Iraci Antônio Davi, pelo PL. Ele foi eleito em 1996 à frente justamente do atual prefeito, Ronaldo Queiroz.
  • Em 2014, o ex-prefeito Iraci teve os direitos políticos suspensos após ser condenado por improbidade administrativa. Ele teria recebido indevidamente 14º salário entre 2003 e 2004.

Só dois vereadores aliados

A filha de Terezinha, Sheila Sara da Fonseca, telefonista de 29 anos, é ainda mais ácida ao falar do atual prefeito. Para ela, Ronaldo Queiroz “só fez o povo passar raiva” e a proximidade de Dr. Allysson com a família do governador de Brasília “não vai ajudar nossa cidade em nada.”

“Brasília é Brasília. Goiás é Goiás. Na campanha esse tal de Armando até ficou nos lembrando sobre esse parentesco, mas duvido que sirva de alguma coisa”, critica. Para Sheila, a vitória não apenas de um prefeito novo, mas também de uma coligação diferente das últimas gestões foi um recado do povo.

“Essa votação foi a gente pedindo socorro”, dramatiza. “Como pode uma cidade como a nossa, entre duas grandes capitais, ser tão atrasada?”, prossegue.

A missão de Dr. Allysson, no entanto, será árdua e exigirá toda a articulação do novato. Sua coligação, “Atitude para Mudar”, formada por PPS / PMB / PSB / Rede, elegeu apenas dois vereadores dentre os 11 possíveis. Portanto, a Câmara Municipal terá forte influência de caciques regionais, como Culau (PSD), terceiro colocado nas eleições, derrotados nas urnas, ainda influenciam o meio político local.

O candidato Adair Rebelo (PMDB) apoiado por Ronaldo Queiroz, que ainda ocupa o Palácio, foi o menos votado na concorrência para a prefeitura, mas seu partido elegeu dois vereadores, um diretamente e outro por meio de aliança.

O PSDB da ex-prefeita Cida do Gelo, que em 2016 deu lugar à candidatura de Ana Maria Enfermeira, segunda colocada no pleito, conseguiu apenas uma vaga para vereador.

Uma curiosidade sobre Alexânia foi a pulverização das coligações, formadas entre poucas legendas. Situação oposta à da maioria das outras cidades na Ride-DF.

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