Júlia Moura
Folhapress
Antes de o banco de Daniel Vorcaro sucumbir, a “emenda Master” era vista pela instituição como uma possível alternativa de sobrevivência.
Segundo investigações, o próprio Banco Master teria redigido o projeto legislativo e enviado ao senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, que o apresentou, sem alterações, no plenário. A Polícia Federal aponta que Vorcaro teria dito, logo após a publicação da proposta de emenda, que o ato legislativo “saiu exatamente como mandei”.
O projeto era importante para o Master porque visava a ampliação da cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Assim, os investidores dos CDBs (Certificados de Depósito Bancário) que a instituição vendia poderiam colocar mais dinheiro no banco, sem risco de calote.
O objetivo era aumentar a captação de dinheiro via CDBs, o que poderia dar uma sobrevida à instituição, cuja operação se mostrou fraudulenta. Sem ativos de qualidade, o Master dependia da venda desses títulos para seguir operante. Além disso, investigações anteriores mostraram que parte do dinheiro captado pelo Master acabou desviado do banco, inclusive para familiares.
A investigação da PF aponta que interlocutores do banco disseram que a medida “sextuplicaria” o negócio do Master e provocaria verdadeira “hecatombe” no mercado.
Conforme notícias sobre Vorcaro e o Master apontavam para dificuldades financeiras, investidores reduziam sua exposição aos CDBs do banco de modo a ficar dentro dos R$ 250 mil por CPF ou CNPJ cobertos pelo FGC.
Os CDBs do Master eram muito atrativos por oferecerem uma rentabilidade acima do mercado, chegando a 140% do CDI.
Quando Ciro Nogueira apresentou, em 2024, a proposta de aumentar a cobertura do FGC, o texto logo foi rechaçado. O senador tentou incluí-la na PEC (Proposta de Emenda à Constituição) de autonomia do Banco Central, mas a emenda foi rejeitada pelo relator, o senador Plínio Valério.
Na ocasião, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, determinou que sua tropa de choque no Congresso garantisse a retirada do texto da PEC, pois afirmou que a proposta colocava em risco o FGC.
Como noticiou a Folha, a Fazenda afirmava que se aprovada, a emenda levaria o fundo que funciona como salvaguarda do sistema financeiro à bancarrota.
Mesmo com o teto de R$ 250 mil, o Master consumiu cerca de R$ 50 bilhões do FGC, cujo patrimônio líquido em 2024 era de R$ 140,4 bilhões.