A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal mais 90 dias para concluir a investigação sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O prazo anterior do inquérito terminou em 10 de outubro, e a solicitação foi enviada ao ministro André Mendonça nesta quinta-feira (15/10).
A extensão do prazo se tornou necessária, segundo a PF, para esclarecer a origem e o destino de recursos ligados ao ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e finalizar perícias sobre movimentações financeiras e dados de celulares. A investigação mira o senador Flávio Bolsonaro (PL) e suspeitas de irregularidades nos aportes ao filme.
Entre as pendências está um pedido formal de cooperação jurídica internacional para acessar registros do fundo americano Havengate Development Fund e da empresa Go Up Entertainment LLC. A PF alega que a companhia se recusou a fornecer documentos diretamente.
O inquérito foi aberto em 23 de julho e apura crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e corrupção ativa. Os investigadores já identificaram sete remessas da Entre Investimentos e Participações ao Havengate, entre fevereiro e setembro de 2025, que somam US$ 12,3 milhões.
Os policiais buscam entender a relação desses aportes com os valores que efetivamente chegaram à produtora brasileira responsável pelo filme. A investigação também analisa 20 contratos de câmbio pelos quais a Go Up Entertainment Ltda. recebeu da empresa americana, entre junho de 2025 e abril de 2026, US$ 2,8 milhões (R$ 14,8 milhões).
Esse montante, justificado como empréstimo, foi cerca de três vezes maior do que o valor de referência de um contrato de US$ 920 mil. A polícia aponta divergências nas datas e na ausência de datas em alguns documentos.
A PF identificou uma “aparente contradição” no depoimento do colaborador Antônio Carlos Freixo Júnior. Ele confirmou que a Entre Investimentos fez as remessas a pedido de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, mas afirmou desconhecer que o dinheiro seria para um filme, alegando que se tratava de investimento imobiliário.
Contudo, uma carta-acordo apresentada pelo próprio Freixo contém referência expressa à produção cinematográfica e prevê um compromisso de US$ 24 milhões, de acordo com a polícia. O documento entregue possui apenas a primeira página.
A origem do dinheiro da primeira remessa também está em análise. Embora Freixo tenha mencionado recursos próprios, a documentação registra um depósito de R$ 12 milhões da Super Empreendimentos na véspera da transferência ao exterior. A PF quer esclarecer se essa empresa estava conectada ao circuito financeiro de Vorcaro.
Outra frente trata dos pagamentos pela locação do Hospital Indianópolis, em São Paulo, usado nas filmagens. Um contrato de R$ 92,2 mil previa depósitos em conta da RM77 Serviços Integrados, empresa indicada pela locadora. Segundo a PF, faltam comprovantes de pagamento e esclarecimentos sobre a relação entre as companhias.
Antes de ouvir novos depoimentos, incluindo representantes da produtora e do fundo americano, a polícia pretende concluir a análise de dados de Zettel e Freixo e a perícia contábil. A Ancine informou não ter localizado registro de captação de recursos públicos ou incentivos fiscais federais para a obra.
A agência também relatou ter autuado a produtora brasileira por realizar uma produção estrangeira no país sem a comunicação prévia obrigatória. A Go Up e o deputado federal Mário Frias (PL) negaram ter recebido recursos de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas ligadas a ele.