Sionei Ricardo Leão
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O deputado federal eleito Paulo Tadeu (PT) afirma que sua legenda não vai abrir mão da moralidade na composição da próxima gestão do Distrito Federal. “O Agnelo tem que compor o seu governo com técnicos e políticos de ficha limpa. A aliança que foi construída foi feita em cima de um programa de defesa ética. E nós não vamos romper com isso. Doa a quem doer”, avisa o parlamentar.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, ele frisou várias vezes que o seu partido está disposto a primar por esses valores. “Quem estiver aliado a esses princípios, com certeza vai estar com a gente. Quem não estiver não estará conosco. Então que vá para oposição”.
O petista que sempre expressa suas ideias com muita ênfase antecipa que a população do DF vai precisar ter certa paciência nos primeiros meses, até que seja possível ao novo governador organizar o que chamou de “bagunça administrativa”. “Depois, sim, a gente vai poder dar passos importantes para construirmos aqui uma cidade que nos orgulhe”.
Ao longo da conversa, Paulo Tadeu somente despiu-se da postura de quem está sempre pronto para um embate de ideias quando foi indagado sobre uma de suas principais paixões: o Corinthians. “É um time universal. Os principais líderes políticos desse país também torcem por esse time”, disse, com um riso largo.
A vitória de Agnelo Queiroz traz o desafio de se governar com uma coalizão ampla de partidos. A seu ver, que tipo de confrontos se darão no que se refere às condições de governabilidade?
O Agnelo é filiado ao PT, mas ele não será o governador só do PT, também não vai ser o governador dos 11 partidos, vai ser o governador da sociedade. Tenho convicção absoluta que o Agnelo vai agir dessa maneira, vai procurar unir essa sociedade, em vez de dividi-la, de fatiá-la. Vai agir em torno de um projeto político, não em torno de negociações que venham a desmoralizar um futuro governo e até a sua história.
Por outro lado, o PT certamente não vai abrir mão de ser o protagonista dessa aliança na composição do governo?
O que nós temos a oferecer é um programa que vai se pautar pela recuperação da auto-estima dessa cidade, o orgulho dessa capital, de prepará-la para o futuro, de restabelecer uma qualidade de vida que a gente perdeu nesses últimos anos e, fundamentalmente, um governo que preserve as características de um governo de esquerda, voltado para a ética e que tenha muita responsabilidade com a coisa pública. É isso que a sociedade espera da gente e é isso o que eu tenho certeza que o Agnelo vai construir. Qualquer outro tipo de negociata ou questões obscuras, a história está aí para mostrar que não dá certo.
Na prática, como se dará a composição das pastas, as escolhas dos cargos?
O Agnelo tem que compor o seu governo com técnicos e com políticos de ficha limpa. A aliança que foi construída foi feita em cima de um programa de defesa ética. E nós não vamos romper com isso. Doa a quem doer. O nosso projeto é programático de recuperação das políticas públicas, de recuperação dos setores estratégicos que estão destruídos e de defesa de um governo ético e transparente. Quem estiver aliado a esses princípios, com certeza vai estar com a gente. Quem não estiver, não estará conosco. Então que vá para a oposição. Como eu disse, a gente quer unificar a cidade, mas em cima de coisas boas, de qualidade, não que venha a nos envergonhar e perpetuar o que se está passando atualmente, depois de todo o escândalo
Num primeiro mandato de deputado federal é possível aspirar ser integrante do chamado “alto clero” de um Congresso que tem 593 membros?
Eu vou chegar com personalidade própria. Espaço você conquista e nós vamos conquistar o nosso, porque temos proposta, porque temos história, temos conteúdo. A nossa votação demonstra muito bem. Fui eleito pelo voto de reconhecimento e é esse trabalho que vou levar para o Congresso. Um Congresso que reafirme o nosso País como soberano e livre. Que possa realmente desenvolver políticas para inclusão dos brasileiros, nas suas riquezas e naquilo que o Brasil pode fazer de melhor. Tenho certeza que vamos reafirmar uma postura de um deputado de esquerda que será fundamental tanto para Dilma (Rousseff, eleita presidente da República) quanto para Agnelo. Quero muito, no Congresso, articular as demandas sociais. Tenho certeza de que seremos bem sucedidos nessa caminhada
Antes da posse em 1º de janeiro de 2011, haverá alguma articulação prévia para preparar os trabalhos congressuais?
Terá. Nós vamos nos reunir com o partido para definir as estratégias de atuação no Congresso Nacional, juntamente com aliados que construíram a candidatura da companheira Dilma Roussef. Aqui em Brasília, o companheiro Agnelo vai precisar iniciar imediatamente a transição, nos diversos setores da sociedade, no parlamento. A gente vai estar aí à disposição.
Ao que o senhor atribui o fato de ter tido a segundo melhor votação para a Câmara dos Deputados, na bancada eleita pelo Distrito Federal?
Eu atribuo a esses 12 anos de trabalho na Câmara Legislativa. Tenho dito que fico muito contente, porque que a votação que obtive não foi de um voto de protesto, mas de reconhecimento, o que consolida, portanto, uma responsabilidade de manter firme as nossas bandeiras de esquerda, em busca de uma sociedade socialista e igualitária. E é isso que nós vamos continuar defendendo na Câmara dos Deputados.
Podemos definir Paulo Tadeu como um parlamentar de perfil sindical e defensor dos interesses de Sobradinho?
Eu nasci e moro em Sobradinho, mas nunca me considerei um deputado de Sobradinho, mas um deputado do Distrito Federal e, agora, pretendo ser um parlamentar do Brasil. Não dá para um parlamentar ser eleito e ficar praticamente trabalhando só para a sua cidade e para a sua categoria. Sempre tive o entendimento que o trabalho parlamentar é muito mais complexo, pois não se resume àquela cidade onde se vive ou àquela categoria que representa.
Qual foi a sua contribuição no segundo turno da campanha eleitoral?
Primeiro, não fiz uma campanha solo. Um dos sucessos veio porque a campanha nunca deixou de estar aliada e atrelada à candidatura da Dilma e do Agnelo. Em nenhum material, em nenhum comitê, deixamos a importância de eleger Dilma presidente e Agnelo governador, que são os dois principais projetos. O projeto de um distrital e de um deputado federal tem a sua importância. Porém, os mais importantes são o de presidente e o de governador. Como deputado e como cidadão, nunca deixei de apoiar esses dois companheiros. No segundo turno, a gente teve a oportunidade de se dedicar exclusivamente.
Qual o tema que mais lhe interessa hoje para defender no Congresso Nacional?
Quero muito procurar articular na Câmara Federal a construção do passe livre para os estudantes em todo o País. A gente sabe que é um tema que tem que envolver os municípios e os estados. Mas acredito que, com Dilma presidente, poderemos fazer uma articulação para que o passe seja estendido a todo o País. Essa vai ser uma grande bandeira que vou defender, porque tenho convicção de que isso fortalece a educação como instrumento estratégico de desenvolvimento da nossa sociedade. Além disso, vou procurar ter ações no sentido de rediscutir e redirecionar a carga tributária. Em especial para as pequenas empresas. É bom que se diga isso porque muita gente fala de revisão de carga tributária, mas eu não faço nenhuma questão de rever para banqueiro. A nossa visão de reavaliar vai se pautar em cima do trabalhador / servidor público e mais micro e pequenos empresários.
As suas palavras seriam a face de um segmento do PT que se esforça para deixar no passado uma postura de partido setorizado, o que se traduz que Agnelo estará diante de uma legenda mais disposta ao diálogo?
O PT sempre foi um partido que discutiu a sociedade de uma forma mais ampla. Nunca foi restrito a um determinado segmento ou setor. É evidente que as condições que desenham para Agnelo são as melhores possíveis. Tem a Dilma eleita presidente, com o Cristóvam e o Rollemberg como senadores, com a maioria dos deputados federais e distritais. Estão dadas as condições para que o Agnelo faça o melhor governo da história do Distrito Federal. Agora, eu sempre digo o seguinte: uma coisa é o que se estabelece no papel, outra coisa é a prática.
Como se dará, a seu ver, a equação entre as condições reais e as expectativas que a sociedade passou a depositar em Agnelo?
Eu tenho certeza que, depois de anos e anos de descaso, de governos completamente descomprometidos com a cidade, a sociedade vai precisar dar um tempo para se organizar a casa. Depois, sim, a gente vai poder dar passos importantes para construirmos aqui uma cidade que nos orgulhe. Vamos precisar de muita solidariedade, muita transparência no trato com a coisa pública, muita ética e, ao mesmo tempo, montar uma equipe que possa tirar Brasília dessa bagunça, para que se torne capaz de receber aqui a Copa do Mundo. Mas isso vai levar um tempo. Não dá para a gente querer cobrar do Agnelo as transformações no primeiro mês. A gente sabe disso. A gente não resolve tudo isso num passe de mágica. Mas eu tenho muita confiança que, com a sua sabedoria e sua competência, ele vai conseguir fazer o melhor governo.
Qual papel caberá ao deputado federal Paulo Tadeu nesse cenário?
Paulo Tadeu vai ser o parlamentar representante dos trabalhadores, defensor das bandeiras de esquerda, das bandeiras socialistas. Não tenho nenhuma vergonha de dizer que sou um deputado de esquerda e socialista e vou fazer e vou reafirmar isso no parlamento federal. No governo local, vou contribuir com essa construção que o Agnelo tem reafirmado para sociedade. Nesse projeto cabem todos, desde que estejam envolvidos nesses princípios, da recuperação das políticas públicas no fortalecimento do Estado, que seja responsável pelo crescimento e desenvolvimento econômico do Distrito Federal. Pode contar com a gente. Vou ser o colaborador, um fiscalizador, porque são essas propostas que nos fizeram chegar até aqui e que nos fizeram vitoriosos.
Ainda que a sua doutrina seja de pensar o Distrito Federal, globalmente, não é uma demanda o fato de a região de que o senhor é originário, ter tido menos prioridade nas últimas gestões do GDF?
Acredito que houveram cidades que foram abandonadas pelo Arruda (ex-governador José Roberto Arruda – sem partido), é o caso de Planaltina e Brazlândia. E também de Santa Maria e Recanto das Emas, que estão em outro eixo. Então a gente tem que ver o Distrito Federal sem que fique uma região em detrimento da outra. Cada uma delas tem a sua característica, tem a sua potencialidade de desenvolvimento econômico e social. O que o governo tem que perceber é onde ele pode perceber com políticas públicas onde a cidade pode se desenvolver economicamente.
Como pode se inverter ou se igualar essa destinação de investimento?
Eu vou defender, por exemplo, que, na Copa do Mundo, as seleções que virão para cá não fiquem sediadas somente no Lago Norte e no Lago Sul, que possamos ter centros de treinamento em Ceilândia, em Brazlândia, em Planaltina. Com isso, vai se obrigar o governo a levar para essas cidades um conjunto de melhorias que foram acertadas com os demais países do mundo. O Brasil se comprometeu a dar conta de uma série de atividades estratégicas, em saúde, segurança, enfim. Então, a gente pode começar a criar esse crescimento em todas as cidades. Gama é outra região importante para receber uma dessas seleções. Então, é fundamental que a gente descentralize o DF. Essa é a defesa que já estou fazendo. Outra coisa que vou defender: não dá para trazer artistas, com todo o respeito, de outro lugar do mundo. Você tem que mostrar para os turistas de outros países e de outros estados que aqui tem cultura. As quadrilhas juninas de Ceilândia podem se apresentar, o bumba meu boi, as bandas de rock, o samba, a capoeira da nossa cidade. Então, Brasília é essa fusão de culturas. Nós temos que garantir que, na abertura da Copa do Mundo, se apresentem os nossos artistas. Mesmo que você traga uma atração nacional, mas que privilegie as manifestações locais. O Agnelo tem dito com muita propriedade que a Copa do Mundo não é só o Estádio Nacional e o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). É muito mais do que isso. Infelizmente, tem gente que só enxerga Brasília naquilo que é o Plano Piloto, e isso é um equívoco.
O senhor está fazendo previsões como se já houvesse a definição de que a abertura da Copa será em Brasília, mas esse assunto ainda não foi decidido.
Eu digo para você o seguinte: ocorrendo ou não a abertura da Copa do Mundo aqui, essa nossa arte e essa nossa cultura tem que estar presente. Eu sou daqueles que defendem que a abertura do evento seja aqui no Distrito Federal. Vamos lutar por isso. Mas se ela não vier, não irá inviabilizar a possibilidade de utilizar a Copa do Mundo para apresentar a todo o planeta a cultura que é desenvolvida no Distrito Federal.
Até que ponto vai a sua relação com os valores culturais de Brasília?
Acho que você não sabe, mas eu sou o primeiro deputado nascido e eleito no Distrito Federal. Isso tem um simbolismo, que eu diria importante.
Com se deu a história da sua família no DF?
Meus pais são cearenses. Metade nasceu aqui. Então a gente tem muito essa tradição, tenho toda essa cultura nordestina. O meu pai foi taxista, a minha mãe, dona de casa.
Por que um descendente de cearenses, nascido e criado em Brasília, tornou-se torcedor do Corinthians, a ponto de ser membro da Gaviões da Fiel no DF?
O Corinthians é um time que extrapola as divisas de São Paulo. É um time universal. Eu fico muito feliz porque os principais líderes políticos desse País também torcem por esse time. O Lula é corintiano, João Pedro Stédile também é. E daí em diante vai ter muitos para relacionar.