Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Política & Poder

O que está segurando crescimento de Bolsonaro é o preço dos combustíveis, diz Fábio Faria

Diante dos sucessivos aumentos nos preços dos combustíveis, Faria se une à ala do governo que defende a adoção de subsídio para o diesel

Por FolhaPress 28/05/2022 11h06
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Camila Mattoso, Marianna Holanda e Julio Wiziack
Brasília, DF

Ministro das Comunicações e integrante da ala política do governo, Fábio Faria (PP) diz acreditar que o maior empecilho para a reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) é a economia —mais precisamente, a alta nos combustíveis.

“O que está segurando ainda é o preço dos combustíveis. Mas, mesmo assim, ele [Bolsonaro] está crescendo”, afirmou, em entrevista à Folha na quarta (25), antes de ser publicado o Datafolha mais recente.

Na pesquisa divulgada na quinta-feira (26), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu vantagem de 21 pontos percentuais sobre Bolsonaro, liderando com 48% das intenções de voto no primeiro turno, ante 27% do principal adversário.

Diante dos sucessivos aumentos nos preços dos combustíveis, Faria se une à ala do governo que defende a adoção de subsídio para o diesel, como forma de impedir uma eventual greve dos caminhoneiros –que fazem parte da base eleitoral do presidente. Para isso, defende utilizar R$ 15 bilhões do lucro de R$ 44 bilhões da Petrobras, apesar de reconhecer a resistência do ministro Paulo Guedes (Economia).

Sobre negócios com o bilionário Elon Musk, que visitou o Brasil a seu convite no dia 20 de maio, o ministro afirma que a empresa do bilionário terá que participar de licitação para prestar serviço no país.

O presidente tem condicionado eleições às sugestões das Forças Armadas ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A eleição só vai ser limpa se a corte acatá-las?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Não posso falar pelo presidente. O que eu tenho certeza é que o desejo dele é transparência nas eleições. Ele não quer colocar as Forças Armadas lá para fazer algo que não [seja dar] transparência. Não posso ir contra ou a favor de nada, quero buscar consenso. Chamaria as Forças Armadas, faria uma grande reunião com o presidente, com o TSE, e abriria ali uma audiência pública, para ver se dali sairia uma fumaça branca. Ninguém quer ter eleição que possa achar que o resultado não foi real. Até acreditei que o TSE estava muito próximo de acatar as sugestões das Forças Armadas, aí teve uma virada.

Não há mais prazo para mudar as resoluções deste ano.

Para todo mundo é bom pacificar esse assunto para que a gente tenha processo eleitoral pacífico. Só que muita gente contra o presidente fica torcendo para que mantenha essa guerra para ver a confusão. Isso tem ganhado força. Pessoas próximas ao TSE fazendo com que dobrassem a aposta, o presidente também, aí a gente não consegue chegar a um consenso.

As Forças Armadas estão mais próximas do Bolsonaro hoje?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Sempre estiveram próximas. Continuam próximas, esta é a resposta exata.

Na semana passada, o vice-presidente Hamilton Mourão chamou Alexandre de Moraes de juiz parcial. O sr concorda?

Não vou cair nessa armadilha de fazer nenhum tipo de comentário. Tenho relação com todos os Poderes, com políticos de todos os partidos. O Brasil está ficando insuportável, as pessoas não estão respeitando quem pensa diferente. E quem pensa diferente está virando praticamente seu inimigo para sempre.

O sr acha que a questão dos combustíveis pode atrapalhar a reeleição?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Já tem [essa questão] e ele está crescendo com [a alta dos] combustíveis. Se não tivesse, ele estaria com 60% [de intenção de votos]. O que ainda está segurando [Bolsonaro] é o preço dos combustíveis, mas mesmo assim ele [presidente] está crescendo. Se não tivesse a guerra da Ucrânia com a Rússia e não tivesse tido esse crescimento da inflação, dos combustíveis, preço dos alimentos, ele já estava lá na frente, disparado. Ele vai ganhar, mesmo com isso.

O governo vai intervir na Petrobras para segurar o preço? Movimento recente foi lido pelo mercado como mais uma tentativa de interferir no preço.

Quando a mudança ocorre, tem temor. Mas quando o mercado observa os nomes, faz uma leitura, o resultado vem no final do dia. E o resultado visto pelo mercado é que ninguém que entrou vai fazer uma loucura.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Paulo Guedes está muito forte depois de emplacar o ministro de Minas e Energias e o presidente da Petrobras. O que explica ele crescer no governo nesta reta final?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ele sempre foi forte com o presidente. Houve desgaste com relação a alguns pensamentos divergentes, mas ele nunca perdeu a força. O Brasil se saiu bem na política econômica adotada pelo governo na pandemia, em relação a outros países, e ele [Guedes] foi crescendo. Mas o presidente escuta o Roberto Campos Neto [presidente do BC], [Gustavo] Montezano [presidente do BNDES]. Escuta todo mundo e não diz o que vai fazer. É sempre assim.

O sr não vê incoerência na intenção liberal de privatizar a Petrobras e, ao mesmo tempo, controlar preços?

Ele [Bolsonaro] não fez. Quem fez foi Dilma [Rousseff]. E ele sabe que, quando ela fez isso, acabou num processo de impeachment. O governo não vai fazer nada em relação à Petrobras. Vai usar o bom senso. A Petrobras passou para o governo lucro de R$ 44 bilhões, é um senhor dividendo. Será que R$ 15 bilhões desses R$ 44 bilhões para subsidiar diesel de caminhoneiros para evitar greve é muito? Foge do bom senso? Já ouvi o mercado falando que não. Se for algo em torno de R$ 1,5 bilhão por mês não teria impacto tão grande. São coisas que estão sendo analisadas.

O sr é favorável ao subsídio para diesel?

Se for nessa linha. O Auxílio Brasil de R$ 400 foi aceito [pelo mercado]. Se fosse R$ 600 não seria aceito e teria explodido o dólar. A questão do subsídio é igual. Guedes é contrário, respeito a posição dele. Nunca tratei desse assunto com ele, nem com o presidente. Estou falando que é uma opção razoável.

O que o presidente precisa fazer para passar o Lula nas pesquisas?

Só continuar do jeito que está. E o Lula falando mais, muito discurso para mostrar quem eles são. O melhor marqueteiro do presidente é o PT.

O que é, afinal, esse acordo anunciado com o bilionário Elon Musk?

O principal ponto é em relação à proteção da Amazônia. Ele vai ceder os satélites que tem e isso será gratuito. Ele só está precisando dos gateways na Amazônia, as portas de entrada em solo. Deve fazer isso nos próximos meses.

A gente já tem satélite que faz isso, só que os satélites dele estão a 550 km da Terra, são mais baixos, e 20% a 30% dos satélites dele têm um laser que detecta o barulho da serra elétrica. Cabe muito para a Amazônia. Então isso é o acordo que vai fazer: tomar conta ali e disponibilizar [as informações] para os militares e o pelotão de fronteira.

Musk anunciou que vai conectar 19 mil escolas, mas não tem nada certo sobre isso, tem?

Ele [Musk] disse que tinha 19 mil escolas sem conexão no Brasil e ele estava vindo aqui para tratar disso. A gente precisa de dois braços para fazer essas escolas. Se fosse só com um ia demorar muito.

Qual a diferença entre Starlink e Viasat [que já opera o serviço de conectar escolas]?

A Starlink tem velocidade maior e latência menor. Fizeram um teste na frente da Anatel e das teles e deu 300 Mbps [Megabits por segundo], qualidade de 4G. Enquanto o nosso, o Wifi Brasil, é 10 Mbps a 20 Mbps. Se tem essa qualidade, a Anatel pode optar em lugares mais remotos por usar esse serviço para acelerar as escolas.

O que a Starlink quer é escolas em zonas rurais, principalmente aldeias indígenas. É o que move ele [Musk]. Ele viu as fotos das aldeias e disse: ‘quero isso’.

Ministro, por que ele está tão interessado na Amazônia, em aldeias indígenas?

Porque é algo diferente do que ele já tem. Ele sempre gosta do diferente. Uma vez falei para ele de semicondutores e ele disse: ‘não quero colocar porque já existe. Só se eu precisar para a Tesla ou a SpaceX’.

Para isso ele vai participar de uma licitação?

Ele vai participar de uma licitação. A gente vai conectar as escolas com a Starlink ou sem a Starlink.

Nesse caso, as empresas vão ser multadas se não cumprirem a obrigação. Agora, elas teriam de pedir permissão para contratar a Starlink ou qualquer outra empresa. Não é tão simples. É, ministro?

Elas vão ter de mandar pra Anatel e ela decide se cabe ou não. Várias outras empresas de baixa altitude vão abrir também. O [dono da Amazon, Jeff] Bezos vai abrir. Já recebi eles aqui. Estão com licença [da Anatel] para mais de 3 mil satélites.

O que essa turma quer aqui, ministro?

Eles estão vendo que há 7 bilhões de pessoas no mundo e todo mundo usa internet. Eles vão oferecer internet pro mundo inteiro. Dez dólares por pessoa, quanto que dá? Acredito que isso é o principal. E dados também. Vão ter dados de Amazônia, do desmatamento.

Acha que dá para explorar eleitoralmente a vinda do Musk?

Ninguém queria conversar com o Brasil. A partir do momento que vem Elon Musk para cá, mostra que o Brasil não está isolado. Musk não veio aqui pra bater foto. Ele é pragmático. Veio pra cá pra tratar de Amazônia, pra entregar [a conexão]. Não veio pra cá como político. A gente não falou sobre eleição, não tratamos sobre nada eleitoral.

Estávamos vindo num momento de muita notícia negativa em relação à Amazônia. E que todo mundo, todos os presidentes, chefes de Estado, artistas, o Leonardo DiCaprio, criticavam a Amazônia.

A gente não estava vendo uma agenda positiva. Elon Musk veio aqui, quer ajudar a preservar a Amazônia, quer ajudar conectando escolas, e quem quiser vir é bem-vindo. Esse movimento foi uma inversão da fila. Vai ter uma fila de críticos, que já é enorme, e a gente abriu uma fila para pessoas que querem vir. Até a imprensa internacional falou que isso pode ser a nova corrida dos bilionários, a corrida por ajudar a Amazônia. Se isso ocorrer, acho que a gente acertou.

Estão procurando mais gente?

Não, mas já tem gente querendo marcar reunião para tratar de Amazônia. Isso é interessante, a vinda dele fez com que outros começassem a querer falar também.

Mas o sr procurou o Musk?

Procurei. Mandei uma carta pra ele [antes de visitá-lo no ano passado], dizendo tudo o que a gente fez aqui. Acho que dá pra fazer uma parceria, um ganha-ganha, é bom pro governo, e bom pro Brasil.

Como eu falei, já imaginou uma operação policial na Amazônia de desmatamento ilegal visto pela Starlink por drones autônomos e a Polícia Federal chegando? Vai ser notícia no mundo inteiro. E as pessoas vão ver que a Amazônia agora está monitorada. Porque ela já está monitorada, só que a gente vai ter mais informações.

Aí eu mandei as fotos das escolas na aldeia yanomami. E ele disse: ‘Isso que eu quero. Essas escolas aí eu quero.’ Então, eu não posso garantir, mas acredito que, assim que ele abrir o gateway, ele vai dar várias escolas.

Isso não é perigoso? O que o Exército, o GSI, a Defesa pensam disso?

Quem decide se os satélites vão pro espaço é a UIT [União Internacional de Telecomunicações]. Os satélites estão aqui em cima. Aí, daqui cinco anos, vamos ter 40 mil da Starlink, 3.200 do Bezos, a Oneweb, todos. O que a gente conseguiu foi que eles nos fizessem, nos dessem informação do que eles estão vendo. Se a gente disser ‘a Anatel é contra, o GSI é contra’, os satélites estão lá, não pode nem atirar neles, não tem o que fazer. É como reclamar porque temos estrelas em cima da gente. Se a Anatel disser ‘sou contra a Starlink em cima do Brasil’, eles continuariam aqui em cima.








Você pode gostar