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Política & Poder

‘O PT cometeu um erro ao não assinar a CPI do Master’, diz Edinho Silva, presidente do partido

“É evidente que, diante da gravidade das denúncias, as bancadas deveriam ter liderado a formação das comissões de investigação”

Redação Jornal de Brasília

01/05/2026 6h48

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Foto: Ricardo Stuckert PR/Instagram Edinho Silva

Em uma semana de derrotas históricas para o governo, o presidente do PT, Edinho Silva, classificou como “erro” o fato de parlamentares de seu partido não terem assinado o requerimento pedindo a instalação da CPI do Banco Master.

“O PT deveria ter assinado a CPI do Banco Master. Foi um erro que o PT cometeu”, disse Edinho ao Estadão. “É evidente que, diante da gravidade das denúncias, as bancadas deveriam ter liderado a formação das comissões de investigação”.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), liderou, nos últimos dias, as articulações que impuseram dois importantes reveses para o Palácio do Planalto. Além disso, fez um acordo com a oposição para engavetar o pedido de abertura da CPI proposta para investigar as falcatruas do Master.

Na quarta-feira, 29, sob o comando de Alcolumbre, o Senado rejeitou a indicação do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Um dia depois, uma sessão do Congresso derrubou o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto que reduz as penas de seu antecessor, Jair Bolsonaro, e outros condenados pelos atos golpistas do 8 de Janeiro.

“Mais uma vez, o Congresso vira as costas para a sociedade”, afirmou Edinho, que é coordenador da campanha de Lula a um novo mandato. “O modelo político brasileiro ruiu. Está totalmente destruído”, completou o presidente do PT, candidato a deputado federal.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O governo sofreu duas importantes derrotas nesta semana. O Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias para o STF e o Congresso derrubou o veto do presidente Lula ao projeto que reduz as penas dos condenados por atos golpistas. Que influência essa queda de braço entre governo e Congresso terá na campanha?

Penso que são duas questões distintas. Sobre a rejeição ao nome do ministro Messias, o Senado comete um grave erro e gera importante instabilidade institucional. É mais uma atribuição do Poder Executivo esvaziada pelo Legislativo. Messias é um jurista sério e a rejeição do nome dele revela a disposição de setores do Congresso de enfraquecer o Judiciário e transformar uma indicação qualificada em disputa política.

Mas nessa disputa política também houve a derrubada do veto do presidente Lula ao projeto que diminui a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro…

Mais uma vez, o Congresso vira as costas para a sociedade que, em sua maioria, rejeita a proposta. Os responsáveis pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 planejaram assassinar o presidente Lula, o vice Geraldo Alckmin, e o presidente do TSE na época, Alexandre Moraes. Aliviar a punição de crimes dessa natureza é ignorar a gravidade da tentativa de ruptura institucional.

Que tipo de reforma o PT defende para o Judiciário? É o código de ética proposto pelo presidente do STF, Edson Fachin?

Não. Eu acho que é muito simplismo você dizer que uma reforma do Judiciário equivale a um código de ética. Nós temos que olhar aquilo que os países europeus fizeram e que deu certo. Não precisamos inventar o ovo. Nós podemos olhar a África do Sul, que fez uma reforma. Eu penso que o próprio Poder Judiciário deveria construir uma comissão formada por seus integrantes e envolver o Ministério Público. E colocar nessa comissão juristas, pesquisadores, professores de universidades, olhar as experiências internacionais e buscar um caminho para que a gente combata qualquer tipo de privilégio e aproxime o Judiciário da sociedade.

Desde os atos do 8 de Janeiro, o STF tem sido aliado do governo Lula. O PT e o presidente só estão adotando essa posição agora porque o Judiciário enfrenta uma crise de credibilidade, não?

Nós sempre defendemos a reforma, o controle externo do Judiciário. Agora, é evidente que, se nós estamos vivendo uma crise, tem que ter resposta para a crise. Mas que a resposta seja no campo da democracia, e não no campo do autoritarismo. Que o Judiciário seja protagonista da construção das suas reformas, como eu penso que o Congresso tem que ter protagonismo na reforma político-eleitoral. O modelo político brasileiro ruiu. Está totalmente destruído.

E ruiu por que? Por causa das emendas?

As emendas são um sintoma do desgaste do modelo político brasileiro. Quando você torna a emenda uma moeda de troca para votar projetos, é um sintoma gravíssimo. Nós temos que recuperar a credibilidade do Legislativo. Por que a sociedade não pode escolher o que é prioridade para o Orçamento? Podemos regulamentar o plebiscito, para que seja anual, e chamar a sociedade para o jogo democrático. Nós queremos o fim desse modelo de emendas que está aí. Não pode o Congresso executar, como está previsto no Orçamento de 2026, R$ 60 bilhões.

O presidente fica refém do Congresso…

Fica refém e se estabelece um balcão de negociação que enfraquece o sistema político inteiro. E, seja o presidente, o governador, o prefeito, onde existe emenda impositiva ele tem o seu poder usurpado.

A estratégia traçada para a campanha do presidente tem o objetivo de se aproximar do centro. Mas como reconquistar o eleitor tradicional do PT, que o partido vem perdendo até no Nordeste, seu antigo reduto eleitoral?

Eu acho que não tem essa contradição. Estamos vivendo uma sociedade muito polarizada onde, lá na frente, o que vai ser decidido é se nós queremos um Brasil democrático ou um Brasil autoritário. O que vai estar em escolha é muito mais que uma votação com esse recorte ideológico.

E a aproximação do PT com a direita liberal, defendida em um dos documentos apresentados no 8.º Congresso do partido? Isso não é uma contradição?

Não. Eu acho que nós temos que ter uma construção com o campo democrático. Você tem partidos de centro que valorizam a democracia. Alguns partidos de direita também valorizam a democracia.

O sr. tem dito que a resposta ao antissistema está com a esquerda, não com a direita. Mas como o PT, que já ganhou cinco eleições presidenciais, pode se apresentar como a antítese de um sistema que ajudou a construir?

O que eu tenho dito é que nós estamos vivendo uma crise. E ela é uma crise internacional, não é nacional. É uma crise econômica longa, que se estende desde 2008 e empobrece o mundo. Então, a sociedade vai às urnas, ela vota, ela vota e ela vota e a vida não melhora. Isso cria um sentimento antissistema. Esse é um fenômeno internacional, que tem reflexo também no Brasil.

Mas a questão é: o PT está no governo. Então, o PT é o sistema hoje.

É evidente que não. O PT defende a reforma da renda, a reforma político-eleitoral. Nunca tivemos maioria no Congresso para fazer a reforma político-eleitoral. O PT sempre defendeu o voto no partido, e não nos indivíduos. Nós queremos que os partidos apresentem o que eles querem para o Brasil para que o voto seja em propostas, e não em indivíduos porque, senão, vamos ter daqui a pouco um Congresso formado por ‘influencers’, que não sabem sequer como funciona a economia. Não têm proposta para saúde, educação, desenvolvimento econômico, mas, porque são campeões de lacração, vão se tornar parlamentares. Esse é o modelo de democracia que o Brasil quer? Eu creio que não.

Pesquisas mostram que a juventude não está votando no PT. Como conquistar esse eleitorado?

A gente não pode negar a dificuldade que nós temos de dialogar. Precisamos ter humildade para que a gente se aproxime desses setores e crie as condições de diálogo. (É preciso) o partido se organizar com quem está nas comunidades evangélicas, nas comunidades católicas, com quem hoje faz parte da nova classe classe trabalhadora, que são os recortadores de vídeo, os motoristas de aplicativos, os moto-entregadores. É uma gama de novas profissões e boa parte é ocupada pela juventude.

O PT divulgou um vídeo nas redes sociais que associa o senador Flávio Bolsonaro ao escândalo do Banco Master. Só que ele não é investigado nesse caso e o Centrão saiu em sua defesa. Uma estratégia assim não atrapalha alianças do PT com esses setores nas eleições?

O Banco Master é uma criação do governo Bolsonaro. As operações que depois foram demonstradas fraudulentas foram autorizadas pelo Banco Central na gestão do Campos Neto. Quem pediu para apurar as denúncias de corrupção contra o Banco Master e estruturou a Polícia Federal para fazer as investigações foi o presidente Lula.

Mas por que no manifesto do PT foi tirada a referência à questão da reforma do sistema financeiro, justamente o trecho que falava do Banco Master?

Porque, quando nós elaboramos o manifesto, tratamos de diretrizes que de fato sinalizem a atuação do PT no próximo período. Então, não é correto pôr uma questão conjuntural tão específica. Agora, em todos os nossos debates, nós enfatizamos a necessidade de investigação do Banco Master.

E por que nas diretrizes do programa de governo de Lula também não entrou a questão relativa ao desvio de aposentadorias do INSS?

As diretrizes são maiores que os fatos conjunturais. O que nós estamos dizendo é que temos que combater todas as formas de corrupção. Foi o presidente Lula que pediu para apurar as denúncias do desvio de dinheiro dos aposentados do INSS, que teve início no governo Bolsonaro.

Mas o caso Master não se refere apenas a um grupo político. Embora o banco tenha sido criado em 2019, na gestão de Bolsonaro, a Polícia Federal analisa a relação do Master com políticos do PT da Bahia, como o senador Jaques Wagner e o ex-ministro Rui Costa. O PT também não tem telhado de vidro nessa história?

Não. Eu não vi nenhuma denúncia de corrupção contra os governos da Bahia.

Está no relatório da Polícia Federal.

A Polícia Federal está investigando o Brasil inteiro: prefeituras e Estados que compraram títulos do Banco Master. Quando tentaram envolver o senador Jaques Wagner, ele foi a público, explicou e disse que, absolutamente, não tinha nada a ver com aquela denúncia. A questão não é quem se envolveu de má-fé ou de boa-fé com o Master. A questão é por que, no governo Bolsonaro, autorizaram o Master a fazer operações, quando os relatórios já apontavam que o banco não tinha lastro?

E por que o PT não assinou a CPI do Banco Master?

Não sei. Acho que foi um erro. O PT deveria ter assinado a CPI do Banco Master. O PT deveria ter liderado a criação da CPMI do INSS. O presidente Lula defendeu isso para as lideranças do PT o tempo todo. Foi um erro que o PT cometeu, porque a gente tem uma concepção, e de todo não está errado, que as comissões de inquérito paralisam o Congresso, impedem a aprovação dos projetos. Portanto, elas paralisam o governo também. Mas é evidente que, diante da gravidade das denúncias, as bancadas deveriam ter liderado a formação das comissões de investigação.

A que o sr. atribui esse desgaste do presidente Lula, como indicam as pesquisas?

Eu não acredito em desgaste. Pesquisa é sempre uma fotografia do momento. É evidente que a fotografia desse momento no Brasil é a das denúncias de corrupção. De dezembro para cá, a agenda nacional foi tomada por essas denúncias. São operações da Polícia Federal apurando vendas de emendas, denúncias envolvendo o INSS e o caso do Banco Master, que arrasta várias fintechs e bancos menores também. E, aos olhos da sociedade, toda vez que tem denúncia de corrupção, quem paga o preço é o governo de plantão, no Brasil e no mundo. Eu tenho plena convicção de que nós vamos ganhar o debate em relação à corrupção. O brasileiro vai comparar o que foi o Bolsonaro com o que é o governo do presidente Lula.

Muito se fala que o presidente Lula pode acabar não sendo candidato. Essa hipótese é discutida?

Essa hipótese não existe. O presidente Lula é candidato. Ele está melhor de saúde hoje do que quando tinha 50 anos. É o líder mais preparado para conduzir o Brasil nesse momento de turbulência mundial. O Flávio Bolsonaro foi nos Estados Unidos falando, em inglês, que vai entregar as reservas de terras raras do Brasil para o governo norte-americano. Olha o absurdo!

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, disse que a PEC da Segurança é uma proposta cosmética. Como o sr. rebate isso?

A que o sr. atribui esse desgaste do presidente Lula, como indicam as pesquisas?

Eu não acredito em desgaste. Pesquisa é sempre uma fotografia do momento. É evidente que a fotografia desse momento no Brasil é a das denúncias de corrupção. De dezembro para cá, a agenda nacional foi tomada por essas denúncias. São operações da Polícia Federal apurando vendas de emendas, denúncias envolvendo o INSS e o caso do Banco Master, que arrasta várias fintechs e bancos menores também. E, aos olhos da sociedade, toda vez que tem denúncia de corrupção, quem paga o preço é o governo de plantão, no Brasil e no mundo. Eu tenho plena convicção de que nós vamos ganhar o debate em relação à corrupção. O brasileiro vai comparar o que foi o Bolsonaro com o que é o governo do presidente Lula.

Muito se fala que o presidente Lula pode acabar não sendo candidato. Essa hipótese é discutida?

Essa hipótese não existe. O presidente Lula é candidato. Ele está melhor de saúde hoje do que quando tinha 50 anos. É o

Se era tão cosmética, por que ele saiu de São Paulo e veio para Brasília trabalhar contra a proposta? Nós esperamos que o Senado aprove a PEC da Segurança para que a gente possa ter instrumentos de unir o Brasil contra o crime, inclusive contra o crime organizado. As milícias fazem extorsão das famílias nas comunidades e nós temos, infelizmente, lideranças políticas que trabalham pró-milícia no Brasil.

O sr. não quer dar nome aos bois?

Não. É só dar um Google, só fazer uma busca nas redes sociais que vão achar os nomes.

Esta é a última campanha da qual o presidente Lula vai participar como candidato. O PT já não deveria ter preparado um sucessor ou lideranças para substituí-lo? E o nome tem de ser necessariamente do PT?

O PT não tem essa predisposição. Nós vamos construir um campo democrático que possa efetivamente derrotar o autoritarismo e o fascismo no Brasil, que hoje é uma realidade, infelizmente. Dentro desse campo, as melhores lideranças vão se apresentar, inclusive as do PT.

Há quem critique o fato de o PT ter lançado o ex-ministro Fernando Haddad para disputar o Palácio dos Bandeirantes porque, de acordo com as pesquisas, o governador Tarcísio é o favorito. Haddad foi lançado para o sacrifício?

Haddad não pode ir para o sacrifício estando, nas nossas pesquisas, com uma diferença muito pequena de um governador que está sentado na cadeira. Fernando Haddad foi um grande ministro e é uma liderança forte. Nós estamos vivendo uma situação muito difícil em relação à segurança pública em São Paulo. Os policiais militares têm um dos piores salários do Brasil e vemos o total desmanche da Polícia Civil.

Lula vai anunciar um pacote para enfrentar o endividamento das famílias e também estão previstas novas linhas de crédito para motoristas de aplicativos, taxistas e caminhoneiros. Como o sr. responde a crítica de que essas medidas podem atrapalhar a redução de juros e o combate à inflação?

Sabe o que eu acho interessante? Tem todo um debate sendo feito para que haja uma política de refinanciamento das dívidas das indústrias, devido à taxa de juros. Tem um debate sendo feito em relação aos danos provocados pelo Banco Master e qual o papel do governo. Aí, quando é o trabalhador, você não pode discutir a política de refinanciamento das suas dívidas? É muita hipocrisia.

E como enfrentar as resistências ao fim da escala de trabalho 6×1?

Desculpe o termo, mas isso é falta de inteligência. Nós deveríamos estar discutindo de forma séria, e não ideológica, como vamos aumentar as vagas de trabalho num mundo onde a tecnologia avança e o número de trabalhadores diminui. Porque, se não for assim, não adianta a gente aumentar a produtividade. Não vai ter quem consuma.

Estadão Conteúdo

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