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O morde-assopra de Bolsonaro

Presidente lança sinais trocados, de olho no seu eleitorado mas sem perder o empresariado

Por Rudolfo Lago 26/02/2021 8h40

O mercado está na pista. Pronto para noivar com a primeira moça bonita e de boa família que se apresentar nos moldes do que ele deseja. Mas como a tal moça até agora recusa-se a se apresentar, o mercado vai ficando com Jair Bolsonaro mesmo.

A avaliação acima foi feita por um analista do mercado financeiro. Depois da intervenção feita no início da semana pelo presidente da República na Petrobras, o mercado não dá hoje sequer uma nota de R$ 3 de crédito a Bolsonaro, por mais que ele tenha feito em seguida acenos ao apresentar a Medida Provisória que inicia a privatização da Eletrobras e o projeto que abre caminho para a privatização dos Correios.

O problema é que, diante da indefinição e das brigas internas nos partidos que hoje inibem o surgimento de uma candidatura alternativa, Bolsonaro vai surfando como a alternativa posta. Não é a ideal. Não é confiável. Mas é o que hoje o mercado tem

Estatista

O mundo empresarial e financeiro sabe que Bolsonaro é um estatista. Que sua cabeça está longe de pender para a existência de um Estado mínimo.

Que o que ele preza mesmo é um Estado forte. Não fosse assim não defenderia ditaduras. Mas, em 2018, empresários e financistas enxergaram que Bolsonaro era o caminho para evitar mais quatro anos da era petista no poder. E foi isso o que os aglutinou.

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“O maior partido do país hoje é o antipetismo”, avalia o cientista político André Cesar, da Hold Assessoria. “Na preparação para as eleições de 2018, os articuladores da candidatura Bolsonaro perceberam que era ele quem a população mais enxergava como contrário ao petismo. Mas enxergaram que precisava, para ampliar as possibilidades, haver maior lastro. Agregar-se o apoio das classes empresariais e financeiras”. E foi aí que, segundo André Cesar, foram prometidos mundos e fundos ao mercado, tudo encarnado na adesão ao projeto do ministro da Economia, Paulo Guedes.

Hoje, avalia o cientista político, Bolsonaro vai jogando ao mesmo tempo em várias frentes, ao mesmo tempo em que antecipou o início do jogo sucessório antes que seus possíveis adversários se definissem envolvidas que estão em seus próprios dilemas.

Bolsonarismo raiz

Ainda que até agora não tenha reduzido um centavo sequer no preço da gasolina (na verdade, até agora nem retirar de fato do comando o presidente da companhia, Roberto Castello Branco, foi possível), a intervenção na Petrobras foi aplaudida pelo bolsonarismo raiz. “Ele, nesse sentido, deu mais um passo para consolidar esse eleitorado”, observa André Cesar.

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Mas é a partir daí que o mercado observa que Bolsonaro aprimora com ele um estilo morde-assopra. Um dia depois que os efeitos da intervenção na Petrobras produziram um baque violento na sua performance na Bolsa de Valores, o presidente foi pessoalmente ao Congresso entregar a Medida Provisória que abre caminho para a privatização da Eletrobras.

O que o mercado observou claramente ao ler o texto da MP é que ele não foi preparado da noite para o dia, de afogadilho. As soluções ali parecem muito bem preparadas, muito bem estudadas.

MP guardada na manga

O detalhamento e a clareza nas soluções apresentadas deram ao mercado finaceiro e ao mundo empresarial a clara impressão de que a MP que trata da privatização da Eletrobras foi algo que, antes de ser apresentado, foi profundamente discutido.

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Ou seja: a medida estava pronta, guardada na manga, esperando somente o melhor momento para ser apresentada.

A mesma sensação o mercado teve com relação à medida que abre caminho para a privatização dos Correios. Ficou clara a ideia de que tais propostas ficam guardadas na manga e vão sendo colocadas à prova conforme uma estratégia pensada. Arriscada, talvez , mas pensada.

“O problema é saber concretamente o quanto o presidente e o governo estão empenhados nisso”, avalia André Cesar, diante do claro pêndulo que há entre intervir num dia na Petrobras e no outro propor a privatização da estatal de energia elétrica. “Mas, mesmo para isso, já está o discurso pronto: se não andar, diz-se que foi o Congresso que não quis”.

O risco disso tudo é exatamente a falta de concretude. Até agora, muito pouco de substantivo avançou em termo das prometidas reformas estruturantes, e o mercado sabe disso. O problema é que não há em nenhuma solução apresentada clareza maior. O mercado torce o nariz para nomes à esquerda como Ciro Gomes (PDT) ou Flávio Dino (PCdoB), por mais que eles façam acenos. Torce o nariz ainda mais quando o ex-presidente Lula põe como alternativa um nome do PT, Fernando Haddad, ou ele mesmo.

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As soluções ao centro não se viabilizam. O governador de São Paulo, João Doria, tem problemas evidentes para unificar em torno de si o PSDB. E ninguém acha que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, venha a ser de fato uma opção viável. Luciano Huck é tão somente até agora apresentador de TV e marido da Angélica.

“Com foco total na reeleição, Bolsonaro vai fazendo esse jogo múltiplo. E vai se pavimentando. Claro, sempre há o imponderável: pandemia, investigações, rachadinhas”, conclui André Cesar. O mercado está na pista. Mas ainda dorme com Bolsonaro.

Saiba Mais

Ontem, Bolsonaro voltou a justificar a forma como interveio na Petrobras e a troca de comanda da empresa.

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Para ele, uma estatal não pode se dissociar do seu aspecto social.

“Uma estatal, seja ela qual for, tem que ter uma visão de social, não podemos admitir uma estatal com um presidente que não tenha essa visão”, disse ele.

O presidente disse ainda que o comando das estatais precisam ter previsiblidade quanto aos eventuais problemas do setor.

”Previsibilidade: temos que ter, temos que nos antecipar a problemas e ter visão de futuro, o nosso governo prima por isso”, afirmou durante evento na Usina Hidrelétrica de Itaipu, em Foz do Iguaçu (PR).






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