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O misterioso “Cascavel” do general Pazuello na Saúde

Airton Soligo é tido como bom articulador e pessoa de confiança do ministro interino da Saúde

Hylda Cavalcanti
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Depois que o Psol fez um pedido formal de esclarecimentos e que vários políticos ameaçaram entrar com representação criminal contra o Ministério da Saúde por crime de administração pública, quando já não tinha mais como esconder, o titular interino da pasta, general Eduardo Pazuello, nomeou como assessor especial do seu gabinete o ex-deputado federal Airton Soligo, mais conhecido como “Cascavel”.

Eminência parda

A prerrogativa de nomear um assessor de confiança não é nada demais no Executivo federal, não fosse o fato de Soligo, ou “Cascavel”, já estar atuando como uma espécie de “eminência parda” na pasta há quase três meses.

Ele é empresário e agropecuarista de Roraima e nada tem a ver com a área de Saúde. Conheceu Pazuello durante o período de intervenção federal decretado naquele estado em 2018 e, desde então, ficaram amigos.

A intervenção em Roraima, na época, afastou a então governadora Suely Campos (PP) e colocou como interventor Antonio Oliverio Garcia de Almeida, conhecido como Antonio Denarium (PSL) – que em 2018 foi eleito governador, tendo Cascavel como um dos seus principais aliados.

Assessor direto

Mas o que faz de Cascavel uma pessoa conhecida e até temida pelos servidores do Ministério da Saúde não é a proximidade com o ministro. E sim, o jeito pouco ortodoxo como ele entrou no ministério. Também a forma como vem conduzindo várias negociações com governos estaduais, assim como as orientações que tem dado ao corpo técnico do governo, segundo informações de bastidores.
Cascavel vinha se identificando como “assessor direto de Pazuello” e tinha liberdade para viajar e participar de reuniões nos estados sobre as ações de combate à covid-19.

Mas até a publicação de sua nomeação no Diário Oficial, na última quarta-feira (24), não tinha qualquer cargo – embora a seu modo se identificasse junto aos interlocutores e fizesse tudo para ser presente.

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Servidores que preferiram não se identificar atribuem a ele a influência nas ações de verificação de registros de todos os que trabalham na pasta em suas contas de redes sociais, seguida da ameaça de punição aos que fizerem críticas ou comentários ácidos ao sistema de saúde e à atuação do Executivo Federal no combate à pandemia.

As ações foram deflagradas há duas semanas.

“Instalou-se um clima de caça às bruxas no ministério”, disse uma advogada que pediu para não ter o nome divulgado.

E-mail tem “dicas de ética” para servidores

No mesmo período em que começou o monitoramento feito por Cascavel, o Ministério da Saúde encaminhou aos servidores um e-mail com o que chamou de “dicas de ética” a serem seguidas nas redes sociais, reiterando que está fiscalizando tudo o que é publicado.

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A mensagem deixa claro, também, que “a ascensão profissional dos servidores pode ser definida de acordo com o que se divulga nas redes sociais”.

Números da covid-19

O corpo técnico do órgão atribui o gesto à determinação do Palácio do Planalto de reduzir ao máximo a divulgação de números sobre os casos da covid-19, depois que foram suspensas as entrevistas diárias concedidas pelo então ministro Luiz Henrique Mandetta e sua equipe.

Embora o ministério conte com mais de 30 assessores sem qualquer vinculação com a área da Saúde, a presença de Cascavel tem sido avaliada como mais constante, pelo fato de ele ser uma figura carismática e de bom relacionamento com as secretarias estaduais.

Mudança na divulgação

Quando assumiu o Ministério da Saúde, Pazuello quis divulgar a forma de divulgação dos números da pandemia.

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A pasta chegou a divulgar somente os dados diários parando de fazer uma totalização dos casos.

Alegava que essa totalização desconhecia a situação daqueles que já tinham sido curados da doença.

A mudança provocou como reação a criação de um consórcio entre jornais e veículos de imprensa que passaram a colher seus próprios dados diretamente das Secretarias de Saúde em cada estado, fazendo a totalização.

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O ministério acabou voltando atrás e mantendo a mesma metodologia. O consórcio da imprensa, mesmo assim, foi mantido e divulga diariamente suas informações.

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Saiba Mais 

A postura do presidente Jair Bolsonaro de negar a gravidade da pandemia do novo coronavírus já derrubou dois ministros da Saúde.

Luiz Henrique Mandetta vinha tendo uma atuação elogiada no ministério até trombar com Bolsonaro e sua atitude negacionista. Como resistia a minimizar os efeitos da covid-19, acabou demitido.

Bolsonaro o substitui por Nelson Teich. Desta vez, os problemas ocorreram depois que Teich recusou-se a mudar o protocolo de utilização da cloroquina no tratamento da doença, diante do fato de que que ainda não há dados conclusivos sobre a sua eficácia.

Pazuello é o terceiro ministro da Saúde após o início da pandemia. General da ativa, ele não tem formação em Medicina e não foi efetivado de fato no cargo. É ministro interino.






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