JOÃO PEDRO PITOMBO
FOLHAPRESS
Reeleito para mais quatro anos à frente do Governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), 61, tirou a quinta-feira (8) para conversar com prefeitos aliados e definir uma estratégia para tentar virar votos para o presidente Lula (PT) no segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL). Antes da maratona de reuniões, o governador reeleito recebeu a reportagem para uma entrevista.
O petista reconheceu que a imagem de Lula construída nos mandatos entre 2003 e 2010 já não produz o mesmo efeito sobre parte do eleitorado. Na avaliação dele, não houve exatamente uma frustração, mas o eleitor passou a exigir mais de Lula.
Para o governador, a campanha no segundo turno precisa combinar temas como democracia e soberania com questões do cotidiano. Ele afirmou que sua meta é ampliar a votação de Lula na Bahia e ironizou seu adversário ACM Neto (União Brasil), derrotado na disputa pelo governo baiano, por agora apoiar Flávio Bolsonaro: “Ele perdeu e vai perder de novo”.
PERGUNTA – O PT chega ao segundo turno em cenário adverso, buscando uma virada inédita na eleição presidencial. Foi uma surpresa o resultado?
JERÔNIMO RODRIGUES – Sabíamos que seria uma eleição dura, com um riscado no chão. Em um país democrático, a eleição deve ser um ambiente para discutir projetos. E os dois projetos que ficaram para o segundo turno são muito diferentes na forma de tratar as pessoas, no relacionamento com a democracia, na defesa da soberania nacional.
P – Não acha que soberania e defesa da democracia são temas etéreos para o eleitor que está preocupado com o preço da comida?
JR – É etéreo para quem não compreende o percurso de uma democracia. Quem viveu a ditadura de 1964 sabe do que se trata. Temos esse bloco de temas, mas também o dia a dia das famílias, que é comida na mesa, uma roupa decente, uma casa adequada. A gente não tinha isso, e eu tiro por mim. Nunca imaginava que o governo pudesse dar uma casa a uma pessoa pobre, que pudesse ter asfalto numa zona rural. Então, uma coisa pode parecer etérea, mas ela determina as outras. A democracia e a soberania são temas que orientam a gente.
P – Acha que havia na campanha um otimismo um pouco descolado da realidade? Parte da população está insatisfeita com a situação do país.
JR – Nós temos uma referência do Lula. O Brasil tem aquele Lula de 2003, que tirou o Brasil do mapa da fome. Agora, ele tirou pela segunda vez, mas já não foi a mesma coisa para a sociedade. Não era novidade. Talvez a expectativa tenha sido essa. Eu não digo que é uma frustração, mas é exigir do Lula algo mais. E isso é bom para a sociedade brasileira.
P – O senhor falava em dar uma frente de até 5 milhões de votos na Bahia, mas essa frente foi de 3,2 milhões, inferior à de 2022. Houve um erro de avaliação?
JR – Nossa expectativa é reverter para fazer uma virada que nunca houve na história do Brasil.
P – O presidente tem focado na segurança pública com um lema: “Para o trabalhador, proteção. Para o bandido, prisão”. Acha que esse é o caminho?
JR – Temos temas que são decisivos. A educação, por exemplo, é fundamental para a gente desenvolver esse país. Na segurança pública, da mesma forma. O Lula está com a dependência da PEC da Segurança.
Ele não podia criar um ministério porque no desenho da lei estava dizendo: “Não se meta aí, é responsabilidade do Estado”. Foi a Constituinte que estabeleceu a autonomia e o poder do Estado para tomar as decisões.
P – Seu adversário ACM Neto anunciou apoio à candidatura do Flávio Bolsonaro. Como o senhor vê esse movimento?
JR – Eles pregaram o voto Lula-Neto, eu quero saber se está valendo. Ele queria colar no Lula e já descolou tão rápido? Que fluidez, que interesse. Ele lançou o [candidato a presidente Ronaldo] Caiado, mas trabalhava com Flávio. Mas é bom que o povo saiba quem é ACM Neto.
P – Acha que é um movimento arriscado?
JR – Ele foi derrotado comigo, vai perder outra eleição com o Lula e vai se enterrar. Se eu perdesse, iria ligar para o meu opositor, desejar boa sorte, parabenizar de forma civilizada e criar uma transição adequada. Em duas eleições, ele não teve sensibilidade de ligar para parabenizar. Um cara desse quer democracia?
P – O senhor teve uma votação mais equilibrada entre as cidades nesta eleição. Na passada, houve uma diferença grande entre cidades grandes e pequenas. O que mudou?
JR – É o reconhecimento do trabalho, do grupo unido e da articulação com prefeitos, ex-prefeitos e movimentos sociais. A sociedade enxerga isso, por mais que a corda esteja esticada. Duas vezes eu derrotei o herdeiro.
P – Vai trabalhar para eleger um prefeito em Salvador?
JR – Esse resultado já é o pé na porta para dizer assim: “nós queremos e vamos cuidar de Salvador”. Eu espero que Salvador enxergue isso. A herança que nós temos do grupo de ACM Neto e [do prefeito de Salvador] Bruno Reis são eles se metendo até o pescoço com coisa lambuzada, de corrupção. No dia que sentar na minha mesa alguém com essa conversa, não fica.
P – O senhor manteve um secretário investigado pela Polícia Federal.
JR – O Eduardo [Sodré, secretário de Meio Ambiente e enteado de Jaques Wagner] sabe que tem que prestar contas. Já meu adversário queria governar escondendo informações. Se teve denúncia, ele teria que abrir as contas. Ele nunca abriu.
P – Flávio Bolsonaro falou nos últimos dias em mudanças na Constituição. O senhor vê essas declarações com preocupação?
JR – Como uma pessoa, em uma eleição presidencial, diz que vai mexer na Constituição e não explica o que é isso? Todo mundo conhece o modelo golpista por trás deles, são golpistas. É um risco muito grande.
P – Teme que os projetos prioritários sejam afetados?
JR – Tenho certeza que, com a mesquinhez que eles têm, vão criar entraves. Mas a gente vai ganhar as eleições e continuar os projetos da Bahia.
P – Em caso de vitória ou derrota, como a esquerda deve se organizar para o pós-Lula?
JR – Precisamos rever os métodos para dialogar com a população. Lula tem uma inquietude e acha que nós temos que criar um movimento em que a política dialogue melhor com as redes sociais. Nós temos que vir na frente. A política se move a partir da demanda do povo.
P – O que o senhor projeta para a Bahia nos próximos quatro anos? Tem alguma área que o senhor acha que falhou e pretende priorizar neste segundo mandato?
JR – Eu paguei uma conta com Bolsonaro. Se [o ex-governador] Rui Costa tivesse Dilma, Lula ou Haddad, teria iniciado esse pacote de obras lá atrás. O desafio nosso é fechar esse ciclo: universalizar a educação em tempo integral nos municípios, otimizar a oferta da saúde pública e a segurança pública. A expectativa do próximo mandato é com Lula.
P – E se Flávio vencer?
JR – Ele vai perder as eleições.
RAIO-X | JERÔNIMO RODRIGUES, 61
Natural de Aiquara (BA), é agrônomo e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana. Foi secretário estadual de Desenvolvimento Agrário e de Educação na gestão Rui Costa (PT). É governador da Bahia eleito em 2022 e reeleito em 2026.
Não houve frustração, mas eleitor exigiu mais de Lula, diz Jerônimo Rodrigues, reeleito na Bahia
Petista reconheceu que a imagem de Lula construída nos mandatos entre 2003 e 2010 já não produz o mesmo efeito sobre parte do eleitorado
Foto: Reprodução/ X @Jeronimoba13