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Política & Poder

Não havia investigação formal sobre carteiras do Master quando Lula se encontrou com Vorcaro

Se o presidente Lula se referia à investigação que apura fraudes na venda de carteiras para o BRB (Banco Regional de Brasília), as datas não batem.

Redação Jornal de Brasília

05/02/2026 22h33

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

ALEXA SALOMÃO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Em entrevista ao UOL nesta quinta-feira (5), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou ter dito ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, durante encontro no Palácio do Planalto, que o banco seria alvo de uma “investigação técnica” pelo Banco Central, sem “posição política pró ou contra”.


Se o presidente Lula se referia à investigação que apura fraudes na venda de carteiras para o BRB (Banco Regional de Brasília), as datas não batem.


O encontro entre Lula e Vorcaro ocorreu em 4 de dezembro de 2024. Foi realizado a pedido do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Também estavam presentes Augusto Lima, então identificado como CEO do Master, os ministros Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira (Minas e Energia) e Gabriel Galípolo, que assumiria a presidência do BC em janeiro de 2025.


Documentos que embasam a ação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, redigidos pelo próprio BC, mostram que a investigação tem como ponto de partida março de 2025 -três meses depois da data do encontro.


Questionado durante a entrevista ao UOL sobre a reunião no Planalto, Lula respondeu o seguinte:
“Primeiro, eu já recebi nesse mandato meu o Itaú, o Bradesco, o Santander, o BTG Pactual, todos os bancos. E não tinha agenda marcada comigo, quando o Guido [Mantega] veio com o André [Daniel] Vorcaro a Brasília e pediu se eu puder atender, ele veio conversar comigo. Chamei o Galípolo, chamei o Rui Costa, que conhecia ele, e ele então me contou da perseguição que ele estava sofrendo, que tinha gente interessada em derrubar ele, que não sei das contas e tal”, afirmou.


“O que eu disse para ele? Não haverá posição política pró ou contra o Banco Master. O que haverá será uma investigação técnica feita pelo Banco Central. Foi essa a conversa. Você fique tranquilo que a política não entrará na investigação, o que vai entrar é a competência técnica do Banco Central para saber se está errado, se quebrou, se tem dinheiro lavado ou não tem. E é isso que está sendo feito. Depois disso, chamei no meu gabinete o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central e o procurador-geral da República, para que o Haddad contasse o que ele pensava do Banco Master, para que o Galípolo contasse a relação e que a Procuradoria tentasse ajudar, porque nós estávamos diante da primeira chance real de pegar os magnatas da corrupção”, continuou.


A reportagem fez contato com a assessoria da Presidência da República para tentar entender o descasamento das datas em suas declarações: se o presidente teve outro encontro com Vorcaro, quando as investigações sobre as carteiras de crédito já tinham sido iniciadas, ou se o presidente se referia, em dezembro de 2024, a outra investigação sobre o Master, que ainda não veio a público.


Em nota, a assessoria destacou que a resposta de Lula tratava de outro tema, a possibilidade de averiguar uma queixa de Vorcaro.


“A manifestação do presidente Lula refere-se estritamente ao encontro realizado em dezembro de 2024, ocasião em que Daniel Vorcaro relatou sentir-se alvo de perseguições”, diz o texto da assessoria.


“Em resposta, o presidente informou que o tema deveria ser tratado pelo Banco Central, órgão competente para investigar de forma técnica denúncias dessa natureza.”


Os relatórios do BC sobre o caso, aos quais a Folha de S. Paulo teve acesso, são bem detalhados e deixam claro que o BC identificou problemas nas transações de carteiras de crédito feitas entre Master e BRB nos primeiros meses de 2025.


A autarquia detalha que o ofício pedindo explicações ao Master foi expedido em 17 de março. Nele, o BC queria entender que transações com carteiras de crédito geraram um fluxo de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master -R$ 6,7 bilhões em pagamento pelas carteiras e R$ 5,5 bilhões em prêmios. O montante ultrapassava o limite de exposição do banco público.


Cerca de uma semana depois, no dia 25, o Master apresentou ao BC, como originadoras dos créditos, associações de servidores da Bahia: Asteba (Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia) e Asseba (Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia).


O BC, no entanto, conclui que as entidades não tinham como movimentar aqueles bilhões e fez novo questionamento. Foi só neste ponto que o Master citou que tinha um novo parceiro nesse negócio, a Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações SA, que se tornou o epicentro das suspeitas de fraudes.


Segundo apurações posteriores, a Tirreno havia sido criada em 4 de novembro de 2024 com o nome de SX 016 Empreendimentos e Participações SA. O seu criador tinha 91 empresas com nomes similares.
A empresa só mudou o nome para Tirreno em 2 de dezembro. Nessa mesma data, sofreu outras alterações, entre elas um aumento de capital da Cartos Sociedade de Crédito Direto SA, que agora também está envolvida nas investigações.


Todas essas mudanças só foram registradas na junta comercial em 15 de abril de 2025, após os questionamentos do BC ao Master.


Os documentos do BC também apontam que, em 3 de dezembro de 2024, a Tirreno firmou acordo para usar a estrutura da Cartos na operação com carteiras que seriam vendidas pelo Master ao BRB. Só em 5 de dezembro, a Tirreno firmou contrato de parceria com o Master -ou seja, no dia seguinte ao encontro no Palácio do Planalto.


Com base nas apurações, o BC fez uma representação criminal ao MPF (Ministério Público Federal) em 15 de julho de 2025. A PF (Polícia Federal) instalou inquérito criminal quase um mês depois, em 18 de agosto.


Daniel Vorcaro chegou a ser preso pela PF (Polícia Federal) em 17 de novembro daquele ano, e foi solto no mesmo mês por decisão do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região). O caso está no STF (Supremo Tribunal Federal). O Master sofreu liquidação extrajudicial em 18 de novembro.

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