CAROLINA LINHARES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Como alternativa a Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o Democracia Cristã vai lançar à Presidência, neste sábado (31), o ex-ministro Aldo Rebelo, 69, cuja posição na polarização é difícil de determinar.
Militante comunista e nacionalista, ex-integrante do PC do B, ele atuou em gestões petistas e recentemente se tornou querido entre bolsonaristas. Questionado sobre apoiar a reeleição de Lula, Aldo diz “Deus me livre” mas evita escolher desde já entre o presidente e Flávio em um segundo turno.
Aldo rechaça a ideia que tenha havido uma tentativa de golpe de Estado, pela qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) cumpre pena.
“A minuta estava baseada na Constituição. Eu era ministro da Defesa. Se a presidente Dilma [Rousseff] tivesse me pedido uma minuta daquela, eu teria feito”, diz em entrevista à Folha a respeito do documento apresentado por Bolsonaro aos chefes das Forças Armadas, que previa o estado de defesa para impedir a posse de Lula.
Seu partido, o DC, não tem deputados eleitos e conta com poucos recursos. Para a vaga de vice, Aldo convidou Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação de Bolsonaro.
PRINCIPAIS PROPOSTAS
Denomino como a plataforma dos quatro Rs. O primeiro é retomada do desenvolvimento. A política econômica de Lula se reduz a aumentar despesa por causa da eleição que se aproxima e aumentar imposto para cobrir essa despesa.
O segundo é redução das desigualdades. O terceiro é revalorização da democracia. Eu me refiro à capacidade do país de debater os seus caminhos com o mínimo de respeito, de tolerância, desprovido do ódio que infelizmente marca hoje a relação política nas redes sociais.
E o quarto R é o da reconstrução de duas agendas que foram negligenciadas: segurança pública segurança nacional. O Brasil é um país que não tem Forças Armadas compatíveis com as suas necessidades.
EXPLORAÇÃO E MEIO AMBIENTE
O Brasil não é um país pobre, é um país travado. O Brasil transformou a agricultura, pecuária e a agroindústria como se fossem vilões da proteção do meio ambiente. Então, você trava a agropecuária e trava a agroindústria. O Brasil tem as maiores reservas minerais, tudo está imobilizado, porque aqui o licenciamento ambiental virou uma ideologia de veto.
AMAZÔNIA
É a área mais vulnerável do nosso país. O Brasil precisa tomar providência para garantir a ocupação demográfica e econômica com responsabilidade ambiental, respeitando as populações indígenas. Aqui não há segurança jurídica sobre uma licença ambiental. Você não sabe se ela dura 5 anos ou 50 anos.
Tem que criar uma autoridade única, nacional, de licenciamento. A Amazônia precisa de infraestrutura, de rodovias, de ferrovias, de hidrovias.
APROXIMAÇÃO COM O BOLSONARISMO
Sempre fui nacionalista. Entrei no Partido Comunista por uma agenda de luta em defesa da liberdade, em defesa da democracia, contra a censura, pela anistia, pela Constituinte. Eu fui educado na ideia de amor ao Brasil, de defesa do Brasil. Eu diria que foi esse setor [bolsonarismo] que se aproximou da minha agenda.
Eu me afastei da agenda do governo, porque Lula entregou o país a esse congelamento do poder econômico. Como é que o presidente da República aceita que o chefe de uma autarquia que ele nomeia, que nem status de ministro tem, que é o presidente do Ibama, imponha um veto à exploração do petróleo na margem equatorial, num estado que tem 73% da população vivendo de transferência de renda, de Bolsa Família?
ESQUERDA IDENTITÁRIA
Eu me afastei da esquerda pela agenda também. A agenda da ideologia foi substituída pela agenda da biologia. Não importa mais a luta pelo interesse geral. Agora é a luta pelos interesses baseados em critérios biológicos, de raça, de cor da pele, de gênero.
A agenda identitária, dos costumes, do comportamento, é a agenda das grandes corporações. É a agenda imposta ao Brasil pelo sistema financeiro, por uma parte da mídia, pelo Supremo. Então é o seguinte: sejam felizes, mas não é a minha agenda.
Prisão de Bolsonaro
O ex-presidente [Fernando] Collor, que é detentor de uma saúde muito mais estável do que a de Bolsonaro, alcançou rapidamente a prisão domiciliar. Isso é uma coisa completamente absurda. Você não sabe o que é propriamente justiça e o que é vingança. O que é lamentável, porque gera ressentimentos que envenenam o ambiente social e político.
TENTATIVA DE GOLPE
Se a base for aquele documento que foi apresentado, aquilo não é tentativa de golpe. A minuta estava baseada na Constituição. Eu era ministro da Defesa. Se a presidente Dilma tivesse me pedido uma minuta daquela, eu teria feito.
Você está o quê? Condenando uma intenção? Condenando uma ideia? Porque o documento contraria completamente tudo que é um golpe, que é feito por conspiração. A presidente Dilma nunca comentou sobre isso, mas se tivesse cogitado, eu teria feito o documento pela situação que nós vivíamos, daquele movimento de impeachment. Aí eu seria golpista? Acho que não.
INVASÃO DA VENEZUELA PELOS EUA
Apoiar a invasão da Venezuela é uma atitude que demonstra a desorientação do país. A atitude dos Estados Unidos é uma afronta. E é uma afronta ao Brasil, porque é na nossa fronteira e usou o pretexto que nós precisamos estar atentos: a questão do narcotráfico. O Brasil tem que considerar que os rios da Amazônia já estão sob controle do tráfico. E como a atividade econômica foi bloqueada, o tráfico virou um meio de vida para a juventude.
RAIO-X
Aldo Rebelo, 69
Foi deputado federal de 1991 a 2015 e fez carreira no PC do B. Presidiu a Câmara dos Deputados de 2005 a 2007, foi ministro no primeiro mandato de Lula (PT) e também integrou a gestão Dilma Rousseff (PT) nas pastas de Esporte, Ciência e Defesa. Foi secretário municipal de Relações Institucionais da gestão Ricardo Nunes (MDB) em São Paulo. Deixou o PC do B em 2017 e passou pelo PSB, Solidariedade, PDT e MDB, até se filiar ao DC em 2025.