O empresário Filipe Sabará, um dos articuladores da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, diz que há “umas 10 opções” para o Ministério da Economia de um eventual governo de Flávio e que deve haver preferência para pessoas que integraram a equipe econômica de Paulo Guedes durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL). Flávio tem dito já ter um nome “em mente”, mas afirmou que só o revelará mais para frente.
“Tem umas 10 opções. Deve ser alguém que estava na equipe do Paulo Guedes. Esses aí com certeza estão na preferência”, declarou Sabará ao Estadão/Broadcast. O empresário deve ser um dos responsáveis pela interlocução da campanha com o mercado financeiro e com o segmento evangélico.
Ex-secretário-executivo de Desenvolvimento Social do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), Sabará diz ter passado um “recado” para Tarcísio de que o governador precisa dar um apoio mais enfático ao nome do senador. Segundo ele, o governador se comprometeu a fazê-lo.
Sabará diz cogitar se lançar ao governo de São Paulo, caso Tarcísio decida não dar palanque a Flávio. “Tarcísio provavelmente será candidato. A questão é, se o Tarcísio não der palanque e não fizer a campanha que a gente precisa que seja feita em São Paulo, eu entro”, falou.
Leia os principais trechos da entrevista:
Como foi sua aproximação com Flávio Bolsonaro?
Já tenho uma relação com eles, principalmente com o Eduardo há bastante tempo. Na época da campanha do Tarcísio, quem me chamou para participar foi o próprio Eduardo. Conheci o Flávio, mas não tão próximo como o Eduardo, mas havia uma relação. Quando o Jair Bolsonaro decidiu lançar o Flávio, foi natural, porque eles me procuraram e o próprio mercado me procurou, porque eu sou empresário, sou investidor, tenho fundo e tudo, então aconteceu naturalmente. Sou a pessoa aqui de São Paulo, do mercado e da política que tem mais acesso entre diversos segmentos, além de ser fiel ao que acredito e ter alinhamento com Bolsonaro. Precisava ser alguém assim e eles me procuraram, eu topei.
Quando Flávio o procurou?
Foi na data que o Jair Bolsonaro o indicou. No mesmo dia ou um dia depois.
Já ficou acertado que você será um dos coordenadores de campanha dele?
Não tem acerto. Estou fazendo uma articulação de amigo mesmo. Prefiro assim, porque a gente fala tanto em meritocracia, ‘você chega e fala: O que você vai ser?’ A gente fica negociando com coisas que não têm nada a ver. Fui ajudar, porque eu acredito no projeto e acabei me tornando o articulador dele, um coordenador que está fazendo um trabalho para ele. Foi natural. Por isso que está tão forte, porque não tem acordo, não tem dinheiro envolvido, não tem barganha. É amizade mesmo.
O pedido dele foi para que você ajudasse com o mercado?
‘Me ajuda com o que você puder, no que você pode me ajudar’. E estou ajudando com o que posso, não só com o mercado. Estou ajudando com os evangélicos, porque tenho uma entrada muito boa com os pastores, com a indústria, que não necessariamente é o mercado financeiro, mas setor industrial, comércio, grandes empresários, pequenos e médios empresários. Tudo que eu tenho acesso, área social, fui secretário social quatro vezes também, institutos, tudo que tenho acesso de segmento estou ajudando.
Com que empresários e representantes do mercado ele se encontrou até agora?
Prefiro não falar nomes, porque muita gente pediu reserva. Mas vou te falar que a gente encontrou os 40 maiores empresários do Brasil. Em termos de PIB, em termos de net worth. Encontramos também empresários não tão grandes, mas começamos pelos maiores. Mais fácil.
Fala-se muito que o mercado prefere o nome de Tarcísio de Freitas para a Presidência. Qual estratégia adotarão para vender o nome do Flávio?
Essa é uma fala atrasada, do final do ano passado, de quando ele foi lançado. Realmente o mercado estava apostando no Tarcísio, mas o mercado não tem nomes. O mercado tem um conceito. Precisa de equilíbrio fiscal, arrocho fiscal, para o juro ficar controlado e a inflação também. A partir do momento que o Flávio mostrou que ele segue um trabalho que o Paulo Guedes estava fazendo com a equipe, o mercado já está apostando nele, até porque sabe que é ele que vai até o final. Não tem preferência por Tarcísio, tem preferência pela pauta que o mercado quer. A partir do momento em que o Flávio está com a pauta que o mercado quer e precisa – porque senão o Brasil vai ficar pior do que já está, já está muito ruim -, acaba isso. Foi bem rápido. Até porque meu relacionamento com essa turma é muito antigo e forte.
Nas reuniões, o pessoal do mercado tem feito demandas ao Flávio, algo específico?
Equilíbrio fiscal, principalmente corte de impostos, que está inacreditável, cada dia é um imposto novo. Só que, para cortar imposto, você precisa cortar gasto e parar com essa gastança maluca e essa sanha arrecadatória, fruto de um governo que só pensa em gastar e aumentar ministério. Foi de 23 para 38 ministérios totalmente desnecessários. O Brasil quebrado, estatais dando prejuízo – estavam dando lucro no meio de pandemia. É muito claro que esse governo quebrou o Estado e por isso tem que puxar o dinheiro, arrancar recursos do cangote do trabalhador e até dos pequenos. Para o mercado é muito ruim, porque uma vez que você paga uma taxa de juros nessa altura, o spread, ou seja, você põe aí 10%, 20% em cima de 15%, quem é que paga de volta? A inadimplência está na lua, não tem como continuar assim. É o básico, o mercado quer o básico, quer equilíbrio fiscal, controle fiscal, manter equilíbrio fiscal e corte de impostos. O Bolsonaro zerou um monte de imposto, um monte de gasto e mesmo assim a arrecadação subia, a tal da Curva de Laffer, se você estrangula, uma hora o carrapato fica maior que o boi, não dá.
Flávio tem se comprometido a atender esses pedidos?
Não são pedidos, é a proposta do Flávio, ele que está proativamente propondo isso e o mercado está agradando, porque é o que precisa ser feito.
Jair Bolsonaro se cercou de vários empresários, como Luciano Hang e Flávio Rocha. Flávio Bolsonaro já chegou a conversar com esses nomes? Eles estariam dispostos a encampar uma campanha do Flávio como fizeram com Jair Bolsonaro?
Já falamos com todos eles. Acabou de lançar, não faz nem dois meses. A turma está bem ansiosa, mas acabamos de começar. [Jair] Bolsonaro teve essa turma do lado dele bem mais para frente.
Esperam atrair esses nomes de novo?
Está todo mundo com a gente.
Flávio disse esses dias que ele já tem um nome em mente para o Ministério da Economia dele, sabe quem é essa pessoa?
Não sei.
Ele já está conversando realmente com alguém para anunciar antes da eleição?
Tem umas 10 opções. Deve ser alguém que estava na equipe do Paulo Guedes. Esses aí com certeza estão na preferência.
Pablo Marçal assumirá um papel ativo na campanha?
Vai, claro, principalmente no digital.
Como foi a conversa com o Tarcísio que você teve segunda-feira?
Foi muito boa. Umas três horas de conversa, super amigável, porque a gente tem uma amizade. Trabalhei com ele, fiz a campanha dele também. E foi muito bom. Eu falei de algumas coisas, ele comentou sobre outras coisas, assuntos de política e obviamente deixei ali o recado de que existe uma pressão enorme da ala bolsonarista para um apoio mais enfático. Ele falou que vai dar. Tudo certo.
Flávio tem se autodefinido como um ‘Bolsonaro moderado’. Ciro Nogueira, do PP, diz que o partido só apoiaria Flávio com um discurso mais ao centro. Nas conversas que tem tido com o mercado, Flávio tem falado sobre isso?
Não, porque ele é assim. Vocalizar é até ruim, porque você está vendendo um produto que pode ser que não seja verdadeiro. Quando ele fala, naturalmente as pessoas já veem isso nele, esse reflexo de quem ele é vale muito mais do que falar alguma coisa. É igual o Lula chegar no final do ano e falar: ‘Precisamos parar com esse negócio de briga entre a esquerda e a direita’. Só que o cara a vida inteira fala, em qualquer entrevista que ele dá, fala é porque ‘eles, eles, eles, nós, eles, eles, o mau mercado’. Fica muito mentirosa essa fala, porque você faz uma coisa e fala outra. O melhor produto, a maior forma de vender um produto é você ser isso, e é o caso dele.
Com quem Flávio já se encontrou do segmento dos evangélicos?
Os líderes de pastores. Não posso mencionar, mas um dos que posso mencionar foi na Assembleia de Deus, do Zé Wellington. Ele esteve com os netos dele, com a filha dele, e já organizaram alguns encontros.
Ele pretende fazer um périplo pelas denominações?
Isso, tem até uma foto que eles fizeram no final do ano.
Já procurou os pastores “figurões”?
O pessoal está vindo atrás. Toda essa turma procurou a gente. Qual é o problema? Natal e Réveillon. Está todo mundo de férias. Então, a coisa vai começar, você sabe, o Brasil começa depois do Carnaval. Tem que esperar a turma voltar, mas já está todo mundo falando que quer encontrar com ele, que vai apoiar. Isso já está dado.
O senhor já decidiu se sairá candidato?
Não sei. O PP me ofereceu uma candidatura ao governo se o Tarcísio realmente não entrar na campanha, então é uma possibilidade, porque o Flávio vai precisar de palanque aqui. Estou esperando, vamos ver o que vai acontecer. Por enquanto, eu estou ajudando o Flávio com o que eu posso, com meus relacionamentos.
Mas na hipótese de o Tarcísio se lançar, o senhor não sairia?
Tarcísio provavelmente será candidato. A questão é se o Tarcísio não der palanque e não fizer a campanha que a gente precisa que seja feita em São Paulo, eu entro.
Nesse caso, o senhor se lançaria contra o Tarcísio?
Não contra, mas também como um candidato.
Estadão Conteúdo