CAIO SPECHOTO E CATIA SEABRA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O presidente Lula (PT) virou alvo de seus principais adversários após a revelação de que um de seus assessores mais próximos recebeu recursos de uma empresária amiga de seu filho e investigada pela Polícia Federal, mas decidiu por enquanto mantê-lo na equipe de campanha, apesar do desgaste eleitoral.
Ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, afirmou ter obtido e depois quitado um empréstimo de R$ 249 mil com Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Lula disse a aliados que soube do caso há menos de duas semanas, depois de o assessor ter sido destacado para a equipe petista na eleição, e que está triste. Mas, segundo integrantes do núcleo da campanha, o presidente não deve tirá-lo do time —exceto se Marcola quiser.
A informação sobre pagamentos de Roberta ao assessor foi revelada pelo site Poder360. Marcola disse em nota nesta terça (4) que seus sigilos bancário e fiscal estão à disposição da Justiça.
“Faço isso para deixar claro e público que jamais houve nada além do empréstimo pessoal que obtive junto a ela, pago com a transferência bancária de R$ 249 mil –uma movimentação de natureza estritamente privada”, declarou.
Assim como Roberta, Lulinha também é alvo de investigações da PF. Nos últimos dias, o STF (Supremo Tribunal Federal) abriu três inquéritos contra ele para investigar a suspeita de tráfico de influência. O último foi autorizado pelo ministro Flávio Dino, e os dois primeiros por André Mendonça —em um dos pedidos de apuração houve menção ao gabinete presidencial.
Marcola afirma que a transação com Roberta foi apenas um empréstimo pessoal, já quitado, e que não há ilegalidade na operação. Ele era chefe de gabinete do presidente da República até duas semanas atrás, quando saiu do cargo para entrar na equipe de campanha do petista.
Lula cobrou explicações de Marcola, que teria dito dispor de registros de pagamento para provar que a operação foi um empréstimo.
O assessor afirmou a aliados que o dinheiro serviu para uma questão familiar. Segundo a Folha apurou, Roberta teria repassado os valores em 2024, e Marcola, feito a quitação neste ano, depois de a empresária já ter virado alvo de investigação da PF.
Lula tem dito defender a investigação de todos os fatos e que, se a pessoa tiver culpa, que pague. Mas afirmou a aliados querer, na eleição, separar ações de aliados das dele, para que seja o eleitor decida com base nos atos do presidente, não de pessoas próximas.
O presidente também afirmou a aliados ter dito a Marcola que foi acusado de vários crimes e precisou provar inocência, e que o assessor deveria fazer o mesmo.
Roberta Luchsinger é sócia da RL Consultoria e Intermediações e, em maio, disse à PF que apresentou Lulinha para o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, antes da deflagração da Operação Sem Desconto.
A operação investiga um esquema que teria descontado mais de R$ 6 bilhões dos beneficiários do INSS de 2019 a 2024. O Careca do INSS é apontado pela PF como um dos operadores centrais do esquema de fraudes nos descontos de aposentadorias. Em dezembro passado, Roberta foi alvo de buscas.
O grupo político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal nome da oposição para a eleição presidencial, iniciou uma ofensiva nas redes para desgastar Lula.
“Mais um personagem petista no escândalo do roubo de aposentadorias, além do Careca do INSS, agora o lulismo também fabricou o Marcola do INSS, braço direito do Lula na Presidência da República”, afirmou Flávio.
Entre os inquéritos de que Lulinha é alvo, um deles envolve a suspeita de tráfico de influência no Ministério da Saúde para obter autorização de comercialização de cannabis medicinal. O filho do presidente atua no ramo junto com Roberta.
Já no segundo inquérito, a PF busca entender se ele agiu junto à Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência) para beneficiar um empresário e prospectar contratos.
A defesa de Lulinha disse, em nota, que ele “não tem relação direta ou indireta com qualquer tipo de irregularidade”. Os advogados afirmaram ter “confiança plena na condução serena e equilibrada do ministro Flávio Dino”, mas pediram providências contra “vazamentos reiterados, seletivos e criminosos”.
Flávio Bolsonaro não foi o único opositor de Lula que criticou o presidente por causa das notícias dos últimos dias envolvendo tanto Marcola quanto o filho do chefe do governo.
O candidato do Novo a presidente da República, Romeu Zema, disse ser impressionante o fato de notícias relacionadas a Lula, segundo ele, terem “alguma coisa a ser investigada por suspeita de corrupção”.
Em sabatina nesta terça, Ronaldo Caiado também comentou a notícia de que o ex-chefe de gabinete de Lula tomou um empréstimo de Roberta.
Segundo ele, a notícia demonstra que o escândalo se aproximou da “antessala do rei”. “É algo que mostra ainda mais o envolvimento do governo com escândalos e com corrupção. Um envolvimento direto”, afirmou.
O ex-deputado, ex-procurador da Lava Jato, e candidato a senador Deltan Dallagnol (Novo-PR), pediu que o STF investigue a operação financeira que envolveu o assessor do presidente.
Marcola já assessorava Lula havia quase sete anos quando o hoje presidente ganhou a eleição de 2022. Quando o petista estava preso, entre 2018 e 2019, era o assessor que levava recados de Lula a outros políticos. Uma vez no governo, o presidente escalou seu assessor como chefe de gabinete, sendo o principal responsável pela agenda presidencial.
Além disso, servia como um dos contatos de políticos que buscavam falar com o chefe do governo. Lula não tem telefone celular. Quem precisa falar com ele liga para Marcola ou para outra pessoa de um grupo reduzido que está sempre próximo do petista.