O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca nesta terça-feira 17, para a Ásia, onde visita em sequência a Índia e a Coreia do Sul.
No radar do governo, além de discussões políticas, estão a busca por novos mercados e acordos em setores estratégicos, como minerais críticos, aviação e medicamentos. Outro ponto em foco são parcerias digitais e no setor de governança da Inteligência Artificial (IA).
A visita mais robusta será em Nova Délhi. O presidente vai discursar ao lado de outros 20 líderes globais, e deve se reunir com alguns deles à margem de uma cúpula sobre IA, promovida pelo governo do premiê Narendra Modi. Participam também CEOs de big techs, como Google, Nvida, OpenIA, entre outras.
O presidente deve reiterar a preocupação com viés nos algoritmos e episódios de discriminação, com impacto em eleições, por meio da manipulação de informações, fotografias e vídeos, as deep fakes. O Brasil e Japão copresidem o grupo de trabalho sobre IA “segura e confiável”, um dos enfoques da cúpula.
O AI Impact Summit já foi realizado no Reino Unido (2023), na Coreia do Sul (2024, na França (2025) e agora na Índia (2026). A próxima sede deve ser escolhida durante esta edição da cúpula.
O fórum é informal e não toma deliberações compulsórias, mas discute aspectos diversos do desenvolvimento da tecnologia, com foco da democratização, e vai emitir uma declaração final. O documento lançará uma carta para difusão democrática da IA, a rede internacional de IA para instituições científicas e um guia para avanço da infraestrutura resiliente da IA, entre outras propostas.
Além disso, os dois governos vão assinar um acordo para estreitar a cooperação e trocar experiências com a infraestrutura pública digital.
Terras raras
Outro foco de atenção é o acordo para exploração de minerais críticos. As chancelarias negociaram o Memorando de Entendimentos Sobre Minerais Críticos e Terras Raras, a ser assinado pelos ministérios de Minas e Energia dos dois países.
Segundo dois embaixadores que tiveram acesso ao conteúdo, o memorando é um documento que não estabelece planos, prazos e investimentos específicos. Trata-se de um acordo mais incipiente e genérico, estilo “guarda-chuva”, para formalizar o interesse dos dois países e estimular trocas de experiências, conhecimentos e investimentos concretos no futuro, envolvendo empresas públicas ou privadas.
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras conhecida e busca atrair parceiros globais para pesquisa, extração, processamento e refino dentro do País, sem se amarrar a acordos de exclusividade. O governo vem sendo cortejado pelos Estados Unidos, que lançou uma ofensiva diplomática no campo dos minerais críticos, conduzida por Donald Trump, voltada para reduzir dependência e desafiar o domínio da China no setor.
Já a Índia quer fornecedores. Em 2023, a Índia estabeleceu uma lista de 30 minerais críticos essenciais, segundo a demanda do país em setores como defesa, agricultura, energia, farmacêutico, telecomunicações, entre outros. Em 2025, o governo disparou um plano nacional (Missão da Índia para Minerais Críticos) com US$ 2 bilhões financiados pelo Estado para assegurar fontes de fornecimento de minerais críticos domésticas e internacionais.
Eles querem estabelecer sete centros de excelência em mineração e registrar 1 mil patentes até 2030. O programa é voltado para lítio, cobalto, níquel e terras raras, entre outros, e espera mais US$ 2 bilhões em investimentos de empresas públicas e outros interessados. Os recursos serão investidos em diversas frentes: exploração, mineração, processamento, reciclagem, pesquisa e desenvolvimento e desenvolvimento de recursos humanos.
Ao menos mais oito acordos podem ser assinados, mas quase 20 foram discutidos nos bastidores. Os países vão celebrar a entrada em vigor da extensão da validade de vistos de negócios e turismo de 5 para 10 anos e reforçar o desejo de ampliar o acordo de comércio preferencial entre Mercosul e índia.
Remédios e Defesa
O Estadão apurou que existe um acordo em negociação com a Anvisa, que pode ser assinado em Nova Délhi. No ano passado, durante visita ao Palácio do Alvorada, o premiê indiano pediu, e o governo brasileiro sinalizou positivamente, que estudassem uma forma de estabelecer um fast track para aprovação mais célere de medicamentos feitos na Índia, que já tenha recebido aprovação de autoridades sanitárias nos Estados Unidos e na União Europeia.
No campo privado, o maior interesse imediato é da indústria aeronáutica brasileira. A Força Aérea da Índia vai promover uma concorrência bilionária para compra de até 80 aeronaves médias de transporte, para renovar sua frota, e um dos modelos considerados competitivos é o KC-390. Ainda não há uma data para que o processo formal seja lançado pelo Ministério da Defesa da Índia. Mas a licitação é uma das maiores oportunidades no setor de aviação de defesa, em todo o mundo.
A Embraer se associou à empresa local Mahindra para a disputa, que tem ainda a Airbus e a Kawasaki como potenciais concorrentes. O próprio Lula destacou a disposição da empresa brasileira de criar uma linha de produção em solo indiano, como deseja Modi, para atender à demanda do país.
Em outra frente, a Embraer formou uma parceria com a Adani Defence & Aerospace para avião comercial, com foco em jatos regionais, e vai realizar mais um anúncio de colaboração durante a visita. O objetivo também é a produção local de aviões civis, além de criar uma cadeia de suprimentos, fornecer serviços de pós-venda e treinamento de pilotos.
A empresa se instalou em Nova Délhi, no ano passado, e o escritório local tem realizado uma série de visitas e atividades e sinalizado com o envolvimento de empresas locais, formação de profissionais e transferência de tecnologia.
Lula deve levar na viagem cerca de 10 ministros de Estado, além de parlamentares. Acompanham a missão uma delegação de empresários de setores como saúde, tecnologia, alimentos, açúcar e álcool, farmacêutico, aeronáutico, mineração e maquinário. Mais de 300 empresas foram credenciadas para o encontro de negócios, segundo o Itamaraty.
Coreia do Sul
Já na Coreia do Sul, Lula pretende se reunir com o presidente Lee Jae-myung, com quem tem afinidades políticas e pessoais (compartilham o passado sindical), e promover negócios ao lado de cerca de 230 empresários. Os governos vão lançar um plano de ação 2026-2029 e estabelecer uma parceria estratégica.
Embora pretendam dar impulso político às negociações, integrantes do governo não vislumbram ainda uma decisão coreana sobre a abertura do mercado doméstico para a carne brasileira (bovina e suína). O mesmo ocorreu no ano passado, durante visita ao Japão, que destravou inspeções, mas não resultou até agora no sinal verde para importações da carne.
O governo quer atrair capital de investimento para projetos de longo prazo, e aproximar setores de ciêncie e tecnologia, cosméticos, aviação e economia criativa.
Estadão Conteúdo