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Lideranças do agro veem interesse comercial em restrições da UE contra desmatamento

Em novembro, a Comissão Europeia propôs proibir a importação de produtos considerados relacionados ao desmatamento e à degradação florestal

Por FolhaPress 01/12/2021 11h11
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Daniela Arcanjo
São Paulo, SP

Lideranças de associações do agronegócio criticaram nesta terça-feira (30) a posição da União Europeia e dos Estados Unidos contra o desmatamento e a favor de restrições a importações de produtos oriundos de áreas de florestas derrubadas. Há interesses econômicos por trás, afirmam.

Em novembro, a Comissão Europeia propôs proibir a importação de produtos considerados relacionados ao desmatamento e à degradação florestal, entre eles soja e carne bovina. Já os EUA, desde a posse de Joe Biden, discutem limitar a compra de produtos provenientes de áreas com desmatamento ilegal, o que poderia diminuir a importação do Brasil de couro, carne, madeira, café, celulose e soja.

Países estrangeiros deveriam “seguir os exemplos dos agricultores brasileiros na preservação”, disse Júlio Cézar Busato, presidente da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), em um evento em São Paulo (zona oeste da capital paulista) que contou com a participação por videoconferência dos ministros do Meio Ambiente, Joaquim Pereira Leite, e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina. O líder da bancada ruralista, o deputado federal Sérgio Souza, também participou.

Fernando Cadore, presidente da Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja), discorda do que foi proposto pela Comissão Europeia: se aprovada, a regra abrangeria inclusive o corte de árvores considerado legal na legislação do país de origem dos produtos.

“Quando a gente entra nesse quesito ambiental, o Brasil é um país que desponta”, defendeu. “A expansão da agricultura no país não necessariamente precisa passar pela conversão de floresta em área cultivável. Nós podemos otimizar o uso dessas pastagens e aumentar a agricultura em áreas já abertas.”

A Comissão justifica que o desmatamento ilegal foi superado pela expansão de áreas agrícolas como a principal causa da destruição de florestas. Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostram que foram derrubados 877 km² de floresta amazônica em outubro, recorde para o mês desde o início da série, em 2016.

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Na COP26, conferência do clima que ocorreu em Glasgow, na Escócia, o Brasil apresentou um dado irreal de queda de 5% da devastação no bioma em 2021.

Wander Bastos, diretor técnico da Abraleite (Associação Brasileira dos Produtores de Leite) aprovou o saldo da participação brasileira na conferência. “Vamos sempre ter problemas para ser corrigidos, mas nós temos muita coisa boa para mostrar”, afirmou.

Esteve presente na COP26 Caio Penido, presidente do Imac (Instituto Mato-Grossense da Carne). “A impressão é que é muito mais a mídia brasileira querendo direcionar para esse tema 24 horas. Eu vi lá problemas de todos os países”, disse.

Ele também critica os planos de restrição de commodities que estão sendo discutidos em outros países.

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“Deveriam reverter a estratégia de conservação. Vamos conservar, mas valorizando a biodiversidade, associando a imagem do Brasil à biodiversidade. E não associando ao desmatamento. Acho um pouco covarde isso. Injusto”, afirma.

“Vamos estimular o que é bom, ao invés de só ficar mostrando o desmatamento. Tem desmatamento porque temos biodiversidade. É um indicador de vida.”

Parte dos líderes defendeu também a regularização da terra. Em agosto, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que facilita a regularização fundiária de terras da União ou do Incra invadidas, incluindo áreas da Amazônia que foram ilegalmente desmatadas. Ambientalistas chamam o projeto de PL da Grilagem, por entenderem que, se entrar em vigor, premiará a invasão de terras.

“A gente precisa adequar algumas legislações, como o novo projeto que está tramitando, da regularização fundiária.

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Isso dá identidade para quem está em cima da terra”, disse Cadore, da Aprosoja. “Nós entendemos que a regularização fundiária mostra quem está ali e aí sim a punição pode vir.”








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