LUCAS MARCHESINI
FOLHAPRESS
Funcionários destacados para atender a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) estiveram por ao menos 150 dias no município de Ribeirão Claro (PR), onde fica um resort ligado ao ministro Dias Toffoli. O pagamento de diárias para esses agentes passou de R$ 454 mil desde dezembro de 2022.
Dados do TRT-2 (Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região) mostram a agenda de deslocamentos de agentes de segurança enviados para “prestar apoio em segurança e transporte para autoridade do Supremo Tribunal Federal” na cidade do resort Tayayá.
Os documentos não trazem o nome do ministro do STF atendido pelos funcionários do tribunal. A assessoria do Supremo não se manifestou sobre as informações. Reportagens da Folha de S.Paulo mostraram que o empreendimento tinha como sócios parentes de Toffoli e que o ministro tem uma casa no resort.
Os dados foram divulgados pelo portal Metrópoles e confirmados pela reportagem.
O uso dos agentes foi mais frequente em períodos de férias e de recesso do Judiciário. Os deslocamentos se davam em datas como o Carnaval, o mês de julho e o fim do ano.
Seguranças foram deslocados para atender a uma autoridade do STF em Ribeirão Claro no último Ano-Novo, o que reforça os relatos de que Toffoli continua frequentando o local mesmo depois que a participação de seus irmãos no resort foi vendida, no ano passado. Segundo funcionários do resort ouvidos pela reportagem, Toffoli passou o feriado no Tayayá.
José Carlos e José Eugênio, irmãos do ministro, também continuam a visitar o Tayayá Resort mesmo após a venda do negócio para o advogado Paulo Humberto Barbosa.
Toffoli chega ao local de helicóptero e pousa em um heliponto exclusivo próximo à casa que mantém numa área perto do resort. Entre funcionários e ex-trabalhadores do Tayayá, o ministro Toffoli e sua família ainda são citados como os donos do empreendimento, junto a Paulo Humberto Barbosa, advogado que atua para a JBS, dos irmãos Batista.
Em cada viagem, uma equipe de quatro ou cinco funcionários do TRT-2 era responsável pelo deslocamento e pela segurança do ministro do STF. Em caso de viagens por mais de cinco dias, o tribunal mandava uma nova equipe para substituir os agentes enviados inicialmente.
A despesa total para o tribunal foi de R$ 454 mil até novembro de 2025, mês da última lista disponível de gastos do TRT-2. Depois disso, outros funcionários foram deslocados para atender a autoridade do STF, de 13 de dezembro a 2 de janeiro deste ano.
Durante quatro anos (entre 2021 e 2025), como mostrou a Folha de S.Paulo, os irmãos de Toffoli José Eugenio Toffoli e José Carlos Toffoli dividiram o controle do resort Tayayá, no Paraná, com o fundo de investimentos Arleen, que faz parte da intrincada rede montada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.
O Arleen entrou na sociedade em 2021, comprando cotas de empresas que pertenciam aos irmãos e a um primo de Toffoli. O Arleen era de propriedade de outro fundo, o Leal, que, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, pertence a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master.
A revelação dessas conexões ampliou uma crise de imagem enfrentada pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Integrantes da corte passaram a defender o envio da investigação à primeira instância como uma “saída honrosa” para Dias Toffoli. Ele, no entanto, resiste a deixar a condução das apurações.
Toffoli está sob pressão interna devido à sua postura na supervisão do inquérito. As críticas começaram com o severo regime de sigilo imposto ao caso, seguido pela viagem de jatinho com um dos advogados da causa e por negócios que associam seus familiares a um fundo de investimentos ligado ao Master.
A operação Compliance Zero -cujo principal alvo é o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro- começou na Justiça Federal em Brasília, mas subiu para o Supremo, chegando ao gabinete de Toffoli, depois que a PF apreendeu um documento que cita o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), detentor de foro privilegiado.
Outra investigação, que se iniciou no âmbito da Justiça Federal em São Paulo, também foi enviada ao STF e fundamentou a segunda fase da operação, deflagrada no último dia 14, e que apura suspeitas de fraudes realizadas no Master por meio de fundos de investimento, incluindo empresários.
Judiciário pagou seguranças em cidade de resort frequentado por Toffoli em ao menos 150 dias
Em cada viagem, uma equipe de quatro ou cinco funcionários do TRT-2 era responsável pelo deslocamento e pela segurança do ministro do STF
Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF