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Política & Poder

Investigado no caso Master e na Carbono Oculto, fundador da Reag discute delação com o Ministério Público

Redação Jornal de Brasília

25/03/2026 23h54

joao carlos mansur

Foto: Divulgação

JOSÉ MARQUES E ANA POMPEU
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Um dos alvos das investigações relacionadas ao Banco Master, o empresário João Carlos Mansur decidiu fazer uma delação premiada e negocia os termos do acordo de colaboração desde o fim do ano passado. Ele procurou o Ministério Público de São Paulo em novembro e iniciou tratativas para delatar no âmbito das investigações da Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) em atividades da economia formal.


Mansur era dono da Reag, gestora de fundos de investimento que foi alvo da operação em agosto do ano passado. Depois, com o avanço das investigações do caso Master, ele também entrou no radar das apurações relacionadas a Daniel Vorcaro.

O advogado de Mansur é José Luís Oliveira Lima, conhecido como Juca, o mesmo contratado por Vorcaro para negociar a sua delação premiada há cerca de duas semanas. Isso faz com que, nos bastidores, autoridades digam acreditar em uma delação em conjunto dos dois, a ser negociada com a PGR (Procuradoria-Geral da República) e a Polícia Federal.


Caso os dois mantenham relatos semelhantes, no mesmo sentido, não haveria conflito. Cada um assinaria o próprio termo de colaboração.


A opção por uma delação conjunta não é formal, mas combinada entre as defesas. Eles não podem se contradizer e precisam apresentar a mesma história às autoridades e se complementarem. Por outro lado, o tamanho dos benefícios vai depender do quanto cada um entrega em informações e provas e da gravidade dos crimes imputados a cada um.


Mansur começou a negociar uma delação antes de Vorcaro ser preso, em 17 de novembro. Quando o ex-banqueiro foi detido, os investigadores da Carbono Oculto informaram as equipes do caso Master sobre a possibilidade de que eventual acordo de delação com o dono da Reag poderia citar os mesmos alvos.


A Carbono Oculto apura fraudes, sonegação e lavagem de dinheiro em postos de combustíveis em um esquema que envolve recursos do PCC. A Reag, segundo os investigadores, abrigaria fundos que foram usados para esquentar o dinheiro de atividades criminosas além de ocultar os verdadeiros donos.


A gestora tinha R$ 352 bilhões sob administração em novembro do ano passado, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).


Segundo três pessoas com conhecimento das investigações, Mansur apresentou uma proposta de colaboração ao Ministério Público Federal em São Paulo, que não avançou.


A defesa de Mansur procurou integrantes da Procuradoria da República que atuaram ou auxiliaram nas apurações da Quasar, operação relacionada a alvos similares aos da Carbono Oculto, mas as discussões foram encerradas ainda em estágio inicial.
Em novembro do ano passado, a defesa também ofereceu uma sugestão de acordo ao Ministério Público do Estado de São Paulo, que, por sua vez, levou à frente as discussões a respeito da colaboração. Esse acordo ainda não foi fechado.
A delação ser feita em âmbito estadual indica que não haveria políticos ou pessoas mencionadas com foro especial federal -como deputados federais ou senadores. Além disso, o dinheiro a ser devolvido por meio da negociação também iria para o estado de São Paulo, por desvios de recursos locais.
A Reag era uma das maiores gestoras independentes -ou seja, sem ligação com um banco–do país. Mansur deixou o cargo de presidente do Conselho de Administração em setembro de 2025 para conter a crise criada pela Carbono Oculto.
Em diversas ocasiões, o empresário negou que houvesse irregularidades no funcionamento da Reag e, em depoimento neste mês à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado, ele disse que a empresa tinha um compliance forte e foi penalizada por ser “grande e independente”.
Para a homologação de um acordo, é preciso admitir crimes e apresentar provas que corroborem a narrativa apresentada aos investigadores.
A Carbono Oculto foi deflagrada em agosto do ano passado junto a outras duas operações que envolviam a PF: a Tank, no Paraná, e a Quasar, em São Paulo, que trata de uso de fundos de investimentos em suspeitas de lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta de instituições financeiras.
Em janeiro, Mansur foi um dos alvos da segunda fase da operação Compliance Zero, que apurou a atuação de fundos de investimentos que teriam sido usados para inflar o patrimônio do Master.
O caso está sob a responsabilidade da PGR e é supervisionado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), em Brasília.
Logo depois da segunda fase da Compliance Zero, o Banco Central decretou a liquidação da Reag por “comprometimento da situação econômico-financeira da corretora, bem como por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do SFN [sistema financeiro nacional]”.
Além de Mansur, as principais delações da Carbono Oculto, que também ainda não foram fechadas, podem ser as dos empresários foragidos Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo.


Procurada, a assessoria de imprensa da Reag afirmou que não irá se manifestar sobre a tentativa de colaboração. Também procurado por mensagens na manhã desta quarta-feira (25), o advogado de João Carlos Mansur não se manifestou.


Nesta quarta, outro investigado no caso Master trocou de advogados para tentar fechar acordo de delação: Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Ele é suspeito de ser um dos operadores financeiros do ex-dono do banco.


Zettel será agora defendido por Celso Vilardi. Ele capitaneou a defesa de Jair Bolsonaro na trama golpista, enquanto Juca liderou a do general Braga Netto. Na ocasião, ambos chegaram a debater teses de defesa para o processo em conjunto em algumas ocasiões.


As investigações da Carbono Oculto apontaram suspeitas de que a Reag foi implicada em um esquema criminoso para ocultação de lucros ilícitos por meio de veículos de investimento há muito utilizados pela elite brasileira devido à sua discrição e isenções fiscais.


Segundo as autoridades, o esquema investigado envolveu a lavagem de quase US$ 10 bilhões, atribuída a um dos maiores grupos criminosos do país. O dinheiro teria sido mascarado por meio de fundos de investimento com um único cotista, conhecidos como fundos exclusivos, descritos pelos investigadores como possíveis “fundos de fachada”.


Como mostrou a Folha de S. Paulo, um relatório do BC enviado ao TCU (Tribunal de Contas da União) apontou indícios de fraude em operações financeiras realizadas pelo Master em conjunto com fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.


De acordo com o documento, as transações suspeitas somariam R$ 11,5 bilhões e foram consideradas pelo BC como portadoras de “falhas graves”, em desacordo com normas do sistema financeiro nacional. O órgão regulador comunicou o caso ao Ministério Público Federal.

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