CATIA SEABRA E THAÍSA OLIVEIRA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
A internação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) reacendeu, no STF (Supremo Tribunal Federal), uma articulação para que o ministro Alexandre de Moraes autorize sua transferência para o regime domiciliar.
Na corte, ao menos dois ministros próximos a Moraes se dedicam a esse esforço de convencimento, iniciado ainda no ano passado.
A ideia é que as conversas sejam retomadas no período em que Bolsonaro está internado, em Brasília, ainda sem previsão de alta. Nas palavras de um ministro, a transferência passou a ser uma questão humanitária.
Em janeiro, aliados de Bolsonaro e uma ala do STF chegaram a apostar que a decisão de Moraes de mudar o local da prisão do ex-presidente fosse um passo inicial para enviá-lo para o regime domiciliar.
Na decisão em que determinou a transferência para a unidade chamada de Papudinha, o ministro disse que o cumprimento da pena não é uma “estadia hoteleira” nem uma “colônia de férias” e rebateu as críticas dos filhos do ex-presidente sobre as condições da sala de Estado Maior da Polícia Federal.
Ainda assim, esses ministros viam na decisão uma oportunidade no sentido de retorno ao regime domiciliar.
Essa avaliação ganhou força após a investida da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no tribunal. Michelle foi recebida pelo próprio Moraes, a quem relatou a situação clínica e emocional do marido.
A explosão do caso Banco Master, com menção à mulher do ministro, aliada aos ataques de bolsonaristas a Moraes, teria inviabilizado qualquer acordo. Mas, após a internação, a possibilidade de decretação de regime domiciliar volta à mesa.
Aliados de Bolsonaro afirmam que o estado de saúde do ex-presidente é crítico e que ele não tem condições de ficar sozinho. No sábado (14), o senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) disse que a defesa espera um novo laudo médico para formalizar o pedido de prisão domiciliar ao Supremo.
“Fica aqui mais uma vez o apelo. E espero que nós possamos apresentar o mais rápido possível o pedido de domiciliar humanitária. Só estamos esperando o laudo médio”, afirmou o senador após visitar o pai no hospital particular DF Star, onde está internado.
Bolsonaristas também ressaltam que a situação de Bolsonaro é tão grave quanto a do ex-presidente Fernando Collor, que recebeu de Moraes, no ano passado, o direito de cumprir pena em casa pelo diagnóstico de Parkinson e o risco de queda.
Bolsonaro está internado desde a última sexta-feira (13), com quadro de pneumonia bacteriana bilateraldecorrente de broncoaspiração. O ex-presidente apresentou melhora clínica e laboratorial nas últimas 24 horas, com recuperação das funções renais e de marcadores inflamatórios, segundo boletim médico divulgado nesta segunda (16).
Em janeiro, Bolsonaro caiu ao tentar caminhar e teve traumatismo craniano leve. Moraes negou inicialmente a ida imediata ao hospital, após laudo médico da PF que constatou apenas ferimentos leves, e cobrou da defesa a lista de procedimentos. A partir da documentação complementar, o ministro liberou o ex-presidente para exames.
A perícia médica da Polícia Federal que apontou que Bolsonaro tem condições de continuar preso em Brasília na Papudinha, desde que receba cuidados especiais, frustrou a defesa do ex-presidente no começo do mês passado.
A opinião dos médicos era a principal aposta dos advogados e de aliados para fortalecer a solicitação de prisão domiciliar, que Bolsonaro perdeu após tentar violar sua tornozeleira eletrônica em novembro.
Condenado por tentativa de golpe de Estado, ele foi retirado do regime domiciliar e enviado para a Superintendência da PF em Brasília em novembro, após tentar violar a sua tornozeleira eletrônica, segundo ele, por “curiosidade”.
Seus médicos atribuíram o episódio a confusão mental causada por medicamentos. Segundo especialistas, os remédios usados pelo ex-presidente são seguros e em casos raros podem causar delírio.