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Política & Poder

Imóveis ligados a empresas de Vorcaro ganham ou perdem milhões em valor em poucos dias

Casos expõem inconsistências na valoração de imóveis usados em operações financeiras e negócios imobiliários

Redação Jornal de Brasília

07/01/2026 15h18

daniel vorcaro

Foto: Divulgação/ Banco Master

JOANA CUNHA, IRAN ALVES E ANA PAULA BRANCO
FOLHAPRESS

Os detalhes de alguns dos negócios imobiliários realizados por empresas ligadas a Daniel Vorcaro, que vieram à tona após o escândalo do Banco Master, mostram valorizações ou desvalorizações súbitas em operações que sinalizam desvantagens milionárias para o lado do banqueiro.

No dia 15 de maio de 2025, a Viking Participações, uma empresa da qual Vorcaro é sócio, comprou um apartamento triplex em São Paulo por R$ 29,7 milhões e o vendeu 11 dias depois, em 26 de maio, por R$ 27 milhões.

O imóvel, cujo valor de referência citado na escritura gira em torno de R$ 9,9 milhões, tem 838 metros quadrados de área privativa, sete vagas de garagem e ocupa desde o 22º pavimento até o 24º de um edifício na rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, no Itaim Bibi, bairro rico da capital paulista.

O triplex foi anunciado no site da Homesphere, empresa de corretores de luxo, por R$ 50 milhões. De acordo com as informações da Homesphere, o valor do condomínio é R$ 12.900 e o IPTU mensal custa R$ 5.200.

A reportagem tentou entrar em contato com a Homesphere para entender a discrepância nos preços, mas a imobiliária não respondeu e retirou o anúncio de seu site.

Também procurada pela reportagem, a assessoria de Vorcaro afirmou que a transação do triplex “faz parte da venda de ativos ao BTG no contexto de capitalização do Master”, mas não explicou por que ele comprou o imóvel dias antes.

No registro da aquisição do triplex pela Viking por R$ 29,7 milhões, a matrícula do imóvel menciona um compromisso de compra e venda datado de 2020, mas tal documento não foi registrado.

A Viking é uma empresa de Vorcaro que ficou que conhecida na ocasião da prisão do dono do banco Master por ser proprietária do jato em que o banqueiro pretendia embarcar para viajar a Malta quando foi preso em 17 de novembro. Ele foi solto 12 dias depois.

A Viking voltou a aparecer na esteira do noticiário do escândalo do Master por causa de um outro imóvel, que apresentou valorização súbita antes de chegar às mãos do banqueiro.

Em 2 de março de 2020, um empresário de São Paulo, pessoa física, que era o antigo proprietário de um apartamento de 113 metros quadrados vendeu o imóvel para uma empresa da qual ele mesmo era sócio por R$ 1,5 milhão.

Em 20 de março de 2020, ou seja, 18 dias depois, essa empresa vende o apartamento para a Viking por aproximadamente R$ 4,4 milhões, quase três vezes o valor.

O imóvel chamou a atenção da mídia porque, em 2024, a Viking vendeu (pelos mesmos R$ 4,4 milhões) esse apartamento para a Super Empreendimentos e Participações SA -empresa que tem ligações com o banqueiro e a família dele-, a qual, por sua vez, doou o imóvel para uma mulher que havia sido citada em uma operação policial contra o tráfico de drogas alguns anos antes.

A reportagem perguntou para o proprietário anterior e para a assessoria de Vorcaro por que o preço do imóvel se multiplicou em poucos dias em 2020. O antigo proprietário disse que tinha investido em obras e decoração, valorizando o imóvel. Vorcaro não respondeu.

Em reportagens anteriores que questionaram sobre a ligação de Vorcaro com a Super, a assessoria do banqueiro disse que a relação dele com a firma é apenas comercial, em operações de compra e venda de ativos e contratos de inquilinato. Ainda segundo a assessoria do banqueiro, um dos sócios da empresa é cunhado de Vorcaro.

Dados da Receita Federal apontam que Fabiano Zettel, casado com a irmã de Daniel Vorcaro, foi diretor da Super e que uma sócia de Zettel permanece como diretora, Ana Cláudia Queiroz de Paiva. A assessoria do banqueiro afirma também que Ana Cláudia presta serviço a uma das empresas de Vorcaro. A diretora não respondeu às tentativas de contato feitas pela reportagem.

Um dos contratos de aluguel assinados entre Vorcaro e a Super, segundo o banqueiro, é a casa de R$ 36 milhões que ficou famosa por ter sido usada por ele para receber políticos em Brasília.

A matrícula desse imóvel também apresenta valorização: em abril de 2024, a casa foi integralizada por uma pessoa física ao patrimônio de uma pessoa jurídica da qual ela mesma é sócia, por R$ 7,3 milhões.

No início de junho do mesmo ano, tal empresa vende a casa para a Super por R$ 36 milhões, de acordo com a documentação do registro.

Procurado, o antigo proprietário afirma que o preço da propriedade subiu porque ele construiu a casa 1.700 m² no terreno. A assessoria de Vorcaro não se manifesta sobre a transação.

Outro caso que veio à tona em meio ao noticiário envolvendo o Master foi a valorização de um terreno na periferia de Santa Cruz Cabrália, na Bahia. Reportagem da revista Piauí publicada em julho de 2025 mostrou que a propriedade foi vendida em 2022 por R$ 500 mil e, um ano depois, por R$ 900 mil.

Em seguida, o terreno passou pelo crivo de um escritório de avaliação de bens, que o declarou como uma propriedade de R$ 100 milhões, de acordo com a Piauí.

Esse terreno não foi comprado nem vendido por firmas ligadas a Vorcaro, porém, depois de ter o valor turbinado, o imóvel serviu de garantia a um empréstimo concedido pelo Master, segundo a reportagem.
Daniel Vorcaro tem longa experiência no mercado de imóveis.

Antes de ingressar no Master, ele trabalhou por oito anos na empresa de seu pai, o Grupo Multipar, como diretor financeiro e presidente. A companhia do setor imobiliário sediada em Belo Horizonte atua na gestão, aquisição e venda de ativos imobiliários e empresariais.

O tema da valorização já foi apontado pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) em processo aberto em 2020 para apurar irregularidades em um fundo de investimento imobiliário fechado, chamado Brazil Realty.

Um dos imóveis envolvidos teria sido sobreavaliado em R$ 56 milhões em laudo considerado irregular, supostamente pago com R$ 5.000 em espécie. Entre os acusados estão a Viking e Daniel Vorcaro, como responsável pelo Máxima (antigo nome do Master), que comprou cotas do fundo, além de seu pai Henrique, como responsável pela empresa Milo, que também investiu no Brazil Realty.

Ainda conforme o processo, as cotas foram revendidas no mercado secundário e alguns dos compradores eram fundos que tinham Regimes de Previdência Social como cotistas, “que, em última linha, absorveriam os prejuízos”. No início de dezembro, a autarquia rejeitou uma proposta de acordo para encerrar o processo.

Especialistas em mercado imobiliário avaliam que as transações chamam a atenção pelos ganhos e perdas expressivos em poucos dias.

Sem comentar os negócios envolvendo Vorcaro especificamente, o advogado e professor da FGV Pedro Serpa, especialista em direito imobiliário, afirma que imóveis, em geral, podem ser negociados pelo valor que comprador e vendedor acharem conveniente.

Segundo Serpa, transações de imóveis de pessoas físicas para suas próprias pessoas jurídicas costumam ser feitas para reduzir o pagamento de tributos, mas em alguns casos, quando não há justificativa econômica, também podem sinalizar irregularidades.

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