CATIA SEABRA E CAIO SPECHOTO
FOLHAPRESS
A cúpula do governo federal passou a instruir seus aliados a tomar uma posição ofensiva contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), provável principal adversário do presidente Lula (PT) nas eleições de 2026.
A ordem deve marcar uma mudança na forma como o governo lida com o crescimento do filho de Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais.
Não houve, nas últimas semanas e meses, um movimento coordenado dos aliados de Lula para tentar desconstruir a imagem de Flávio porque havia o receio de ele ficar inviabilizado. Lulistas preferem disputar a eleição contra o senador do que competir contra o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Tarcísio era cotado para ser candidato ao Planalto até o ex-presidente indicar Flávio, seu filho mais velho, para o posto de representante de seu grupo político na eleição nacional. O governador de São Paulo poderia aparecer como um plano B do bolsonarismo caso o senador afundasse nas pesquisas.
O que aconteceu foi o contrário. Flávio Bolsonaro não só não afundou como empatou com Lula nas intenções de voto para segundo turno, como indicou pesquisa Datafolha neste mês. A avaliação na cúpula do governo, agora, é que a candidatura do filho de Jair Bolsonaro se tornou um fato consumado.
A orientação foi transmitida na terça-feira (17) pelo ministro da Secretaria Geral, Guilherme Boulos, a deputados petistas em um almoço na Câmara. O ministro afirmou que se tratava de uma avaliação pessoal dele, mas deputados petistas entenderam como um recado do próprio Lula e que Boulos estava sendo uma espécie de porta-voz do presidente.
Movimentos sociais também foram orientados por lulistas a “virar a chave”, conforme aliados relataram à reportagem, para entrar em ritmo de campanha eleitoral.
Apoiadores de Lula apostam que as comparações entre o atual governo com o de Bolsonaro e menções constantes a episódios como as investigações sobre “rachadinhas” no gabinete de Flávio quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro podem desgastar o adversário. As investigações foram encerradas em 2021 depois de o Judiciário anular as provas coletadas.
Além disso, lulistas miram a imagem de moderado que Flávio busca projetar.
Também na terça, o PT divulgou uma resolução política com ataques diretos ao filho de Bolsonaro.
“Trata-se de um parlamentar marcado por denúncias e investigações envolvendo esquemas de rachadinha, movimentações financeiras suspeitas e um histórico de enriquecimento incompatível com a vida pública”, afirma o documento, que serve para guiar as ações da militância petista.
A última pesquisa Datafolha apontou Lula com 46% das intenções de voto para o segundo turno, contra 43% de Flávio. Os dois estão empatados dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Governistas ouvidos pela reportagem avaliam que o senador do Rio de Janeiro conseguiu chegar rapidamente a esse patamar porque estava se movimentando sem um movimento claro dos adversários contra ele.
Também mencionam que os números de Flávio nas pesquisas são condizentes com o resultado obtido por seu pai na eleição de 2022. Naquele ano, Lula foi eleito com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Jair Bolsonaro.
Por esse raciocínio, o senador até o momento teria mantido o patrimônio eleitoral do ex-presidente. Um novo crescimento de Flávio nas pesquisas seria um indício mais alarmante para petistas: mostraria um movimento de migração de eleitores de Lula para o adversário.
A ofensiva de petistas contra Flávio não deve, a princípio, ter participação direta de Lula -salvo intervenções pontuais, dependendo das circunstâncias.
O plano é que o chefe do governo mantenha seu discurso focado em entregas de obras e outras medidas do Executivo. Os ataques mais diretos ao grupo político adversário ficará a cargo da bancada no Congresso e de aliados como Boulos e a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.
Governistas também buscam evitar que novos desgastes atinjam a gestão. O governo vem tomado medidas, por exemplo, para conter os preços do diesel e tentar evitar uma greve de caminhoneiros. Uma paralisação da categoria, avaliam lulistas, poderia ter grande impacto econômico e reduzir a popularidade do presidente.