CATIA SEABRA E CAIO SPECHOTO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Alarmados por pesquisas de opinião, integrantes do governo Lula (PT) têm reavaliado a estratégia de comunicação adotada com relação ao caso Master. Levantamentos recentes voltaram a colocar a corrupção no topo das preocupações do brasileiro, ao lado da segurança pública, segundo aliados do presidente.
Esses dados reacenderam no governo o debate sobre a melhor abordagem do escândalo em falas públicas. Na avaliação de auxiliares do presidente, as investigações, mesmo que encampadas por órgãos do governo, alimentaram na população a percepção de que a corrupção é um problema da gestão petista, não importando a coloração política dos investigados.
Lula tem dado declarações públicas contundentes sobre o caso Master. Já disse, por exemplo, que operações recentes chegaram aos “magnatas do crime”.
O petista também afirmou, em entrevista, que as investigações iriam fundo e que queria saber por que governos de estados colocaram dinheiro em fundos do Master. “Qual é a falcatrua que existe entre o Master e o BRB [banco do governo do Distrito Federal]? Quem está envolvido?”, questionou o presidente na ocasião.
Antes encaradas como um trunfo político contra a direita –grupo de origem dos principais políticos mencionados no caso até o momento–, e como demonstração de que o governo estaria combatendo a corrupção praticada pelo andar de cima, as investigações agora deverão receber outro tratamento do Palácio do Planalto, segundo aliados do presidente.
A orientação é para que os ministros se afastem do caso, sob o argumento de que o governo não quer se envolver em uma iminente disputa entre o STF (Supremo Tribunal Federal) e a Polícia Federal.
Os ministros da corte estão especialmente irritados com um relatório elaborado pela PF que levanta suspeitas sobre o ministro Dias Toffoli, que era relator do caso Master até a última semana. O magistrado, que já vinha sendo pressionado a deixar a relatoria, afastou-se da investigação após o relatório vir a conhecimento público.
Na visão de lulistas, a mudança do relator deve facilitar a blindagem ao Palácio do Planalto junto à opinião pública. Toffoli chegou ao STF em 2009 por indicação de Lula. A substituição dele pelo ministro André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), servirá para afastar suspeitas de tentativa de interferência do governo no curso do processo.
De acordo com esses aliados, o governo reafirmará o apoio ao trabalho do Banco Central, da PF e da Receita Federal, ressaltando que as investigações foram iniciadas na gestão de Lula. O caso, no entanto, não deverá receber mais tanto destaque nos discursos.
O combate à corrupção deve ser tratado como uma ação contínua do Estado, não como uma agenda política, nas palavras de um colaborador direto do presidente.
Parte dos aliados de Lula defende que o foco dos discursos de governistas se volte para temas como a taxação de setores de mais alta renda como forma de bancar políticas sociais. Essa estratégia fez com que o governo ganhasse espaço nas redes sociais em 2025.
Apesar da percepção registrada nas pesquisas, interlocutores do presidente ressaltam que as investigações levaram ao desmonte de um bilionário esquema fraudulento e trouxeram à tona a participação de próceres do centrão. Segundo os relatos, não existe qualquer intenção de impor um freio ao trabalho dos investigadores, apenas mudar a estratégia governista.
A possibilidade de sofrer algum efeito negativo, ainda que indireto, da percepção do eleitorado sobre corrupção reaviva um antigo trauma petista.
O partido, fundado em 1980, cresceu nos anos 1990 fazendo oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) com um forte discurso de ética na política. Essa posição fortalecia políticos do partido em setores da classe média urbana, por exemplo.
Depois, já no governo, o partido teve seus principais líderes atingidos por escândalos de corrupção como o mensalão e a Operação Lava Jato. Essa última levou Lula à cadeia em 2018. Depois, ele teve uma série de vitórias judiciais, foi solto, ficou elegível e se tornou presidente novamente.
As acusações de que o partido é corrupto continuam sendo feitas por adversários dos petistas. E a força da legenda junto aos setores mais sensíveis ao discurso de ética na política nunca foi plenamente recuperada.