Menu
Política & Poder

Governo de Mato Grosso colocou R$ 447 milhões em fundo da Reag para obra em eixo estratégico do agro

A relação da Reag com a gestão do Mato Grosso entrou na mira da CPI do Crime Organizado. A comissão tem planos de quebrar sigilos de empresas

Redação Jornal de Brasília

01/04/2026 6h02

br163

O governo de Mato Grosso deu à gestora Reag, investigada por suspeitas de lavagem de dinheiro e ligações com o crime organizado, a administração de recursos públicos destinados à retomada da duplicação e modernização da BR-163 no Estado, um dos principais eixos logísticos do agronegócio no País.

Procurados, o governo de Mato Grosso e a Reag não comentaram.

A relação da Reag com a gestão do Mato Grosso entrou na mira da CPI do Crime Organizado. A comissão tem planos de quebrar sigilos de empresas e fundos ligados à gestora de investimentos e aprofundar a investigação sobre vínculos dela com negócios do Banco Master no Estado.

Nesta terça-feira, 31, a CPI aprovou requerimento de informações ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre crédito de R$ 5 bilhões autorizados para a obra.

Desde 2023, o trecho matogrossense da rodovia está sob responsabilidade da MT Participações (MT Par), uma empresa estatal que recebeu a concessão da estrada federal após a Odebrecht Transport sair do negócio em 2022.

O governo de Mauro Mendes (União) aportou R$ 447 milhões no MTPAR Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não-Padronizado. Esse fundo foi criado pela Reag e é administrado por ela desde que entrou em operação, em abril de 2023.

O “Fundo da MT PAR” é destinado à compra de direitos creditórios, um tipo de investimento que consiste na compra de créditos que empresas têm a receber. Em síntese, compra o direito de receber pagamentos futuros.

Dias após o aporte do governo estadual, o Fundo utilizou o montante para comprar papéis de dívidas que a antiga concessionária tinha com antigos credores. Os R$ 447 milhões serviram para comprar direitos creditórios que somavam cerca de R$ 1 bilhão.

Além de usar um Fundo administrado pela Reag, a empresa MT Par colocou em seu conselho de administração, em maio de 2023, o investidor Luiz Carlos Moreira Lima. Entre 2024 e 2025, ele tornou-se sócio da Reag, após vender a ela sua gestora de patrimônios.

Procurado, Moreira Lima afirmou que teve “participação ínfima e minoritária” na Reag e não teve qualquer função de gestão no Fundo da MT Par.

“Ao tomar conhecimento das irregularidades atribuídas à Reag, Lima formalizou sua saída completa do grupo em outubro de 2025. Essa transação foi devidamente registrada e comunicada ao mercado por meio de Fato Relevante”, ressaltou, por meio da assessoria.

Em nota, ele disse ainda que “não existe nem nunca existiu conflito de interesses” e que os recursos da MT Par “estão seguros e não representam risco aos contribuintes ou ao desenvolvimento das atividades” da empresa do governo do Mato Grosso.

A concessionária Nova Rota do Oeste, cujo único acionista é a MT Par, afirmou em nota que “a escolha da gestora do fundo, assim como a composição do conselho de administração da Concessionária, seguiram critérios técnicos e de mercado, sem qualquer irregularidade”.

A nota da concessionária ressaltou ainda que o Fundo gerou “economia expressiva ao erário e diferimento tributário em conformidade com as normas fiscais aplicáveis”.

“Os resultados concretos da operação falam por si: desde 2023, foram duplicados 230 quilômetros da rodovia e registrada redução de 28% no número de mortes por acidentes em 2025, evidências objetivas de que o interesse público foi, em todas as etapas, a prioridade absoluta da gestão”, frisou.

A reportagem perguntou ao governo estadual o porquê da opção pelo fundo da Reag e se houve providências após as investigações contra ela. Não houve respostas.

A importância da rodovia

A transferência da concessão da rodovia para o governo estadual foi formalizada em maio de 2023 em uma cerimônia em Brasília que contou com a presença do governador, ministros e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

As obras ficaram paradas entre 2016 e 2022. Quando o governo do Mato Grosso sinalizou interesse em assumir a obra, os termos da transferência da concessão foram elaborados de forma conjunta entre Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Ministério dos Transportes e Tribunal de Contas da União (TCU).

O trecho da BR-163 sob concessão tem 850 quilômetros. A rodovia é um dos maiores eixos estratégicos do agronegócio porque conecta a região que mais se destaca no setor a portos da parte Norte do País.

Em 2024 e 2024, cerca de 235 quilômetros foram duplicados com obras que estão entre as maiores realizadas no Brasil neste período.

Reag na mira

A Reag é alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, no contexto do escândalo do Banco Master. A investigação apura o uso de fundos de investimento administrados pela Reag em operações suspeitas com o banco de Daniel Vorcaro.

Esse esquema teria ajudado a inflar artificialmente o patrimônio do banco e dar aparência de solidez financeira ao grupo, investigado por crimes contra o sistema financeiro.

Além disso, a Reag aparece na Operação Carbono Oculto, que apura relações do Primeiro Comando da Capital (PCC) com sistema financeiro por meio de lavage de dinheiro. Fundos administrados pela Reag teriam sido usados para “esquentar” dinheiro da organização criminosa e ocultar os verdadeiros donos dos recursos.

Aliados de Mauro Mendes afirmam que a CPI do Crime Organizado permitiu ser manobrada por interesses eleitorais regionais. Isso porque um relatório sobre relações de Master e Reag com o governo de Mato Grosso foi levado aos senadores pelo ex-governador Pedro Taques (PSB), adversário de Mendes.

Outros integrantes da comissão, contudo, avaliam que as informações apresentadas por Taques são relevantes e podem ajudar a revelar um “modus operandi” de um grupo criminoso dentro do sistema financeiro.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado