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Política & Poder

Governo aposta em pressão dos trabalhadores para tentar derrubar escala 6×1 após derrota no Congresso

Redação Jornal de Brasília

01/05/2026 19h40

escala 6x1

Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aposta na pressão dos trabalhadores para que o Congresso vote o fim da escala 6×1 antes das eleições. Integrantes da cúpula governista pediram, em atos em São Paulo e no Rio neste 1º de Maio, que a sociedade entre em campo para pressionar deputados e senadores em prol da redução da jornada de trabalho.

A pauta é a esperança de o governo retomar fôlego após duas derrotas legislativas: o bloqueio da indicação de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal) e a derrubada do veto de Lula ao PL (projeto de lei) da dosimetria, que reduzirá as penas dos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro —incluindo a do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, disse que o Planalto cumpriu seu papel de provocar o debate sobre o fim da escala 6×1, enviando projeto de lei ao Congresso, mas que a responsabilidade de pressionar para a aprovação da redução da jornada de trabalho sem redução de salário é da sociedade.

“A manifestação da sociedade é muito importante nesse processo, porque o Congresso nós conhecemos, sabemos o Congresso que é. Então, é preciso que a sociedade entre em campo, continue em campo, exigindo que essa deva ser uma conquista deste momento para a classe trabalhadora”, afirmou no ato de 1º de Maio organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo.

Marinho disse acreditar que a escala 6×1 estará “enterrada” ainda neste ano. Segundo ele, esse é um dos modelos mais cruéis e prejudica em especial as mulheres. Para o ministro, não há conflito entre diferentes propostas em tramitação, como o projeto de lei de Lula e as duas PECs (propostas de emenda à Constituição).

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, também disse acreditar que a jornada atual de trabalho, de 44 horas semanais, estará “enterrada” até julho, já que o projeto de lei enviado por Lula tem regime de urgência e, caso não seja votado, tranca a pauta do Congresso.

“Estamos trabalhando para que este seja o último 1º de Maio com escala 6×1 no Brasil. Essa é a importância histórica dessa data”, disse, lembrando que o país não reduz a jornada de trabalho há 38 anos, desde a promulgação da Constituição de 1988.

A proposta defendida pelo governo prevê jornada máxima de 40 horas semanais, sem redução salarial, além da garantia de pelo menos dois dias de descanso por semana. De acordo com o ministro, há forte articulação política e sindical para viabilizar a mudança ainda no primeiro semestre. “No que depender do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do movimento sindical e dos trabalhadores, vamos acabar com a 6×1”, afirmou.

Alinhado ao discurso do governo, o presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Sergio Nobre, afirmou que o principal foco das mobilizações deste 1º de Maio é pressionar o Congresso Nacional pela redução da jornada de trabalho sem corte de salário, com votação pelo fim da escala 6×1 ainda neste mês.

Segundo ele, a atual organização do trabalho no Brasil é ultrapassada e incompatível com o século 21, reforçando a crítica já feita pelo presidente Lula.

Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e candidato ao governo do Estado de São Paulo, endossou a convocação da população contra a escala 6x1em seu discurso no ABC. “Revisão da jornada 6×1 já está no Congresso e se não houver mobilização da classe trabalhadora, isso vai sendo adiado”, disse ao subir no palco.

A região central da capital paulista também recebeu mobilizações contra a escala 6×1 no Palácio dos Trabalhadores e na praça Roosevelt —esta última convocada pelo VAT (Vida Além do Trabalho), o grupo que iniciou as reivindicações por maior tempo de descanso.

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) afirmou que a PEC contrária à escala 6×1, que ganhou atenção popular, deve ser votada no plenário neste mês. O público se aglomerou em torno da deputada, que levou cerca de 40 minutos para conseguir deixar o local.

O VAT também convocou um ato no Rio de Janeiro, de onde é o seu fundador, o vereador Rick Azevedo (PSOL-SP). Lá, entregadores de aplicativos se juntaram a movimentos sociais no ato de 1° de Maio em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. O grupo chegou à manifestação em uma marcha ao som de buzinas de motos e campainhas de bicicletas. Os trabalhadores gritaram pedindo respeito à categoria.

No Palácio dos Trabalhadores, onde o ato foi puxado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes, houve falas de Simone Tebet (ex-ministra do Planejamento) e Marina Silva (ex-ministra do Meio Ambiente.

Tebet negou que a redução da jornada traria prejuízos à economia. “Eu garanto para vocês que o Brasil não quebra. Como não quebrou com o 13º e o salário mínimo, e não vai quebrar com o aumento da licença paternidade.”

Silva disse que escala de trabalho 6×1 não garante a restauração biológica do corpo e, para as mulheres, não garante um dia de descanso. “Nós mulheres, no dia de descanso, é quando a maioria trabalha mais e volta na segunda-feira mais cansada do que na sexta.”

O peso maior do trabalho sobre as mulheres, que acumulam jornadas trabalho dentro e fora de casa, foi retratado nos cartazes e nos motes das centrais sindicais. A vendedora Ana Carla Dias de Oliveira, 49, que compareceu ao ato da Força Sindical na capital paulista, relata que trabalha domingo sim, domingo não. “A gente que é mãe e dona de casa não tem tempo para nada.”

Um grupo formado por bolsonaristas, religiosos e conservadores ocupou uma faixa da avenida Paulista, na frente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) como forma de evitar que a via, disputado endereço de manifestações políticas de São Paulo, fosse usada por sindicatos e manifestantes de esquerda. O ato público teve trio elétrico e carro de som de apoio, mas ambos ficaram vazios. A Folha contou cerca de cem pessoas no local no começo da tarde, quando o ato teve sua lotação máxima.

Na manifestação esvaziada da direita, seu organizador, o empresário Mario Malta evitou adotar posição clara sobre a redução da escala 6×1. “Não somos nós que vamos determinar o que acontecerá”, afirmou Jones. Durante o ato político, os organizadores não trataram da redução da jornada de trabalho. O foco dos manifestantes de direita foi liberdade para Bolsonaro.

Conflitos pontuais entre participantes e forças de segurança aconteceram na Paulista e no ABC.

Na capital, uma mulher não identificada teria insultado os manifestantes de direita e foi afastada pela Polícia Militar. Ela disse à reportagem que registraria boletim de ocorrência por agressão.

Na festa do ABC, a reportagem presenciou a GCM de São Bernardo agredindo um participante no carro da guarda. A Guarda informou para a reportagem, no local, que ele teria tentado entrar na área VIP, agredido um agente e tentado pegar sua arma. Procurada a assessoria da guarda não respondeu.

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