O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chega em posição de força ao segundo turno, em 25 de outubro, impulsionado por uma onda conservadora contra a qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de lutar para tentar uma virada.
O senador, de 45 anos, obteve 47,03% dos votos no primeiro turno, no domingo, contra 45,16% de Lula, a quem as pesquisas davam uma pequena vantagem até a véspera da votação.
Ele somou 56 milhões de votos, mais do que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, no primeiro turno de 2018, que venceu (49 milhões), e de 2022, que perdeu para Lula (51 milhões).
O avanço da direita, cujo líder cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, também se reflete no Congresso.
O Partido Liberal dos Bolsonaro quase dobrou suas cadeiras no Senado e avançou com força na Câmara dos Deputados, com figuras como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e outros dois filhos de Jair Bolsonaro.
Flávio venceu ainda nos maiores colégios eleitorais do país, isto é, os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Pouco conhecido em nível nacional há alguns meses, o senador se define como “mais moderado” do que o pai, condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado contra Lula. No entanto, faz questão de lembrar que o político de extrema direita é sua “bússola”.
– “Mudança” –
“Está decretado o fim da era do PT, a mudança no nosso país”, afirmou um triunfante Flávio Bolsonaro no domingo, em Brasília. Essa formação tem governado o Brasil desde 2003, exceto durante o mandato de seu pai (2019-2022).
Durante a campanha, Flávio prometeu combater o alto preço da carne e de outros produtos, além de adotar linha dura contra a insegurança desenfreada. Além disso, antecipou um ajuste fiscal para conter o aumento da dívida pública registrado durante o terceiro mandato de Lula.
A Bolsa de São Paulo operava em forte alta nesta segunda-feira, um claro sinal de apoio dos mercados.
Lula concentrou sua campanha na defesa da soberania diante da pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e em recordar o legado de seus três governos, com uma longa lista de programas sociais.
Durante seu terceiro mandato, a inflação se manteve sob controle e o desemprego caiu, mas os brasileiros reclamam do custo de vida e estão cansados da criminalidade.
“Os brasileiros estão preocupados com coisas concretas como preços do supermercado, medo de serem assaltados e dívidas no cartão de crédito, e não em conceitos abstratos como soberania ou a importância de Lula na história”, disse à AFP o analista político Thomas Traumann.
– Votos brancos e abstenção –
Lula, de 80 anos e em busca de um quarto mandato, admitiu que o resultado foi “inesperado”.”Estamos na prorrogação. Na prorrogação nós vamos convencer o povo brasileiro”, disse em São Paulo.
“Lula ainda tem chances”, disse à AFP a doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ e pesquisadora no INCT/SANI/CNPq, Carolina Botelho, apesar de os candidatos menores, que somaram quase 8%, serem todos de direita.
Segundo a analista da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, o esquerdista vai buscar quem votou em branco ou nulo e quem não compareceu às urnas. A abstenção girou em torno de 21%.
Relembrou, no entanto, que desde o retorno da democracia quem sai em vantagem no primeiro turno de uma eleição presidencial no Brasil vence o segundo.
– Apoios externos –
A vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula se inscreve em um fenômeno global de crescimento da direita, que vem vencendo diversas eleições na América Latina sob a influência de Trump.
O presidente argentino, Javier Milei, parabenizou no X o senador por sua vantagem sobre o “comunista” Lula.
“Hoje meu coração está com o Brasil; que Deus tenha piedade do país irmão, como teve da Colômbia. A verdadeira mudança é derrotar a esquerda”, escreveu o colombiano Abelardo de la Espriella.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, desejou a Flávio uma “grande vitória” no segundo turno.
Trump, que impôs tarifas e sanções ao Brasil após a condenação de Jair Bolsonaro, não apoiou explicitamente seu filho, mas afirmou acompanhar “muito de perto” as eleições.
Em uma mensagem na sua rede Truth Social, ele comparou a rápida apuração do voto eletrônico no Brasil com a contagem em distritos eleitorais dos Estados Unidos, muito lenta a seu ver. Não mencionou nem Flávio nem Lula.
Seu secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que “todos” esperavam que Flávio superasse Lula no primeiro turno. “Veremos como a situação se desenvolve”, acrescentou, cauteloso.
AFP