Um mês antes de o Banco de Brasília (BRB) começar a comprar carteiras do Banco Master, o Grupo Fictor tentou adquirir um pedaço do banco do Distrito Federal por R$ 324,5 milhões, segundo documento ao qual o Estadão teve acesso. A operação, negociada em junho de 2024, fortaleceria o capital do BRB para que ele pudesse acelerar a compra de carteiras do Master.
O negócio, contudo, não foi concretizado porque a Fictor não conseguiu repatriar recursos que estavam em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A Fictor é a mesma empresa que fez uma proposta para comprar o Master junto a investidores árabes horas antes de o banqueiro Daniel Vorcaro ser preso pela Polícia Federal, no dia 17 de novembro do ano passado. Ele foi detido enquanto tentava embarcar justamente para Dubai, o que foi considerado pela PF como uma tentativa de fuga — o que ele nega.
Procurado, o BRB reforçou que encontrou “achados relevantes” na auditoria independente contratada pelo banco com o escritório Machado Meyer Advogados e suporte técnico da Kroll e enviou as informações à Polícia Federal e ao Banco Central.
“Prezando pela transparência e dever de colaboração com as autoridades competentes, a fim de confirmar eventuais atos ilícitos, o Banco BRB informa que entregou o relatório à Polícia Federal (PF), na última quinta-feira, 29/01/2026. O mesmo relatório também foi entregue na data de ontem, 02/02/2026, ao Banco Central”, disse a instituição.
A Fictor e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa não se manifestaram.
A informação é mais uma peça no quebra-cabeça envolvendo o Banco Master e mostra que a Fictor tentou participar de um aumento de capital do BRB como investidora âncora. A operação aumentaria o tamanho do banco estatal e daria fôlego para a compra de carteiras do Master.
Após a frustração da negociação com a Fictor, quem entrou para comprar as ações, por meio de fundos, foram Daniel Vorcaro, o ex-sócio do Master Maurício Quadrado e o fundador da Reag, João Carlos Mansur. A entrada desses três acionistas foi revelada pelo jornal Valor Econômico e confirmada pelo Estadão.
Com o aumento de capital, o BRB poderia se alavancar em uma relação que chegaria a até dez vezes, ou seja: para cada real novo que entrasse no banco público, ele poderia comprar até R$ 10 de carteiras de crédito do Master. Essas carteiras, compradas de julho a dezembro de 2024, são a primeira operação envolvendo o BRB e o Master.
A partir de janeiro de 2025, o Master iniciou outro negócio, com a venda de carteiras de terceiros, da empresa Tirreno, que foram consideradas fraudulentas pelo Banco Central e a Polícia Federal.
As informações, conforme o Estadão apurou, estão nas mãos da Polícia Federal. A PF abriu inquérito para investigar o Grupo Fictor, que fez uma oferta para comprar o Master em novembro do ano passado, e entrou, no último domingo, 1º, com pedido de recuperação judicial para duas de suas subsidiárias: a Fictor Holding e a Fictor Invest.
Uma auditoria externa contratada pelo BRB encontrou indícios de irregularidades da gestão anterior e enviou um relatório para a polícia, que apura se houve gestão temerária no banco do Distrito Federal durante as negociações com o Master.
Aumento de capital
Antes de fazer a oferta de aumento de capital no BRB, a Fictor já havia se tornado uma pequena acionista do banco estatal, tendo sido detentora de 2.916 ações (ordinárias e preferenciais) de maio de 2024 a março de 2025.
Essa pequena participação no BRB tinha como intuito permitir que o grupo subscrevesse ações, ou seja, pudesse comprar novos papéis sem que o banco precisasse fazer uma oferta pública, aberta a todos os investidores. A Fictor deixou o quadro acionário do BRB em abril de 2025.
As trocas de e-mails para discutir o negócio começaram no dia 27 de março de 2024. Em 26 de junho, a Fictor assinou um boletim de subscrição de ações do BRB no valor de R$ 324,5 milhões. Esse documento é assinado quando uma pessoa ou empresa se compromete a comprar novas ações que o banco vai emitir para levantar dinheiro. O BRB preparou um comunicado ao mercado informando a negociação, mas o fato relevante — como a comunicação é chamada — nunca foi publicado.
Valores ainda maiores foram discutidos, segundo os relatos em posse da PF. O presidente do BRB à época, Paulo Henrique Costa, teria afirmado a interlocutores a previsão de aportes da Fictor entre R$ 500 e R$ 750 milhões.
Ele teria manifestado a convicção de que o “pessoal do agro” — uma referência à empresa — realizaria um aporte relevante no banco brasiliense. A Fictor, no entanto, não teria concretizado a compra de ações porque não houve tempo hábil para fazer uma repatriação de recursos que estavam em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Investigadores da PF suspeitam que Master e Fictor façam parte de uma mesma organização criminosa, assim como a Tirreno e o grupo Reag. A Polícia Federal investiga todas as empresas.
A Fictor é um grupo de participações e gestão de empresas com foco na indústria alimentícia, em serviços financeiros e em infraestrutura. Ela foi fundada em 2007 como uma empresa de soluções tecnológicas.
Daniel Vorcaro afirmou à PF que tentou viabilizar a venda do Master à Fictor com a ajuda de investidores árabes. A operação, contudo, foi barrada pelo Banco Central, que determinou a liquidação do Master devido a suspeitas de fraudes na venda de R$ 12,2 bilhões em títulos falsos ao BRB.
Estadão Conteúdo