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Política & Poder

Fé une mulheres, e 46% das evangélicas preferem Flávio Bolsonaro enquanto 26% votam em Lula

Eleitoras de diferentes perfis relatam como fé, aborto, família e questões sociais entram na decisão de voto

Redação Jornal de Brasília

25/09/2026 13h01

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Foto: Reprodução/Pixabay

PAULO SALDAÑA E GABRIELA BILÓ
FOLHAPRESS

Foi nas conversas na escola pública onde estuda, em Itumbiara (GO), e em casa com a família que Kawanny Almeida do Nascimento, 17, decidiu tirar o título de eleitor, mesmo sem ser obrigada a votar.

“Fui entendendo a importância do voto, que molda muitas partes da sociedade e poderia influenciar também no meu futuro”, diz.

Interessada em política, ainda não decidiu quem receberá seu primeiro voto. A religião da família pesa em sua reflexão. “O que é importante na política é escolher alguém que esteja de acordo com os meus princípios”, diz a jovem, que cresceu em uma família evangélica.

Kawanny se junta neste ano à maioria feminina do eleitorado e dos eleitores indecisos. A Folha de S.Paulo percorreu algumas cidades do país para a série Voto das Mulheres, que acompanha o papel das mulheres na disputa presidencial de 2026.

Com exceção da adolescente, a reportagem ouviu apenas mulheres chefes de família de diferentes perfis e inclinações políticas. O objetivo foi entender o que pesa no voto de cada uma e conhecer o país que sonham para si.

Os retratos das 15 entrevistadas foram concebidos a partir desse sonho, em fotos de múltipla exposição combinadas com IA (inteligência artificial).

Kawanny se vê dividida. Sonha em ser bem-sucedida financeiramente, numa casa grande e bonita, mas também se imagina como mentora, sob holofotes, influenciando e ajudando pessoas. “Um lado da minha mente é foco total na carreira, o outro é focado na minha família, com tempo para eles.”

A religiosidade é um dos pontos de atenção das campanhas. Traço marcante da população brasileira e ainda mais entre as mulheres, elas são maioria em todas as vertentes religiosas, exceto entre os que dizem não ter religião. São 55% dos evangélicos.

De origens e lados opostos do espectro ideológico, a mineira Carliane Avellar Gandra, 42, de direita, e a pernambucana Rayane Barros, 23, de esquerda, têm na fé uma referência para a vida e as escolhas políticas.

Rayane já foi conservadora e queria ser policial. O candomblé mudou sua vida, diz. Segundo ela, uma mensagem de seu orixá a levou ao trabalho social e, depois, a uma nova convicção política.

Há quatro anos, cursava Direito. “Quando chegou no quarto período, conheci a religião que eu professo, e meu orixá, justamente o senhor da justiça, disse que o que eu tinha que fazer era a justiça do povo e não a da farda”, diz. Hoje, cursa Ciências Sociais e Serviço Social.

Criada por mãe solo, que deixou os estudos aos 16 anos para sustentá-la com trabalhos domésticos, Rayane trabalha numa organização social. Para ela, votar em Lula (PT) é defender a própria existência como mulher negra, de religião de matriz africana e LGBTQIA+.

Moradora de Belo Horizonte, Carliane diz que seu voto é uma questão de “valores e princípios”, formados numa família cristã e conservadora. Casada, frequenta a igreja evangélica da Lagoinha e administra uma empresa de temperos fundada por seu pai há 40 anos.

Ela diz que vai votar em Romeu Zema (Novo), pela “liberdade econômica e conservadorismo”. Num eventual segundo turno sem o ex-governador de Minas, como indicam as pesquisas, estará com Flávio Bolsonaro (PL) -contra qualquer um que não seja Lula, afirma.

As eleitoras mulheres são menos influenciadas que os homens por amigos, filhos, cônjuges e lideranças religiosas, como mostrou pesquisa Datafolha de julho.

Flávio tem maior rejeição entre elas, mas, entre as evangélicas, aparece com 46% das intenções de voto, ante 26% de Lula, segundo o Datafolha.

Carliane defende Estado menor e menos impostos. Mas o tema que mais a mobiliza é outro. “Sou uma pessoa 100% contra o aborto, isso é o mais importante para mim.”

Lula nunca levou adiante a descriminalização do aborto, pauta importante do feminismo. Para Carliane, porém, essa é uma agenda do PT e da esquerda.

Pesquisa do Iser (Instituto de Estudos da Religião), feita anualmente desde 2021, mostra que valores reconhecidos como cristãos estão entre os principais elementos que orientam as decisões políticas de mulheres evangélicas. Candidatos contrários ao aborto, às drogas e à homossexualidade são vistos como melhores opções por esse público.

Até 2024, a maioria das evangélicas se posicionava contra o feminismo. Em 2025, houve mudança: 63% disseram ser possível ser cristã e feminista.

Estudiosas ouvidas para a série reforçam que, mesmo entre as evangélicas, não é possível fechá-las em um padrão único.

A coordenadora do Iser, Lívia Reis, diz que a religião é um importante marcador social, mas deve ser analisada junto de renda, raça e escolaridade. Há, no entanto, um “alinhamento moral” entre evangélicas e o discurso de direita do bolsonarismo.

Pesquisas internacionais mostram que mulheres tendem a ser mais progressistas, entre outros motivos por reconhecerem mais a importância do Estado no cotidiano. Reis, porém, diz que escutas qualitativas indicam uma modulação recente à direita entre evangélicas.

“Tem essa ideia de proteção da família, da infância, que privatiza de volta para a família o cuidado, em contrapartida ao discurso governamental de esquerda”, diz. “São 15 anos de ataques à suposta ideologia de gênero, ‘mamadeira de piroca’ e, com o tempo, isso vai se naturalizando.”

Reis explica que não vê entre essas mulheres um entendimento do aborto como um problema de saúde pública. O que aparece nas escutas com elas é um discurso alinhado a lideranças religiosas e políticas.
A direita tem tido sucesso na aproximação com o conservadorismo presente nas igrejas neopentecostais, inclusive por meio da atuação de mulheres evangélicas na política, como Michelle Bolsonaro e Damares Alves.

“São discursos incorporados na gramática do embate entre bem e mal. E a lógica de guerra neopentecostal tem inimigos que têm nomes. São feministas, abortistas, esquerdistas, esses estereótipos”, aponta Reis.

A historiadora Heloisa Starling identifica três momentos de mobilização política de mulheres conservadoras: as “blusas verdes” do integralismo, nos anos 1930; a mobilização civil-religiosa do golpe de 1964; e a articulação contemporânea de células de oração do projeto Alicerça Brasil, liderado por Michelle Bolsonaro.

“Não é uma iniciativa de partido”, diz Heloísa sobre o Alicerça. “Aproveita-se essa estrutura da igreja evangélica, de grupos de oração em casa, e criam-se células políticas dentro da casa das pessoas.”

Para Rayane, a preferência de evangélicos por Flávio tem ligação com o discurso religioso da submissão feminina. Seu sonho é um mundo sem violência nem racismo. “Onde a colonização nunca tivesse acontecido”, diz. Para o retrato, usa o cocar da Jurema Sagrada, que também cultua.

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