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Política & Poder

Especialistas da UnB apontam maiores desafios de Dilma Roussef

Arquivo Geral

03/11/2010 20h39

Dilma Vana Rousseff (PT) recebeu 56% dos votos válidos e será a nova presidente do Brasil. Economista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS), será a primeira mulher no cargo. Sua principal missão, segundo os especialistas ouvidos pela UnB Agência, será equilibrar-se entre a manutenção da estabilidade econômica, a redução dos níveis de desigualdade social e, principalmente, liderar a imensa base política criada pelo presidente Lula.

“Não sei se Dilma poderá manter a mesma estabilidade política e econômica do presidente Lula. O que ele conseguiu não foi tarefa fácil e exige muita circulação política”, afirma o professor Nielsen de Paula Pires, do Instituto de Ciência Política (Ipol).

A reforma política foi citada pela professora Mariza Von Bulow como um dos temas a serem enfrentados pela nova governante. “Essa é uma pendência que com certeza vai ser estar na pauta do pós-Lula”, diz. Nielsen avisa que as alianças políticas atuais vão mudar em 2011. “O PMDB vai cobrar seu espaço. Ela terá que negociar e isso poderá ser complicado”. Além disso, destaca que, embora as coligações sejam necessárias, o poder de decisão continuará com Dilma. “A única caneta que importa é a dela”, diz Nielsen.

O professor aposentado Octaciano Nogueira, do Ipol, afirma que Dilma pode ser prejudicada por sua falta de experiência político-partidária. “Isso sempre pesa contra. Ela não foi testada nas urnas para nenhum cargo anterior e vai ter que aprender a dirigir o Brasil”, diz. Para ele, a experiência na Casa Civil e no Ministério de Minas e Energia são insuficientes. “Ser chefe da Casa Civil do Lula é fácil. Ele se mete em tudo. Ele é um sujeito autossuficiente”.

EDUCAÇÃO – Para a área da Educação, o professor Remi Castioni, da FE, defenfe que deveria haver dois ministérios ligados à educação: um para ensino básico e outro para superior, ciência e tecnologia. “É preciso fazer uma agenda federativa de educação básica. Esse é um tema que deveria ser tratado como uma grande concertação. Não dá para ser uma fábrica de decretos e leis”, critica. “O Ministério da Educação deveria gastar mais tempo com os estados e municípios. Dilma vai cobrar resultados”.

O professor Ricardo Caldas acredita que a nova presidente deve rever avalições como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), o Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) e o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). “A maior questão será descobrir como avaliar e manter a qualidade, principalmente, no ensino básico e médio”, afirma. Para Ricardo, a última avaliação feita pela Capes junto à pós-graduação indica queda na qualidade da produção científica. “Houve uma expansão no governo Lula e é preciso manter a qualidade. A expansão é necessária à medida que houve crescimento do ensino médio”.

Remi Castioni coloca a autonomia universitária como a questão mais importante para a Educação Superior. “Esse é grande desafio das universidades e os debates que existem são muitos rasteiros e pautados pelos órgãos de controle. Discute-se como se as universidades não fossem capazes de gerir a si próprias”, afirma. Ele acredita que o tema deve entrar na pauta nos próximos meses, uma vez que o recente pacote de autonomia lançado nos últimos meses pelo governo é tímido. “Ele não define as questões principais: definição de orçamento e autonomia de gestão”.

ECONOMIA E DESIGUALDADE – Mariza Von Bulow considera que este 3º governo do PT tem duas missões principais: manter a estabilidade na economia e reduzir a desigualdade social. “Essa é uma herança do Lula que precisa ser mantida. Não somos o mesmo país e hoje esses fatores são interdependentes no Brasil”, afirma.

Ela acredita que há uma perspectiva positiva para que os avanços aconteçam. “É preciso que o curso seja mantido, mas temos que aprofundar as melhorias nessas áreas”.

Octaciano Nogueira acredita que a estabilidade da moeda brasileira está assegurada. “Não haverá chances para aventuras políticas nessa área”, assegura. “Já chegamos a ter 2.500% de inflação ao ano. Foram 25 anos de inflação incontrolável e hoje ela chega a um dígito por ano”, completa.

O SUPER-HERÓI DO ABC – Para Nielsen, Dilma não vai herdar a popularidade de Lula. Na reta final das eleições, o presidente alcançou o recorde de 82% de aprovação, maior taxa desde que assumiu o Planalto, segundo o Instituto de Pesquisa Datafolha. Segundo o professor, a história do governante que começou como torneiro mecânico e em 1969 tornou-se presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista foi decisiva nos bastidores da política. “Lula foi habilidoso. Ele soube pressionar de um lado e ceder de outro. Ele aprendeu como fazer política nos tempos de sindicalista e teve vantagens em negociações por isso”, disse Nielsen.

Já Octaciano não acredita que Dilma viverá à sombra de seu antecessor. “Ele é o criador. Ela é a criatura. A criatura sempre se volta contra o criador”, afirma.

Nielsen acredita que Dilma poderá sofrer ataques se sua imagem continuar vinculada à de Lula. “Vai ter uma comparação por parte da imprensa com o casal Kirchner. Vão dizer que ele continua presidente e diminuir a posição dela”.

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