Com jeito de estudante, voz de menina e ideias revolucionárias de militante de movimento estudantil, a jornalista Perciliane Marrara, de 32 anos, é candidata ao Governo do Distrito Federal. Por causa, principalmente, das seguidas viagens para São Paulo, onde grava o programa eleitoral para a TV e rádio, Perci pouco tem sido vista nas ruas do DF, apesar de garantir que tem agenda intensa e diária de campanha.
Brasiliense de Planaltina, ela trabalha para o partido, o PCO, e se dedica quase exclusivamente à causa operária. Perci se candidatou em 2006 e 2010 ao cargo de deputada federal, mas foi impedida pela Justiça, que indeferiu seus registros de candidatura. Agora, espera o julgamento de um recurso contra mais um indeferimento no Tribunal Regional Eleitoral do DF (TRE-DF). Com cabelos encaracolados, vestida de jeito simples, praticamente sem maquiagem e bem calma, ela interrompeu uma reunião da campanha para conversar com a reportagem do Jornal de Brasília, sentada em uma lanchonete simples de uma calçada do Setor Comercial Sul, na área central da cidade.
Indagada se tem condições de administrar uma unidade da Federação, apesar da pouca experiência e idade, ela reconhece que pode ser governadora do DF, “com ajuda dos trabalhadores, mas o difícil é mesmo ganhar a eleição. Entre os projetos do partido, que também são de Perci, estão um audacioso salário-mínimo de R$ 3.500 e a dissolução da Polícia Militar.
Você quase não tem sido vista nas ruas, mesmo com a campanha a pleno vapor. Por quê?
A vida partidária continua. Não é por que estamos em eleição que o partido para completamente. A gente tem demandas que precisamos cumprir.
Como tem sido o dia a dia da campanha?
Está corrido. Não temos muito espaço e estamos fazendo a campanha basicamente com reuniões em casas de apoiadores e também visitando setores onde a gente já tem atuação, como movimento estudantil, de trabalhadores, e conversando com as pessoas.
A sua candidatura foi indeferida pelo TRE-DF por falta de prestação de contas da campanha anterior quando você concorreu ao cargo de deputada federal. Você recorreu?
Recorremos. Tem um processo andando em paralelo, justamente em relação à prestação de contas, mas a gente ainda não tem informação do andamento, pelo menos até agora. Mas o recurso está valendo e estamos em campanha até o último momento.
Quais são suas propostas para o Distrito Federal?
O partido tem um programa de luta pelos interesses da classe trabalhadora. Mais do que fazer promessas de campanha ou alimentar a ilusão da população de que o processo eleitoral é suficiente para resolver os problemas, a gente procura discutir com os trabalhadores um programa de luta. Apresentar propostas e mostrar que só serão atendidas com a mobilização dos trabalhadores é o nosso objetivo no processo eleitoral.
Qual a sua principal bandeira de campanha?
A gente tem como lema três palavras, que se desenvolvem em várias propostas: salário, trabalho e terra. Este, ano a gente incluiu igualdade, independência e liberdade. Diz respeito a direitos gerais da população, como redução da jornada de trabalho de 44 para 35 horas semanais, dissolução da PM, o passe livre, universidade pública, estatização do transporte, da saúde e da educação. A gente também está com a bandeira da assembleia constituinte, além de direitos específicos, de mulheres, negros.
Como governadora do DF, você acha que conseguiria, por exemplo, reduzir a jornada de trabalho para 35 horas?
É possível você mobilizar e criar mudanças específicas. O objetivo final é uma transformação geral, nacional. Mas aqui em Brasília é possível implementar, começando pelo próprio serviço público. Isso geraria mais empregos. O objetivo da redução da jornada não é criar novos postos de trabalhar, mas através dos postos que já existem, conseguir empregar mais gente.
E como pretende dissolver a Polícia Militar?
Não basta desmilitarizar a polícia, como propõem alguns setores. É preciso acabar com o aparato repressivo do Estado. A segurança seria feita pela própria comunidade organizada em conselhos populares. Ela teria o controle, inclusive para destituir algum membro da segurança que não esteja desempenhando seu papel.
A imprensa tem tido dificuldade para falar com você e isso já impediu até sua participação em debate, entrevista.
No debate da Associação Comercial do DF, que eu nunca tinha ouvido falar, eles disseram que não conseguiram falar comigo. Mas eu tenho um perfil público no Facebook e acesso cotidianamente. Lá, tem meu e-mail e telefone. Se eu não atendi uma ligação em algum momento, é por que estou em campanha. A gente tem muitas reuniões no partido, tem o trabalho regular da redação do jornal do partido, onde eu trabalho e tenho mantido minha rotina. Mas eu estou aí para quem quiser falar comigo.
Como você avalia seu desempenho nas pesquisas, que foi menos de 1% nas últimas pesquisas Ibope e Datafolha?
As pesquisas nem sempre representam de fato o eleitorado. Temos um partido pequeno e somos muito boicotados. Agora, a imprensa tem falado que somos muito radicais, mas pelo menos tem falado. Eu acho que, à medida em que isso acontece, junto com a propaganda eleitoral, as pessoas vão te conhecendo um pouco mais.
E você é muito radical?
Dizem que o partido é radical. E se radical for defender os seus princípios, a gente é radical. Nós somos um partido que defende a revolução socialista.
Em um provável segundo turno, quem você apoiaria?
O partido não tem por princípio negar a possibilidade de apoiar algum candidato, mas, até agora, não existe essa possibilidade. A tendência é que a gente, no segundo turno, é chamar para o voto nulo. Mas as coisas podem mudar.
Você já participou de dois debates – um na Universidade de Brasília e outro no Colégio Martista. Como foi enfrentar os candidatos?
Eu achei muito bom, porque é um ambiente com o qual eu estou mais acostumada, que junto a estudantes. A gente tem uma atuação no movimento estudantil e sindical, então é mais fácil lidar.
Você já tentou duas outras vezes, se candidatar a deputada distrital, depois a federal. Por que você resolveu se candidatar ao Governo do DF agora?
No partido, tudo é discutido coletivamente. Não é um projeto pessoal, meu, ser governadora do Distrito Federal. É um projeto partidário, no sentido de fazer publicidade do programa do partido. Então, diante do cenário atual, a gente decidiu que o melhor seria lançar a minha candidatura.
Com que dinheiro vocês têm feito a campanha?
A campanha é feita a partir de contribuições de simpatizantes e apoiadores. Pessoas físicas. Não recebemos dinheiro de empresas. A gente tem muito candidato operário, que não tem possibilidades. Então, temos um caixa nacional e fazemos um trabalho coletivo. Eu não arrecado dinheiro só para minha campanha. Até por que seria muito desigual, como nos outros partidos, onde quem tem mais grana, faz a sua campanha enorme, e quem tem pouco fica pequenininho. A gente faz uma campanha única para todo mundo.
Vocês têm material impresso para divulgar as candidaturas do PCO?
Ainda estamos em produção do material. Não fizemos ainda, justamente por causa do problema financeiro. Tivemos gastos com a propaganda eleitoral para a TV, então estamos nos organizando para conseguir fazer o material impresso. Hoje, trabalhamos com o material nacional, que é um suplemento semanal do jornal do partido, que discute política em geral. Além das reuniões com os eleitores.
E qual o planejamento para essa reta final da campanha?
É inevitável intensificar o trabalhar nas duas, três últimas semanas antes das eleições. Mas não temos agenda definida. As atividades vão surgindo, de acordo com os resultados da campanha. Praticamente, temos atividades todos os dias, a não ser quando temos atividades internas do partido que nos tomam um tempo maior.
Que propostas o Partido da Causa Operária tem para os servidores públicos?
No geral, precisaria discutir o problema do piso salarial, por que a gente defende um salário-mínimo de R$ 3.500. Precisaria rever todos os salários do serviço público.
E você acha que é factível um salário de R$ 3.500?
Acho.
E você acha também que, como governadora, teria condições de aumentar o salário-mínimo?
Não nacionalmente, mas poderia aplicar mudanças aqui, no próprio serviço público e também estabelecer regimento específico para o empresariado que atua na cidade. O governo tem muito mais controle e muito mais dinheiro do que a gente imagina. O problema é que esse dinheiro não é investido onde devia ser e acaba sendo desviado para empreiteiras, construtoras ou mesmo para o bolso e até para a cueca de muita gente.
Você acha que tem condições de governar o Distrito Federal?
De governar, sim. De me eleger, na atual etapa política, não. Mesmo por que não é um projeto particular. A gente defende um governo dos trabalhadores. O poder não seria meu. Então, não tem por que eu ter receio de não conseguir fazer determinada coisa. O que vai ser feito será de acordo com as necessidades da população, por que ela que vai decidir. Nossa eleição só vai acontecer quando a situação política evoluir, a ponto de os trabalhadores sentirem que eles podem ter um governo próprio, que eles vão ter condições de se governarem.
Mesmo reconhecendo que não tem condições de se eleger, você se manterá na campanha até o fim?
Claro. Nesse momento, todo mundo discute política no País. Nós somos um partido pequeno. Seria muito tolo abrir mão do espaço que são as eleições, se nosso objetivo é justamente fazer propaganda de um programa. Então, com as eleições, a gente procura chegar ao maior número de pessoas, usar todos os espaços que existem para divulgar o programa e defender o governo dos trabalhadores.
Você tem alguma pretensão política daqui a quatro anos?
O objetivo não é particular. Eu não vou falar que, na próxima eleição, eu vou me candidatar a distrital, porque já fiz meu eleitorado. Não é assim. A proposta do partido é um trabalho cotidiano, no movimento popular, estudantil e sindical. As eleições são um momento a mais da nossa intervenção política, ao contrário dos políticos que só aparecem no período eleitoral.
A maioria dos seus apoiadores são jovens e idealistas, assim como você?
Tem sido muito bonito entre a juventude. E entre a população em geral, as pessoas ficam admiradas, mas com uma admiração positiva. E embora exista um clima de desconfiança, o que eu tenho sentido (nas ruas) é algo bem positivo.
Você acha que o objetivo do partido, que é fazer propaganda do programa, tem sido atingido com sua candidatura?
Sim, mas a gente tem que correr de muitas coisas objetivas. O partido tem pouca grana, por exemplo. Mas, dentro das nossas possibilidades, tem sido bastante positivo.