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Política & Poder

Entenda em 5 pontos a prisão de Daniel Vorcaro e a nova fase da operação Compliance Zero

O Banco Master foi liquidado pelo BC em 18 de novembro de 2025, um dia depois de o dono da instituição, Daniel Vorcaro, ter sido preso pela primeira vez

Redação Jornal de Brasília

05/03/2026 8h53

daniel vorcaro pf depoimento

Foto: Reprodução / PF

PELOTAS, RS (FOLHAPRESS)

O escândalo do Banco Master ganhou uma série de novos capítulos nesta quarta-feira (4). A nova fase da operação Compliance Zero, da PF (Polícia Federal), atingiu indivíduos suspeitos de integrar um grupo de vigilância e intimidação que seria responsável por intimidar pessoas ligadas às apurações sobre o banco e consideradas adversárias do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Vorcaro foi preso preventivamente por determinação do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), porque a PF encontrou no celular do empresário mensagens que demonstravam intenção de intimidar o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, por meio de um falso assalto.

A operação também mirou outros envolvidos, como o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, ex-diretores do BC (Banco Central) e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, que era apontado como o coordenador da “Turma” —nome informal adotado pelo núcleo de vigilância. Após ser preso, Mourão cometeu suicídio.

ENTENDA EM 5 PONTOS A PRISÃO DE VORCARO E A NOVA FASE DA OPERAÇÃO COMPLIANCE ZERO

A NOVA PRISÃO DE VORCARO

O Banco Master foi liquidado pelo BC em 18 de novembro de 2025, um dia depois de o dono da instituição, Daniel Vorcaro, ter sido preso pela primeira vez. O banco está no centro de uma série de investigações por suspeitas de fraude bilionária, lavagem de dinheiro e organização criminosa conduzidas pela PF na operação Compliance Zero.

Vorcaro foi posto em liberdade com o uso de tornozeleira eletrônica no fim de novembro. Nesta quarta (4), a prisão preventiva do empresário foi decretada pelo STF após investigações da nova fase da operação indicarem que ele mantinha uma milícia privada com o objetivo de coagir e ameaçar seus desafetos.

A defesa de Vorcaro afirma que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça. A defesa nega categoricamente as alegações atribuídas a ele e diz confiar que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta.

Também foram determinadas ordens de sequestro e de bloqueio de bens, de até R$ 22 bilhões, com o objetivo de interromper a movimentação de ativos e de preservar valores potencialmente relacionados às práticas ilícitas apuradas.

Após audiência de custódia na Justiça Federal de São Paulo, Vorcaro foi transferido para o Centro de Detenção Provisória 2 em Guarulhos, na Grande São Paulo. Ele permanecerá no local à disposição do STF.

Um julgamento virtual está agendado para o dia 13 deste mês.

INTIMIDAÇÃO DE DESAFETOS

A intimidação de pessoas ligadas às apurações sobre o banco e consideradas adversárias do ex-banqueiro está no centro da nova fase da operação da PF. Segundo as investigações, Vorcaro gastava R$ 1 milhão por mês para manter uma milícia privada que, entre outras ações, seria responsável pela organização de um falso assalto para intimidar o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo.

Em trocas de mensagens reproduzidas na decisão do ministro André Mendonça, Vorcaro diz: “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.

Em um outro diálogo, o banqueiro se queixa de uma empregada identificada como Monique, que o estaria ameaçando. “Tem que moer essa vagabunda”, escreveu Vorcaro. Em seguida, ele pede para um de seus ajudantes puxar o endereço e tudo relativo à funcionária.

Outra troca de mensagem discute formas de intimidar um ex-funcionário de Vorcaro que teria feito uma gravação indesejada do banqueiro. O banqueiro manda “levantar tudo” do seu ex-empregado e de um chef de cozinha ligada o ele. Depois disso, determina que seria “bom de dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar”.

SICÁRIO

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão era um dos principais nomes dos novos capítulos do escândalo.

Ele era chamado de “sicário”, termo que vem do espanhol e significa assassino de aluguel, e era apontado como o operador central de Vorcaro no grupo responsável pelas intimidações. Mourão também foi preso nesta quarta (4). Ele cometeu suicídio na Superintendência da Polícia Federal de Minas Gerais.

Foi com ele que Vorcaro trocou mensagens sobre uma tentativa de intimidar o jornalista Lauro Jardim, além de outras conversas envolvendo ameaça e agressões a desafetos. Mourão, segundo a PF, seria o responsável por executar essas condutas, tendo inclusive acesso a bases de dados restritas de órgãos públicos nacionais e internacionais.

Em nota, a defesa disse que os fatos imputados a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão não correspondem à realidade e serão devidamente esclarecidos tão logo a defesa tenha acesso integral aos autos da investigação.

Ele era um velho conhecido da polícia de Minas Gerais, onde é conhecido pelo apelido de “Mexerica”. Mourão tem passagem pelos crimes de furto qualificado, estelionato, associação criminosa, falsificação de documento público, organização criminosa e crimes contra a economia popular, segundo policiais ouvidos pela Folha de S.Paulo.

‘A TURMA’

O núcleo informal de vigilância e intimidação comandado por Vorcaro era conhecido como “A Turma”, segundo investigações da PF. Estão em curso investigações por suspeitas da prática de crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos praticados por organização criminosa.

Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, participou da administração e operacionalização de pagamentos e repasses que sustentavam a estrutura paralela de vigilância e coleta de informação, segundo a PF. O empresário é ex-pastor da igreja Lagoinha e também foi preso preventivamente nesta quarta (4).

Seus advogados, Maurício Campos e Juliano Brasileiro, disseram que Zettel se apresentou às autoridades. “Em que pese não ter tido acesso ao objeto das investigações, Fabiano está à inteira disposição das autoridades”, afirmaram, em nota.

Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado, é apontado como integrante relevante da estrutura de coerção. A PF afirma que ele teria usado sua experiência e seus contatos para acessar dados sensíveis, monitorar pessoas e antecipar riscos decorrentes de investigações oficiais.

As apurações indicam ainda que ele colaborava na logística das diligências informais, ajudando a identificar e localizar alvos e a levantar informações estratégicas, em coordenação com outros integrantes do núcleo, sob liderança operacional de Sicário. A defesa dele não foi localizada pela reportagem.

Ana Claudia Queiroz de Paiva, segundo a PF, atuou na operacionalização de movimentações financeiras relacionadas ao grupo, gerindo e executando transferências financeiras. Sua atuação incluía a movimentação de recursos e a execução de pagamentos a integrantes do núcleo.

As investigações indicam ainda que diversas empresas teriam sido utilizadas como instrumentos para formalizar contratos fictícios, estruturar repasses, intermediar recursos e ocultar a origem de valores, no contexto de suspeitas de crimes financeiros e lavagem de dinheiro. Procurada por e-mail e chamadas telefônicas, ela não respondeu nem atendeu às ligações da reportagem.

ENVOLVIMENTO DE SERVIDORES DO BC

A PF afirma que dois servidores do Banco Central também faziam parte do grupo de vigilância de Vorcaro. São eles Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana.

Souza foi diretor de Fiscalização do Banco Central entre 2019 e 2023 e também ocupou o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária. Santana ocupava o cargo de Chefe do DESUP (Departamento de Supervisão Bancária) no BC quando parte dos fatos ocorreu.

A PF diz que os servidores passaram a atuar em favor da instituição que deveriam supervisionar.

As investigações indicam que os servidores prestavam consultorias estratégicas ao banqueiro. Souza orientava sobre a atuação do BC em processos administrativos, sugerindo argumentos para reuniões e revisando previamente ofícios e relatórios que seriam enviados à autarquia. Também teria funcionado como interlocutor interno dos interesses do banco.

Já Santana prestava consultoria sobre processos administrativos e temas regulatórios, revisava minutas e documentos que seriam enviados ao próprio BC e participava de reuniões reservadas, inclusive fora da autarquia.

As apurações apontam ainda que ambos faziam parte de um grupo de mensagens com Vorcaro para discutir estratégias, compartilhar documentos e intermediar tratativas relacionadas a operações societárias e financeiras do conglomerado.

Em contrapartida, há indícios de que Souza recebia vantagens indevidas, supostamente viabilizadas por estruturas destinadas a ocultar os pagamentos. Mensagens também sugerem que o banqueiro teria custeado serviços para uma viagem do servidor a parques temáticos em Orlando, nos Estados Unidos, reforçando a suspeita de contrapartidas ilícitas. A defesa dele não foi localizada pela reportagem.

Santana, por sua vez, teria recebido pagamentos pelos serviços, por meio de contrato simulado com uma empresa de consultoria, utilizado para justificar repasses financeiros. Mensagens citadas na investigação apontam preocupação em ocultar a origem dos valores e em estruturar os pagamentos de forma indireta, com indícios de lavagem de dinheiro. A defesa dele não foi localizada pela reportagem.

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