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Política & Poder

Empresa ligada a Vorcaro doou imóvel de R$ 4 mi a mulher citada em operação que prendeu doleira da Lava Jato

Personagem emblemática da Lava Jato, Nelma foi a primeira presa no escândalo de corrupção, em 2014

Redação Jornal de Brasília

11/12/2025 9h10

daniel vorcaro

Foto: Reprodução

JOANA CUNHA, JÚLIA MOURA E IRAN ALVES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A Super Empreendimentos, empresa dona da casa usada por Daniel Vorcaro para receber políticos em Brasília, doou em 2020 um imóvel de quase R$ 4,4 milhões para uma mulher que teve o nome citado na operação policial contra tráfico internacional de drogas que prendeu a doleira Nelma Kodama em 2022.

A doação do apartamento foi revelada anteriormente pelo UOL.

O imóvel, um apartamento de 113 metros quadrados de área privativa na avenida Presidente Juscelino Kubitschek, em São Paulo, foi adquirido pela Viking Participações –empresa da qual Vorcaro é sócio– por aproximadamente R$ 4,4 milhões.

Em março de 2024, a Viking vendeu pelo mesmo valor o apartamento para a Super Empreendimentos, que por sua vez fez a doação do imóvel para Karolina Santos Trainotti em dezembro do mesmo ano.

Karolina aparece em seis citações na denúncia apresentada em maio de 2022 pelo Ministério Público Federal na chamada Operação Descobrimento, de combate ao tráfico internacional de cocaína, que resultou em nove mandados de prisão, incluindo a de Nelma Kodama.

Personagem emblemática da Lava Jato, Nelma foi a primeira presa no escândalo de corrupção, em 2014.

Ela estava livre desde 2019, quando recebeu indulto. Ela foi novamente presa três anos depois e solta outra vez em 2024.

Quando foi deflagrada a operação Descobrimento, que prendeu Nelma em 2022, Karolina não foi presa nem estava entre os denunciados, mas foi mencionada pela procuradoria em uma lista de pessoas que receberam dinheiro por meio de operações de câmbio requisitadas por Rowles Magalhães, apontado por tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro, organização criminosa e remessa irregular de divisas ao exterior.

O documento do MPF cita cinco operações nas quais Karolina recebeu R$ 52 mil e outros 2.450 euros.

Em 2023, ela se tornou ré em processo decorrente da Descobrimento. Segundo a acusação, entre 2020 e 2021, Karolina recebeu mais de R$ 270 mil em 24 transações bancárias oriundas da conta de doleiro envolvido na organização criminosa.

Procurado pela reportagem, o advogado de Karolina, Eugênio Pacelli de Oliveira, negou as acusações.

“A acusação sobre lavagem de dinheiro é de um absurdo típico de quem não se interessa pela verdade dos fatos. Para se ter uma ideia, nem ouvida ela foi na fase de inquérito. Ela nunca teve conhecimento sobre a origem de tais recursos. Jamais. Basta estudar o processo. Nada temos a dizer sobre a sua vida privada”, disse o advogado por email.

No processo, a defesa de Karolina afirmou que ela desconhecia a suposta origem ilícita dos recursos e que ela atuava como “sugar baby” de um dos outros réus, tendo os seus gastos pessoais custeados no período do relacionamento amoroso.

Em suas redes sociais, ela tem fotos de sua recente formatura em administração pelo Mackenzie, além de viagens internacionais e grandes eventos, como a Fórmula 1. Uma das fotos mostra que, no Carnaval deste ano, Trainotti esteve no camarote VIP do Café de La Musique, na Sapucaí, do qual Vorcaro foi um dos principais investidores.

A Super, empresa que doou o apartamento para Karolina, tem ligações com Vorcaro, embora não tenha o banqueiro entre seus sócios diretamente.

Conforme reportagem publicada pela Folha em maio, a Super adquiriu em 2024 uma casa de R$ 36 milhões, que ficou conhecida como hub de Vorcaro em Brasília.

Lá o banqueiro recebeu políticos, como o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, Antonio Rueda, presidente do União Brasil, e Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados, e nomes do governo Bolsonaro, como Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações, e Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União.

A Super pertence a um fundo que é administrado pela Reag Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, que foi um dos alvos da Carbono Oculto —operação realizada em agosto, que mira a relação entre setor de combustíveis, Primeiro Comando da Capital e empresas financeiras.

Procurada pela reportagem, a assessoria de Vorcaro afirma que sua relação com a Super é apenas a de inquilino da casa de Brasília e nega que ele tenha feito a doação.

Porém, há relações indiretas entre o banqueiro e seu cunhado passando pela Super.

Na época da aquisição da casa de Brasília, em junho de 2024, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, era um dos diretores da Super. Ele entrou no capital social da empresa em agosto de 2021 e saiu em julho de 2024.

Quando o apartamento doado a Karolina foi comprado da Viking pela Super, Zettel ainda era diretor da empresa.

Além disso, a Viking, de Vorcaro, está localizada em Belo Horizonte, no mesmo endereço comercial de duas empresas nas quais Zettel aparece como administrador, segundo dados da Receita Federal.

Com R$ 100 milhões de capital, a Viking é uma empresa de participações que ficou conhecida na ocasião da prisão de Vorcaro, por ser proprietária do jato em que o dono do Banco Master pretendia embarcar para viajar a Malta no dia em que foi preso em 17 de novembro. Ele foi solto 12 dias depois.

Procurado pela Folha de S.Paulo, Zettel não se manifestou. A Super não respondeu à tentativa de contato da reportagem.

Nelma disse que não conhece Karolina, não tem contato ou relacionamento com Rowles Magalhães nem com Daniel Vorcaro e que seu processo ainda está em andamento.

A defesa de Magalhães afirma que ele jamais foi condenado pelas imputações mencionadas, colabora com as autoridadade e confia no esclarecimento dos fatos.

“As referências feitas a ele no âmbito da operação policial ainda se situam no plano da instrução processual, sem que haja, até o presente momento, decisão judicial que lhe atribua responsabilidade penal”, disse em nota seu advogado Adib Abdouni.

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