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Política & Poder

Emendas consomem até 80% da verba dos ministérios e ampliam protagonismo do Congresso

Trata-se de uma fatia do Orçamento que não está engessada pelo pagamento da folha salarial, entre outras obrigações

Redação Jornal de Brasília

12/01/2026 6h21

Foto: Banco de Imagens

MATEUS VARGAS
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

As emendas indicadas por deputados e senadores consumiram até 78,9% da verba discricionária de ministérios do governo Lula (PT) em 2025.

Trata-se de uma fatia do Orçamento que não está engessada pelo pagamento da folha salarial, entre outras obrigações, e é aplicada no custeio de políticas públicas e nos investimentos em obras e compras de equipamentos.

O maior percentual foi registrado no Ministério do Turismo, pasta comandada por indicados do centrão desde o começo do terceiro mandato de Lula. Em seguida, o Ministério do Esporte, também chefiado por um nome do mesmo grupo político, teve 65,2% da verba discricionária empenhada no ano passado para atender às emendas parlamentares.

Outras três pastas tiveram cerca de 40% dos recursos livres drenados por emendas, incluindo o Ministério da Saúde.

O órgão comandado por Alexandre Padilha (PT) é o que executa o maior volume de emendas. Em 2025, de cerca de R$ 47,3 bilhões empenhados, mais de R$ 25,7 bilhões foram executados na Saúde. A verba geralmente é repassada para secretarias locais custearem hospitais e ambulatórios.

As emendas empenhadas em 2025 representam cerca de 21,9% do orçamento discricionário do poder Executivo, maior percentual já registrado. Em 2015, as indicações drenaram cerca de 2,5% dessa verba.

O recurso nas mãos dos parlamentares para 2026 pode subir, pois o Orçamento aprovado em dezembro pelo Congresso prevê mais de R$ 61 bilhões em emendas. O presidente Lula ainda terá de decidir se aprova ou veta o valor.

Procurado, o Ministério do Turismo não se manifestou sobre ser a pasta com maior percentual do orçamento controlado pelo Congresso. As indicações ao órgão incluem R$ 30 milhões para apoio ao Carnaval da Bahia, além de obras de revitalização de pontos turísticos e convênios para realização de eventos.

Já o Ministério do Esporte disse que as emendas parlamentares são uma das ferramentas que permitem “tornar reais as metas de transformar a prática esportiva em uma atividade cotidiana”. “São utilizadas respeitando rigorosamente os critérios estabelecidos em lei, atendendo a todos, indistintamente”, disse.

Em 2024, os ministérios sob maior domínio das emendas foram Esporte (74% da verba discricionária) e Turismo (69% definido por parlamentares).

Em julho, a Polícia Federal e a CGU (Controladoria-Geral da União) deflagraram uma operação para investigar o desvio de recursos públicos das indicações parlamentares destinados à realização de eventos de esportes digitais.

O ministério comandado por André Fufuca (PP-MA) afirmou que tem atuado em “absoluta sintonia” com órgãos de controle para dar efetividade e transparência à aplicação dos recursos. No caso do Esporte, a verba das emendas é direcionada para projetos sociais que promovem aulas de futebol, além de obras para construção de ginásios, entre outras atividades.

Neste ano, o pagamento de parte das emendas ainda será obrigatório antes do período eleitoral. As indicações, porém, estarão novamente no centro dos debates sobre transparência e uso dos recursos públicos.

Além da existência de inquéritos da Polícia Federal sobre as verbas, ainda há uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal) que questiona sua impositividade. O ministro Flávio Dino, que é relator da ação, disse no começo de dezembro ter concluído a instrução do caso e que pedirá espaço na pauta do Supremo para julgamento pelo plenário.

No mesmo evento, Dino afirmou que o tema “é um debate fundamental em um país presidencialista”, que “diz respeito à separação de Poderes, freios e contrapesos, vértice do sistema político”. “É um debate essencial e de índole constitucional. É um debate jurídico, não é um debate político”, afirmou.

Além de determinar mudanças em regras de transparência dos repasses, Dino tem autorizado operações policiais, como a realizada em dezembro e que teve como alvo Mariângela Fialek, a Tuca, assessora ligada ao ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL).

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem defendido as indicações parlamentares. “Nós não temos compromisso com quem não trabalha correto com emenda. Mas eu tenho também a plena certeza de que a larga maioria dos representantes que estão na Câmara dos Deputados, os senhores deputados e deputadas federais, trabalha corretamente”, afirmou Motta em dezembro.

Desde 2015, parlamentares promoveram profundas mudanças, inclusive na Constituição, para ampliar o controle e volume das emendas. Hoje, são impositivas as indicações individuais e das bancadas estaduais.

O avanço do Congresso sobre o Orçamento se escancarou a partir de 2020, quando houve um salto de R$ 18,3 bilhões para R$ 48,5 bilhões em emendas empenhadas, considerando valores atualizados pela inflação. A alta foi puxada pela chamada emenda do relator, que o STF declararia inconstitucional em 2022.

Emendas drenam até 80% da verba livre dos ministérios

Sob domínio do centrão, Turismo e Esportes têm maiores fatias definidas por deputados e senadores

ÓrgãoVerba discricionária, em R$Emendas, em R$%
Emenda Pix*6.998.213.389,146.998.213.389,14100%
Ministério do Turismo1.904.396.236,301.501.838.201,0078,9%
Ministério do Esporte2.535.021.909,371.652.080.214,8165,2%
Ministério da Saúde59.577.349.690,5125.799.729.831,4943,3%
Ministério da Agricultura e Pecuária4.240.525.515,051.818.036.339,8842,9%
Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional9.417.762.778,783.669.270.907,4939%
Ministério das Mulheres277.341.024,1273.177.299,3226,4%
Ministério da Cultura1.429.783.099,65308.398.431,8821,6%
Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania482.258.880,9693.864.377,5919,5%
Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte191.061.967,1835.623.179,0618,6%
Ministério da Justiça e Segurança Pública4.271.633.788,33676.665.193,4515,8%
Ministério da Pesca e Aquicultura208.806.291,4429.670.101,8714,2%
Ministério das Cidades12.707.778.677,281.349.293.856,7010,6%
Ministério da Igualdade Racial165.405.416,0115.943.360,799,6%
Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome10.090.474.697,72829.961.861,778,2%
Ministério do Trabalho e Emprego861.563.338,1766.833.671,707,8%
Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima1.959.890.190,12103.006.768,375,3%
Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar2.596.069.243,11125.299.471,164,8%
Ministério da Educação33.713.523.356,381.606.578.218,744,8%
Ministério das Comunicações1.019.879.983,0822.667.937,482,2%
Ministério dos Povos Indígenas582.187.031,3410.710.078,181,8%
Ministério da Defesa14.264.637.080,17215.765.844,171,5%
Ministério de Portos e Aeroportos1.352.249.903,9020.189.091,821,5%
Presidência da República2.515.162.943,7635.035.937,361,4%
Advocacia-Geral da União552.260.082,887.308.337,581,3%
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços839.377.217,158.076.896,641%
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação10.243.313.263,4997.854.919,911%
Ministério dos Transportes15.203.413.195,64134.275.138,260,9%
Ministério de Minas e Energia892.913.520,33858.692,460,1%
Ministério das Relações Exteriores2.534.426.903,941.635.847,160,1%
Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos1.273.229.592,98195.744,930%
Ministério da Previdência Social2.291.480.358,9690.000,000%
Outros órgãos8.794.339.305,450,000%
Total215.987.729.872,7047.308.149.142,1621,9%

* Modalidade de emenda individual em que o parlamentar envia a verba diretamente ao estado ou município

Durante a última campanha para presidente, Lula se referiu à distribuição de verba com baixa transparência como “o maior esquema de corrupção da atualidade”, “orçamento secreto” e “bolsolão”.

No começo de dezembro, o presidente voltou a criticar o volume de verba definida pelo Congresso. “Acho que o fato de o Congresso Nacional sequestrar 50% do Orçamento da União é um grave erro histórico. Mas você só vai acabar com isso quando mudar as pessoas que governam e que aprovam isso”, declarou.

O atual governo, porém, manteve nomes do centrão no comando de pastas que servem como canais de escoamento das emendas, como a estatal Codevasf e o Ministério do Esporte.

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