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Política & Poder

Em vez de ‘reconstrução’ do país, Lula deve usar discurso antissistema em 2026

No caso de Lula, o “sistema” estará se referindo a grandes operadores do mercado financeiro e bilionários contrários à distribuição de renda

Redação Jornal de Brasília

31/01/2026 9h07

lula coração

Foto: Ricardo Stuckert/PR

MARIANA BRASIL E CAIO SPECHOTO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Na campanha pela reeleição, o presidente Lula (PT) avalia adotar um discurso “antissistema”, com alvo principalmente no mercado financeiro, para substituir a ideia de “reconstrução” —propagada desde o início de seu mandato, mas considerada eleitoralmente fraca por parte de seu entorno.

Se for colocado em prática, o plano abrirá uma disputa com o bolsonarismo sobre o que é o “sistema”. A expressão costuma ser usada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aliados para retratar de forma negativa a elite política e judiciária do país e outros setores com os quais entram em atrito.

No caso de Lula, o “sistema” estará se referindo a grandes operadores do mercado financeiro e bilionários contrários à distribuição de renda. Também a setores privilegiados da sociedade, como grupos econômicos que defendem os próprios benefícios tributários e sócios do crime organizado em esquemas de lavagem de dinheiro.

Casos como esses foram investigados em operações policiais recentes como a Carbono Oculto –em um esforço para disputar também a pauta da segurança pública, que deverá ser um dos principais temas da eleição.

Essa forma de se expressar estudada por Lula seria, ao menos em parte, uma nova maneira de propagar críticas à elite econômica presentes há décadas nas falas do presidente. Também teriam a intenção de enfraquecer as falas contra o “sistema” que seus adversários costumam proferir.

Nomes da direita costumam classificar o petista como um representante desse “sistema”.

Nesta quinta (29), uma resolução da executiva nacional do PT reforçou essa tendência ao usar o caso do Banco Master para enfatizar suas críticas ao mercado financeiro, ainda que sem usar a palavra “sistema”.

“Os escândalos financeiros, como o do Banco Master e outros, que expõem a corrupção e a promiscuidade entre parte do mercado e o crime organizado […] revelam que a disputa em curso é estrutural”, afirma o texto.

Em suas falas públicas, a tendência é que Lula reforce mensagens que associem o termo “sistema” aos bilionários. O discurso acompanha uma linha adotada também nas políticas do governo na área econômica ao longo do último ano.

Sobretudo em 2025, a gestão investiu em ações que buscavam apelo popular e que afetaram o que Lula costuma chamar de “andar de cima”, como a taxação dos super-ricos, oficializada com a sanção da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.

A guinada no posicionamento é apoiada por ao menos dois ministros do Palácio do Planalto, Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação) e Guilherme Boulos (Secretaria Geral).

Em artigo publicado na Folha, o chefe da comunicação de Lula já fez uso desse discurso.
“Esse projeto secular de desigualdade não se reverte facilmente. Quem dele se beneficia herdou privilégios e quer deixá-los para as próximas gerações. Ao tomar lado e peitar o sistema, o governo do Brasil se lançou ao desafio de um novo projeto de país e enfrentou adversidades”, escreveu.

Segundo pessoas a par da discussão, outros dois ministros recomendam cautela na abordagem do tema, Rui Costa (Casa Civil) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), ambos do PT. No caso de Gleisi, a discordância não seria com a ideia em si. Responsável pela articulação política, a ministra tenta minimizar os atritos que esse discurso pode causar com representantes do setor privado no Congresso.

Até o momento, a ideia de promover um embate contra o “sistema” é vista com mais frequência em falas e posicionamentos de integrantes da direita no país. Em 2022, por exemplo, a campanha de Bolsonaro levou ao ar um vídeo afirmando que o então presidente havia governado contra o “sistema”.

“O sistema é um inimigo invisível”, afirmava a peça. Em seguida, a palavra era associada à corrupção, a adversários como Lula e o ex-ministro José Dirceu, à violência urbana, aos impostos e à imprensa.
Boulos diz que o discurso antissistema da direita é uma fraude. “Vivemos num sistema capitalista. Seus representantes são os bancos, as corporações, as big techs. E a direita anda e sempre andou de mãos dadas com eles.”

O ministro diz que o governo defende taxar bilionários e bancos. “Queremos o fim da escala 6×1, contra os interesses das corporações. A linha é nítida, eles estão com os bilionários, nós estamos ao lado da maioria do povo. Eles são o sistema”, afirmou.

O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, diz que a ascensão de forças políticas de extrema direita fez com que as pessoas passassem a enxergar na direita a mudança no sistema político e econômico. Ele afirma que, na verdade, esses grupos políticos seriam uma reação a transformações.

“O que o PT e o presidente fazem é colocar novamente os pingos nos is. Quem defende o sistema de privilégios dos poderosos é a direita e o bolsonarismo. A esquerda e o presidente Lula querem a tarifa zero, Imposto de Renda zero e a taxação dos super-ricos”, declarou.

Após passar mais da metade de seu terceiro mandato com o slogan “União e Reconstrução” a comunicação de Lula reavaliou o slogan e decidiu por alterá-lo para “Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro”, em agosto passado.

A possibilidade de o presidente reforçar um tom contra privilégios está associada à tentativa de avançar, ainda no primeiro semestre de 2026, projetos com apelo popular, como o fim da escala de trabalho 6×1.

Também estariam nesse pacote outras ações do governo Lula que miraram públicos de baixa renda, como os programas Gás do Povo, Reforma Casa Brasil e as mudanças que baratearam a emissão da carteira de motorista.

Lula escalou Boulos, para rodar o país divulgando as ações da gestão e reivindicando para o executivo federal o mérito pelas medidas. Ele fará as viagens dentro do programa Governo do Brasil na Rua, que vai promover mutirões dos serviços do governo federal pelos estados.

Também devem ser exploradas no possível discurso contra o “sistema” as ações da Polícia Federal nas investigações do escândalo financeiro do caso Banco Master. O caso foi citado por Lula durante evento de posse do novo ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, quando o presidente deu pistas sobre o possível novo tom de seus discursos.

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