Eric Zambon e Manuela Rolim
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As Eleições Municipais 2016 movimentaram as cidades do Entorno, ontem. Logo cedo, milhares de eleitores foram às urnas para definir prefeitos, vice-prefeitos e vereadores dos 22 municípios goianos. Do início até a reta final da votação, o cenário foi marcado por distribuição de santinhos e muitas denúncias de boca de urna. O PT perdeu sua única prefeitura, em Valparaíso de Goiás.
Foi lá que se verificou um incidente de campanha: eleitor afirmou ter testemunhado um fiscal fazendo boca de urna na entrada em uma escola, por volta das 16h30. “Ele veio me oferecer um candidato do PT. Disse para não nos esquecermos e votarmos no número 13123. Não pode isso”, relatou o estudante Igor César Machado de Carvalho, 20 anos. A sequência refere-se à candidata a vereadora Ceiça.
O suposto crime aconteceu no Colégio Estadual Redondo, de Valparaíso I, onde uma viatura do Grupo de Patrulhamento Tático (GPT) fazia a segurança do local. Um funcionário do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) também acompanhava a movimentação na escola. No entanto, o servidor não acatou a denúncia do estudante sobre a boca de urna. “Tentei, mas não consegui. O pior é que muita gente deve ter caído nisso”, lamentou Igor, que disse não ter visto distribuição de santinhos, apesar de o chão da unidade estar repleto deles.
Questionado pelo JBr., o representante do TRE se limitou a dizer que não poderia receber o caso. Em seguida, por falta de provas, um policial militar orientou o estudante a procurar uma delegacia para registrar o caso. Em seguida, o suspeito não foi mais visto. “Muita gente aqui vota por amizade, por isso o município está desse jeito. Ninguém conhece as propostas. Se cada um pegasse o planejamento do vereador ou do prefeito para depois ir cobrar na câmara o que eles prometeram, o Brasil não estaria assim. Uma vereadora, por exemplo, teve que ir à minha casa e me convencer a votar nela”, contou o estudante.
“O menos pior”
Outra moradora da cidade, a costureira Elza Soares, 57 anos, lamentou a falta de candidatos. “Hoje (ontem), a gente escolhe o menos pior. Falta tudo em Valparaíso. Não temos segurança, nem saúde”, declarou. Ainda no colégio estadual, uma mulher tentou votar no lugar do irmão, o que causou um pequeno tumulto.
As reclamações dos moradores de Valparaíso, agora, terão de ser ouvidas pelo novo governador Pábio Mossoró, do PSDB. O vereador obteve, ontem, 27.984 votos, o que totalizou 51,76% dos votos válidos. A atual prefeita, a petista Lucimar Nascimento, decidiu não concorrer à reeleição por conta da alta rejeição registrada em seu mandato. O candidato de seu partido, Roberto Martins, teve só 10% dos votos.
Em Luziânia, o empresário Marcelo Melo (PSDB) foi eleito o novo prefeito da cidade, com 38.942 votos. Seu antecessor, Cristovão Vaz Tormin, no entanto, recorre do resultado na Justiça. Recebeu 39.660 mil votos, número que o reelegeria, massua candidatura foi indeferida e todos os votos ligados a sua candidatura foram considerados nulos.
Durante a eleição, houve relatos de confusões em alguns pontos da cidade. “Vimos muita gente fazendo boca de urna”, afirmou o gesseiro Heitor Fonseca Silva, 23 anos.
Clima de tensão e ameaças
Após dois assassinatos – supostamente de cunho político – no município, a população de Santo Antônio do Descoberto (GO) foi às urnas para escolher prefeito e vereadores pelos próximos três anos. Apesar do clima pacato nos maiores colégios eleitorais, parte dos moradores demonstraram tensão pelo momento vivido na cidade da Região Metropolitana.
“Está todo mundo com medo, a verdade é essa”, desabafou o executivo de vendas Carlos André de Andrade, de 29 anos. Segundo ele, o atual prefeito, Itamar (PDT), derrotado nas urnas, teria ameaçado servidores públicos caso não conseguisse a reeleição. “Minha tia é servidora e já está há dois meses sem receber. Itamar disse que não pagaria ninguém até o fim do ano, caso não ganhasse”.
A namorada de Carlos André, Gabriela de Souza, autônoma de 24 anos, reclamou da violência na cidade, de maneira geral, e disse esperar por novas maneiras de combater o problema. “Os jovens precisam de mais ocupação. Tem que ter mais cursos profissionalizantes, mais oportunidades. Não adianta só colocar polícia nas ruas”, criticou.
Sumiço mal explicado
Em Águas Lindas (GO), o desaparecimento, às vésperas do pleito, do candidato Baiano do Camping Club gerou até protestos na BR-070. O político seria adversário do prefeito Hildo do Candango (PSDB), reeleito, e isso teria voltado parte da desconfiança pelo sumiço do homem para o tucano. Faltando menos de uma semana para a votação, no entanto, Baiano foi encontrado em Brazlândia, mas a situação não foi devidamente esclarecida.
Esse fato motivou reações pela cidade. O Jbr. registrou uma pichação em muro de escola com os dizeres “Hildo Assassino”, entre outras ofensas. Nada disso diminuiu a força política de Hildo, que dominou os votos e santinhos jogados nas ruas da cidade. Em um colégio eleitoral próximo ao shopping do município, a reportagem não encontrou nenhum panfleto que não trouxesse o número do candidato espalhado pelo chão.
“Não sei se os boatos são verdade, mas o fato de terem surgidos gera muita dúvida”, admitiu o estudante Evandro Carvalho, de 26 anos. Para ele, o desafio agora é melhorar a Saúde e a Segurança. “Médico aqui é que nem Chico Xavier (médium mineiro já falecido), eles nem te olham e já escrevem qual é seu problema. Em relação a polícia, só vejo ter cada dia menos efetivo, mas não sei o porquê”, reclamou.