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Política & Poder

Direita incluiu mulheres em projeto de poder, mas não produziu onda de eleitas, dizem pesquisadoras

Pesquisadoras apontam avanço de candidaturas conservadoras sem mudança proporcional no perfil ideológico das mulheres eleitas

Redação Jornal de Brasília

06/10/2026 13h21

Michelle Bolsonaro e Maria Amélia/ Redes Sociais

Michelle Bolsonaro e Maria Amélia/ Redes Sociais

ANGELA BOLDRINI, BÁRBARA BLUM E MARINA PINHONI
FOLHAPRESS

A direita incorporou as mulheres a seu projeto de poder, mas a onda conservadora que ampliou sua presença no Congresso não produziu, na mesma proporção, uma onda de mulheres à direita, afirmam pesquisadoras ouvidas pela reportagem.

O resultado das urnas deste domingo (4) combina dois movimentos que podem parecer contraditórios: de um lado, partidos conservadores passaram a investir em lideranças femininas, oferecendo recursos, estrutura partidária e alcance digital; de outro, as bancadas femininas da Câmara e do Senado saíram menos à direita que o conjunto de parlamentares.

Na Câmara, onde 59% dos parlamentares eleitos são de partidos de direita, de acordo com o GPS Ideológico da Folha de S.Paulo, as deputadas do mesmo espectro ideológico serão 48% da bancada feminina. À esquerda, elas serão 43%, enquanto o total de parlamentares desse campo é de apenas 24% quando consideradas todas as 513 cadeiras.

Das 12 senadoras eleitas nesta semana, apenas quatro são da esquerda. A bancada feminina na Casa a partir de 2027 será composta por 18 parlamentares, será 55,5% à direita e 33,4% à esquerda, com o centro espremido em apenas 11,1% -duas vagas. Ainda assim, está à esquerda da composição total da Casa, onde o bolsonarismo teve uma estrondosa vitória.

A partir de 2027, 64,2% dos senadores estarão alinhados à direita, 18,5% à esquerda e 16% ao centro. O senador Romário está atualmente sem partido.

Para Carolina Althaller, diretora-executiva do Instituto Update, o crescimento de mulheres de direita precisa ser entendido como parte de uma disputa mais ampla pelo poder. “A direita passou a investir em lideranças femininas, e a esquerda precisa olhar para as condições que oferece para as mulheres competirem”, afirma.

No caso do PL, que abriga o bolsonarismo, diz ela, há uma combinação de estrutura eleitoral, recursos e comunicação digital que cria condições para que essas candidaturas prosperem.

A estratégia, segundo Althaller, vai além da simples ampliação da representação feminina. A direita teria percebido que mulheres podem ocupar um lugar próprio em seu projeto político, inclusive defendendo posições contrárias à agenda feminista.

A oposição entre feministas e antifeministas e a presença de um centro desidratado nas bancadas femininas pode diminuir também as possibilidades de convergência dentro das bancadas femininas, explica a cientista política Débora Thomé.

Coautora do livro “Candidatas: os primeiros passos das mulheres na política”, ela diz que os dados de que as mulheres eleitas são menos conservadoras que o Congresso em geral demonstram que não houve uma onda feminina de direita. “Houve uma força da própria direita”, afirma. Ou seja, com o crescimento da direita, mulheres deste campo também chegaram em maior número a Brasília.

Ela diz que há um evidente empenho da direita nesse segmento, mas que a proporção das bancadas femininas aponta para uma disputa relevante entre esquerda e direita pelo domínio desses espaços.

Embora nomes fortes do campo, como Michelle Bolsonaro (PL-DF), Bia Kicis (PL-DF) e Caroline de Toni (PL-SC), tenham conseguido votações expressivas e chegado ao Senado, a esquerda também teve vitórias, como a eleição de Erika Hilton (PSOL-SP) como a deputada federal mais votada da história e das senadoras Marília Campos (PT-MG) e Marília Arraes (PDT-PE).

Thomé considera que a presença de mulheres pode levar determinados temas a ganhar relevância no Congresso. “Não acho que uma mulher vá ser intrinsecamente melhor do que um homem, nem à direita nem à esquerda”, diz. Mas elas tendem a ser mais suscetíveis a agendas relacionadas à própria experiência feminina, como questões de cuidados, envelhecimento, casamento infantil e a própria paridade de gênero na política. “Esse é um tema que interessa a mulheres de direita e de esquerda.”

Outro exemplo é a violência contra a mulher, pauta que, segundo Thomé, foi incorporada pela direita, embora frequentemente associada a respostas punitivistas. “O fato de ter mais mulheres lá faz com que o tema da violência contra a mulher se torne sobressalente”, afirma.

O problema é que a própria identidade política dessas parlamentares pode dificultar acordos. Para Thomé, as parlamentares de direita frequentemente se apresentam em oposição às de esquerda e ao feminismo. “A mulher da direita, uma das formas de ela se posicionar na agenda é dizer que briga com a da esquerda”, afirma.

Althaller cita como exemplo o discurso antifeminista de jovens lideranças conservadoras. Nesse caso, a rejeição ao feminismo funcionaria simultaneamente como identidade e como instrumento de mobilização. “A rejeição ao feminismo vira uma marca que representa diferentes insatisfações”, diz.

Projetos sobre saúde sexual e reprodutiva, por exemplo, devem ter pouquíssima chance de avançar, principalmente no Senado.

Para Althaller, será preciso observar não apenas quantas mulheres chegam, mas quais projetos representam e quanto poder efetivo terão. “Mais mulheres eleitas não significam avanço da agenda de igualdade”, afirma.

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