ANGELA BOLDRINI, BÁRBARA BLUM E MARINA PINHONI
FOLHAPRESS
A direita incorporou as mulheres a seu projeto de poder, mas a onda conservadora que ampliou sua presença no Congresso não produziu, na mesma proporção, uma onda de mulheres à direita, afirmam pesquisadoras ouvidas pela reportagem.
O resultado das urnas deste domingo (4) combina dois movimentos que podem parecer contraditórios: de um lado, partidos conservadores passaram a investir em lideranças femininas, oferecendo recursos, estrutura partidária e alcance digital; de outro, as bancadas femininas da Câmara e do Senado saíram menos à direita que o conjunto de parlamentares.
Na Câmara, onde 59% dos parlamentares eleitos são de partidos de direita, de acordo com o GPS Ideológico da Folha de S.Paulo, as deputadas do mesmo espectro ideológico serão 48% da bancada feminina. À esquerda, elas serão 43%, enquanto o total de parlamentares desse campo é de apenas 24% quando consideradas todas as 513 cadeiras.
Das 12 senadoras eleitas nesta semana, apenas quatro são da esquerda. A bancada feminina na Casa a partir de 2027 será composta por 18 parlamentares, será 55,5% à direita e 33,4% à esquerda, com o centro espremido em apenas 11,1% -duas vagas. Ainda assim, está à esquerda da composição total da Casa, onde o bolsonarismo teve uma estrondosa vitória.
A partir de 2027, 64,2% dos senadores estarão alinhados à direita, 18,5% à esquerda e 16% ao centro. O senador Romário está atualmente sem partido.
Para Carolina Althaller, diretora-executiva do Instituto Update, o crescimento de mulheres de direita precisa ser entendido como parte de uma disputa mais ampla pelo poder. “A direita passou a investir em lideranças femininas, e a esquerda precisa olhar para as condições que oferece para as mulheres competirem”, afirma.
No caso do PL, que abriga o bolsonarismo, diz ela, há uma combinação de estrutura eleitoral, recursos e comunicação digital que cria condições para que essas candidaturas prosperem.
A estratégia, segundo Althaller, vai além da simples ampliação da representação feminina. A direita teria percebido que mulheres podem ocupar um lugar próprio em seu projeto político, inclusive defendendo posições contrárias à agenda feminista.
A oposição entre feministas e antifeministas e a presença de um centro desidratado nas bancadas femininas pode diminuir também as possibilidades de convergência dentro das bancadas femininas, explica a cientista política Débora Thomé.
Coautora do livro “Candidatas: os primeiros passos das mulheres na política”, ela diz que os dados de que as mulheres eleitas são menos conservadoras que o Congresso em geral demonstram que não houve uma onda feminina de direita. “Houve uma força da própria direita”, afirma. Ou seja, com o crescimento da direita, mulheres deste campo também chegaram em maior número a Brasília.
Ela diz que há um evidente empenho da direita nesse segmento, mas que a proporção das bancadas femininas aponta para uma disputa relevante entre esquerda e direita pelo domínio desses espaços.
Embora nomes fortes do campo, como Michelle Bolsonaro (PL-DF), Bia Kicis (PL-DF) e Caroline de Toni (PL-SC), tenham conseguido votações expressivas e chegado ao Senado, a esquerda também teve vitórias, como a eleição de Erika Hilton (PSOL-SP) como a deputada federal mais votada da história e das senadoras Marília Campos (PT-MG) e Marília Arraes (PDT-PE).
Thomé considera que a presença de mulheres pode levar determinados temas a ganhar relevância no Congresso. “Não acho que uma mulher vá ser intrinsecamente melhor do que um homem, nem à direita nem à esquerda”, diz. Mas elas tendem a ser mais suscetíveis a agendas relacionadas à própria experiência feminina, como questões de cuidados, envelhecimento, casamento infantil e a própria paridade de gênero na política. “Esse é um tema que interessa a mulheres de direita e de esquerda.”
Outro exemplo é a violência contra a mulher, pauta que, segundo Thomé, foi incorporada pela direita, embora frequentemente associada a respostas punitivistas. “O fato de ter mais mulheres lá faz com que o tema da violência contra a mulher se torne sobressalente”, afirma.
O problema é que a própria identidade política dessas parlamentares pode dificultar acordos. Para Thomé, as parlamentares de direita frequentemente se apresentam em oposição às de esquerda e ao feminismo. “A mulher da direita, uma das formas de ela se posicionar na agenda é dizer que briga com a da esquerda”, afirma.
Althaller cita como exemplo o discurso antifeminista de jovens lideranças conservadoras. Nesse caso, a rejeição ao feminismo funcionaria simultaneamente como identidade e como instrumento de mobilização. “A rejeição ao feminismo vira uma marca que representa diferentes insatisfações”, diz.
Projetos sobre saúde sexual e reprodutiva, por exemplo, devem ter pouquíssima chance de avançar, principalmente no Senado.
Para Althaller, será preciso observar não apenas quantas mulheres chegam, mas quais projetos representam e quanto poder efetivo terão. “Mais mulheres eleitas não significam avanço da agenda de igualdade”, afirma.