ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Em 2023, a filha de Daniel Vorcaro ganhou uma festa de 15 anos. E não uma qualquer. A comemoração viralizou pelo custo, estimado em até R$ 20 milhões, e pelos detalhes luxuosos.
Alok e The Chainsmokers, tarimbados na cena eletrônica, estavam entre os DJs. Os americanos receberam US$ 1,3 milhão (R$ 6,3 milhões em valores da época), e o brasileiro, US$ 365 mil (R$ 1,7 milhão), indicam documentos encontrados pela Polícia Federal nos arquivos de Vorcaro.
A jovem dançou valsa com um rapaz loiro de topete, ao som de “Story of My Life”, da banda One Direction. Seu par era o primogênito do pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha.
O número de dança ilustra a proximidade entre a família Valadão e o ex-banqueiro, uma relação sob escrutínio após emergir o escândalo do Banco Master.
Preso sob suspeita de ameaça, corrupção e lavagem de dinheiro, Vorcaro tem amizade de longa data com André Valadão, líder da Lagoinha Global, rede evangélica que começou em Belo Horizonte, terra-natal dos dois clãs, e hoje conta com centenas de templos no Brasil e no exterior.
Vorcaro já apresentou um programa de música na Rede Super, emissora ligada à igreja. Ele e seus parentes “participaram da vida da igreja em diferentes momentos, como ocorre com diversas famílias que frequentam comunidades religiosas”, segundo nota enviada à Folha pela instituição evangélica.
Quem primeiro se associou à Lagoinha foi Henrique Vorcaro, pai de Daniel. Convertido evangélico, ele financiou projetos da igreja e chegou a ajudar a quitar a dívida de uma BMW que André Valadão havia comprado.
A PF investiga o uso da conta de Henrique para ocultar R$ 2,2 bilhões desviados do Master. A defesa dele nega a titularidade da conta e pediu ao Supremo Tribunal Federal acesso à documentação apresentada pela polícia.
Valadão disse, por meio da assessoria de imprensa da igreja, que “menções a um episódio pessoal ocorrido há cerca de 25 anos envolvendo a aquisição de uma BMW” referem-se a uma compra que realizou à época, “não a qualquer tipo de presente ou benefício”.
Outra ponta que une a Lagoinha ao caso Master é o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e preso na operação da PF. Valadão celebrou seu casamento com Natalia Vorcaro, irmã de Daniel, em 2018. Zettel já contou que torcia para arranjar “uma namorada crente”, e “eis que surge aquela senhora, hoje minha esposa”.
“Olhei e foi, crente bonita, né, trabalhar aqui nesse namoro”, disse na Bola de Neve, igreja à qual era filiado antes de migrar em 2024 para a Lagoinha.
Zettel, investidor em empreendimentos como a rede de açaí Oakberry e a marca de chás Desinchá, virou pastor na nova casa de fé. Logo depois, esteve à frente da construção de um megatemplo no belo-horizontino bairro de Belvedere.
A Lagoinha Global diz que seu pastoreio era voluntário e restrito a essa unidade. Destaca ainda que sua estrutura é composta por igrejas locais com uma liderança própria, “responsável pelas decisões administrativas e jurídicas” de seu templo.
Também frisa que Zettel foi afastado do cargo em novembro, “assim que surgiram as primeiras informações públicas relacionadas ao caso investigado”.
O Clava Forte Bank, fintech da Lagoinha que se vendia como “banco para impulsionar os projetos do Reino de Deus”, também ficou sob suspeição. Ofertava desde contas digitais a financiamentos e entrou no ar meses antes de o Master virar essa bomba-relógio no mundo financeiro. Não durou um ano.
Saiu do ar após Vorcaro ser preso pela primeira vez, no mesmo 2025. O deputado Rogério Correia (PT-MG) pediu que fosse investigado na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investiga o escândalo no INSS.
Valadão já disse que esse vínculo era “menos um, não é zero, não, nem existe”. O Clava, segundo ele, “foi simplesmente um sistema de pagamento” para “tirar as taxas bancárias abusivas” e fechou “devido ao alto índice de hackeamento bancário”.
RIXA FAMILIAR
A Lagoinha tem lastro no meio evangélico. Surge em 1957 e cresce sob a condução de Márcio Valadão, que assumiu o pastorado em 1972 e ali permaneceu por meio século.
Ele se afastou após anunciar a morte por infarto do ex-ator Guilherme de Pádua, assassino de Daniella Perez, que virou pastor da igreja. “Caiu e morreu. Morreu agora, agorinha”, informou sorrindo. O tom insólito levantou suspeitas sobre senilidade. Ele se aposentou e abriu espaço para o filho, André Valadão.
Ao longo do tempo, a igreja se distanciou da tradição batista mais clássica e banhou-se no pentecostalismo contemporâneo: forte apelo musical, estética jovem e pregações que remetem à teologia coaching. A Lagoinha Alphaville é um bom exemplo, com pipocaria premium, letreiro luminoso em inglês (“welcome to the new”, bem-vindo ao novo) e eventos como o Crie (Cristão Empreendedor).
Essa filial chegou a anunciar uma área vip, depois abortada. A intenção, segundo André, era garantir a presença de figuras públicas que não podiam mais “viver uma vida comum”, pelo assédio do povo.
O protagonismo dos Valadão transformou a igreja em marca religiosa. Ana Paula, André e Mariana, os três filhos de Márcio, tornaram-se figuras conhecidas na música gospel e em pregações, tendo como trampolim a banda Diante do Trono, uma das mais relevantes do cenário evangélico neste século. Os irmãos cantam algumas das principais canções do grupo.
A chegada de André à cabeceira da igreja não ocorreu sem ruídos. Dezenas de comunidades filiadas à Lagoinha se desligaram meses após ele assumir a liderança. Sinal de insatisfação com os novos rumos da instituição.
A disputa familiar também ganhou contornos públicos. Ana Paula já fez críticas a comunidades que, segundo ela, teriam abandonado os fundamentos do Evangelho e deixado de honrar o legado das gerações anteriores. O trecho acabou cortado da transmissão oficial do culto e alimentou especulações sobre tensões entre os herdeiros.
“A Lagoinha foi nossa casa por muitos anos e guardamos memórias preciosas”, mas “é importante pontuar que nosso caminho tomou um rumo diferente há bastante tempo”, diz a cantora à Folha. “Como família, temos nossas diferenças, mas meu desejo é que tudo se esclareça, e as relações se restabeleçam. Oro sinceramente por isso.”
De Dilma Rousseff (PT), então presidente, a Marina Silva (Rede), muitos políticos já posaram ao lado de membros do clã. Nos últimos anos, contudo, os laços maiores foram com a direita. André Janones (Avante-MG), que diz ter se batizado lá, é uma exceção à esquerda.
André Valadão já recepcionou na Lagoinha Orlando Church, na cidade onde mora, o blogueiro Allan dos Santos, foragido da polícia brasileira e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). O parlamentar estava acompanhado de um pastor da igreja quando usou um jatinho ligado a Vorcaro para fazer campanha por Jair Bolsonaro (PL) em 2022.
Eduardo Bolsonaro (PL-SP) já disse em seu púlpito que “o comunismo é uma bactéria esperando o sistema imunológico baixar para voltar”. O irmão Flávio (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, passou o Revéillon num evento do pastor.
Para Nina Rosas, socióloga da UFMG que pesquisa a Lagoinha, André aciona o botão do “pânico moral” e “está menos próximo da narrativa da guerra espiritual do que da guerra política propriamente dita”. O engajamento, contudo, já foi maior. Hoje o pastor sustenta que nunca foi bolsonarista.
Também busca se afastar do escândalo ligado ao amigo Daniel Vorcaro. Diz a nota da igreja: “A Lagoinha esclarece que não possui qualquer vínculo institucional com o Master, tampouco está associada às investigações relacionadas ao caso”.