Millena Lopes
millena.lopes@jornaldebrasilia.com.br
A Rede de Sustentabilidade está prestes a se tornar partido político – o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julga hoje o pedido de registro do partido da ex-senadora Marina Silva – e o clima no PT é favorável à saída de pelo menos dois distritais para a nova agremiação. A crise interna tem o deputado Chico Vigilante como pivô, que teria tomado decisões à revelia dos demais parlamentares. Com isso, Chico Leite e Cláudio Abrantes se afastam cada vez mais da sigla.
No dia em que a Câmara Legislativa fez uma sessão itinerante, em Planaltina, com a presença de três dos quatro deputados petistas, Vigilante resolveu convocar a imprensa para criticar o pacote de medidas de corte de gastos e aumento de tarifas e impostos anunciado pelo governador Rodrigo Rollemberg.
Os colegas de bancada se irritaram. Ao governador, Vigilante apresentou um conjunto de propostas, que não teriam sido discutidas com toda a bancada.
Mas ele diz que não está preocupado com o que pensam os colegas, “que são adultos”. “Estou preocupado com a crise do DF, tenho colaborado sobremaneira para que a gente amenize. Não tenho tempo a perder com satisfação”, rechaçou.
Ele diz que o fórum adequado para se discutir insatisfações é a bancada, que se reúne periodicamente. E ataca: “Ninguém está obrigado a continuar ou sair do PT. Cada um sabe o que faz”.
Citando que a sigla é “um partido consolidado no DF”, Vigilante diz que tem aconselhado a direção regional da legenda a não reivindicar o mandato de quem resolver sair. “O PT é maior do que qualquer um de nós”, disse.
Pela militância
Na tentativa de minimizar os indícios da crise interna, o distrital Ricardo Vale diz que tem feito a parte dele. “Já conversei várias vezes com os deputados. Tenho pedido para que fiquem no partido. Trabalho para o PT se fortalecer, se reconstruir”, garante.
Vale afasta rumores de que ele também pensaria em deixar a legenda. E diz ter um motivo maior para permanecer. “Eu não tenho nenhuma pretensão de sair do PT, em respeito à militância”, diz. Ele não esconde, no entanto, certa insatisfação: “Diante de determinadas posições que a direção nacional do PT toma, às vezes dá vontade de repensar a permanência”.
Cláudio Abrantes ainda é dúvida
Até o discreto deputado Wasny de Roure reconhece a animosidade no partido: “De fato, a gente tem esse tipo de problema, mas vamos ter que tratar isso no interior da bancada”. A personalidade de Chico Vigilante é apontada como um problema. “Ele acha que todos têm que seguir a orientação que ele dá”, reconhece o petista.
Os próprios colegas de bancada dão a saída de Chico Leite como certa. Na véspera – e na expectativa – de a Rede ser consolidada, ele não quis comentar o assunto. Outro deputado distrital – Joe Valle (PDT) – estaria de malas prontas também para o partido de Marina Silva. Mas, enquanto a Rede não for realidade e a estratégia de saída dos atuais partidos não for definida, eles negam.
Dúvida
Petistas se dividem com relação à saída de Cláudio Abrantes. Recém chegado à Casa, ele tomou posse como suplente de Michel (PP), que agora é conselheiro do Tribunal de Contas do DF. Figura respeitada no partido, a ex-deputada Arlete Sampaio tem trabalhado para que ele permaneça. Mas o clima interno pode ser definitivo para que Cláudio troque de legenda.
Sobre o assunto, ele desconversa: “Eu estou chegando agora”. Se tem crise no PT? “O que eu espero de qualquer partido é que haja conversa nas bancadas. Que as posições sejam, discutidas, acertadas, combinadas”, resume ele.
A rede vem aí
Pelo menos três distritais estão ansiosos com a sessão de hoje do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), já que o julgamento do registro da Rede de Sustentabilidade está na pauta.
A ex-ministra e ex-senadora Marina Silva deve acompanhar a decisão do Plenário do TSE.
Esta é a segunda vez que ela tenta registrar a agremiação: em 2013, um ano antes das últimas eleições presidenciais, o registro do partido de Marina foi negado, por seis votos a um. As 442 mil assinaturas necessárias para a criação da legenda não foram validadas.
Se as previsões se confirmarem, a Rede chegará à Câmara Legislativa forte, com uma bancada de três deputados, empatada com a que será maior: a do PMDB.