Política & Poder

Centrão pediu abandono de discurso golpista para manter aliança com Bolsonaro

O acordo envolve maior acesso do Congresso às verbas federais e tolerância, por parte de líderes do centrão, com o discurso negacionista

Marianna Holanda, Julia Chaib e Mateus Vargas
Brasília, DF

Após contestar as urnas eletrônicas por mais de dois anos, o presidente Jair Bolsonaro (PL) retirou do seu repertório as ameaças ao sistema eleitoral e passou a dizer que as chances de fraude em 2022 são mínimas.

O posicionamento —repetido aos mesmos apoiadores que, meses atrás, eram estimulados a ocupar as ruas em defesa do voto impresso— é reflexo da costura política com o centrão para salvar o mandato de Bolsonaro.

Dirigentes desses partidos embarcaram no governo e impuseram, como uma das condições para caminharem juntos em 2022, que Bolsonaro cessasse as ameaças de golpe e ao sistema eleitoral.

O acordo envolve maior acesso do Congresso às verbas federais, e certa tolerância, por parte de líderes do centrão, com o discurso negacionista de Bolsonaro sobre a Covid-19.

Para modular as falas sobre as urnas e convencer os apoiadores, o presidente passou a afirmar que o pleito do próximo ano será mais confiável, pois as Forças Armadas passaram a integrar o grupo que fiscalizará a votação.

Ministros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) convidaram para o posto de diretor-geral do órgão nas eleições o general da reserva Fernando Azevedo e Silva, ex-ministro da Defesa de Bolsonaro. Estará subordinada a ele a área de tecnologia, responsável pelas urnas eletrônicas e softwares utilizados nas eleições.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ainda que o convite não tenha relação com Bolsonaro —até porque Azevedo e Silva deixou o governo após desentendimentos com o presidente—, seus apoiadores dizem ter sensação de maior segurança com a presença de um membro do Exército.

Nas últimas semanas de 2021, Bolsonaro ensaiou voltar ao tom de meses atrás, mas com ataques direcionados a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), não ao sistema eleitoral.

Criticou a corte e o ministro Alexandre de Moraes e falou palavrões publicamente, o que costuma ser um termômetro de sua irritação. Os arroubos, contudo, foram classificados por auxiliares como “desabafos”, ainda distantes de uma nova escalada golpista.

O ápice dos ataques às instituições promovidos por Bolsonaro ocorreu na semana do feriado de 7 de Setembro, quando ele convocou apoiadores às ruas para demonstração de apoio na queda de braço contra o STF.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Semanas antes das manifestações de raiz golpista nas ruas de São Paulo e Brasília, um desfile de blindados das Forças Armadas passeou pela Esplanada até o Palácio do Planalto, sob o pretexto de levar em mãos um convite a Bolsonaro para participar da Operação Formosa (em Goiás).

Ainda que o evento da Marinha ocorra anualmente, aquela foi a primeira vez em que houve um desfile de blindados até o Planalto para a entrega de convite. O ato ocorreu na manhã do dia em que o Congresso discutiria —e derrubaria – uma proposta de voto impresso, uma das bandeiras de Bolsonaro.

Enquanto a cada decisão do STF e a cada declaração do presidente a crise parecia não dar trégua, a estreita ala de bombeiros palacianos tentava contornar os ânimos dos dois lados.

Os ministros Ciro Nogueira (Casa Civil) e Flávia Arruda (Secretaria de Governo) passavam tardes inteiras reunidos na sala de Bolsonaro —o que não é habitual para ministros que devem despachar sobre diversos assuntos.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

É nas tradicionais lives de quinta-feira que o mandatário conversa com seu eleitorado. E, naquela época, aliados do presidente cercavam-no durante a transmissão para sinalizar sempre que ele estivesse entrando no campo da crise institucional.

Sob a tutela do centrão, que entrou no governo no seu momento de maior fragilidade, com mais de uma centena de pedidos de impeachment, o Planalto de Bolsonaro se profissionalizou e aderiu de vez à dança do toma-lá-dá-cá.

Um dos principais aspectos desse casamento é que os dirigentes de partidos como PP, PL e Republicanos sempre deixaram claro que não embarcam em aventuras golpistas. Questionar o sistema eleitoral do qual precisam para se eleger não faz parte do repertório do centrão. Segundo relatos, foram categóricos ao explicar isso a Bolsonaro.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Tentaram ainda contornar o temperamento do chefe do Executivo com dois argumentos: as ruas cheias de apoiadores já seriam uma “fotografia” da demonstração de apoio que ele tem da população, o que poderia tranquilizá-lo, e sair das “quatro linhas da Constituição” é o que a oposição esperava que ele fizesse.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Em entrevista à Gazeta do Povo em 9 de dezembro, Bolsonaro fez menções aos pedidos de apoiadores nas manifestações de meses antes, com cartazes que diziam: “Eu autorizo”.

“Está autorizado a fazer o quê? Quais as consequências? Ficaria dois, três dias nos braços do povo. E depois? Problemas externos, internos”, disse o presidente.

“Em 1967, quando explodiu a luta armada no Brasil, poderia ser quase nada perto do que poderia acontecer no Brasil [hoje]. Há uma luta de poder enorme no Brasil. A esquerda torcia para que eu saísse das quatro linhas [da Constituição]”, afirmou.

Nas manifestações do 7 de Setembro, acompanhado de ministros, o chefe do Executivo fez discurso com ameaças golpistas ao STF, xingou o ministro Alexandre de Moraes, cobrou o presidente da corte, Luiz Fux, e indicou que poderia não cumprir decisão judicial.

No dia seguinte aos atos, o mundo político e jurídico amanheceu em compasso de espera. Em reunião com seus ministros, o presidente ouviu que deveria aproveitar o capital político para radicalizar, tese defendida por Augusto Heleno (GSI), mas também apelos por moderação, vindos em sua maioria da ala política.

O encontro com o ex-presidente Michel Temer (MDB) nasceu do que Bolsonaro ouviu deste segundo grupo. O próprio presidente ligou para o emedebista e combinou de levá-lo, por avião da FAB (Força Aérea Brasileira), para o Planalto. A aproximação foi intermediada por Bruno Bianco (AGU), com apoio de Flávia Arruda, Ciro Nogueira e do ministro do STF Dias Toffoli.

Bolsonaro foi alertado, sobretudo, para dar um fim urgente à greve dos caminhoneiros, seus apoiadores, que se desenhava. Temer disse ao presidente que aquele seria o seu fim.

Ali também redigiram uma nota, em que o chefe do Executivo adotou um tom desconhecido nesses três anos de governo e disse nunca ter tido intenção de agredir quaisquer dos Poderes, falou em harmonia e fez um gesto ao ministro Alexandre de Moraes.

Relator de inquéritos que miram tanto o presidente quanto seus filhos, Moraes é alvo favorito do bolsonarismo. Na ocasião, Temer intermediou a ligação para baixar a temperatura entre os dois. A conversa foi rápida, segundo relatos.

Dias depois, o ministro do STF esteve reunido por horas com o ministro da Justiça, Anderson Torres. Os detalhes que permeiam os encontros desses dias ainda são nebulosos.

Matéria publicada em 22 de dezembro de 2021 06:41

FolhaPress

Notícias Recentes

Rússia mantém ofensiva no leste da Ucrânia

"Estamos ansiosos por essa nova e importante ajuda. Ela é necessária agora mais do que nunca", escreveu Zelensky no Twitter

21 de maio de 2022

Bolsonaro tenta usar Musk para atacar Lula e buscar ganho eleitoral

A imagem do encontro deve ser explorada para responder à tese de que Bolsonaro transformou o Brasil em um pária…

21 de maio de 2022

Com veto ao grito ‘fora, cracolândia’, moradores do centro de SP cobram solução

Após a operação deste mês na praça Princesa Isabel, dependentes e traficantes têm se aglomerado em diferentes ruas da região

21 de maio de 2022

Benny Briolly registra ocorrência contra Rodrigo Amorim: “Você que me aguarde, não vou deixar impune o que aconteceu”

Após fala racista e transfóbica, vereadora vai atrás de seus direitos que foram violados na Assembleia Legislativa do Estado do…

21 de maio de 2022

Ex-namorado de jovem morta na saída da escola confessa crime, diz polícia

Ele foi encaminhado para o Deic (Delegacia de Investigações Criminais) de Taubaté onde prestou depoimento

21 de maio de 2022

‘Não há espaço para jogo duplo’, diz líder do PT sobre senador do PSD de Minas

Pré-candidato ao Governo de Minas Gerais, Kalil anunciou nesta quinta-feira (19) a aliança com o ex-presidente Lula (PT) no estado

21 de maio de 2022

This website uses cookies.