CATIA SEABRA E ADRIANA FERNANDES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
A eclosão do caso Master provocou abalos no mundo político, tanto à direita quanto à esquerda, às vésperas da volta do Congresso Nacional. Na Esplanada dos Ministérios e nas fileiras bolsonaristas, há divergências sobre a estratégia ideal para o enfrentamento da crise acirrada após a constatação de envolvimento de políticos no esquema sob investigação.
O material reunido pela Polícia Federal na primeira fase da operação Compliance Zero, que teve como alvo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, contém referências a lideranças partidárias e altas autoridades.
A tensão é suprapartidária. Enquanto, encorajado por pesquisas de opinião, o presidente Lula (PT) manifesta apoio às investigações, aliados alertam para o risco de tremores na base governista e na relação com os demais Poderes, em especial o Supremo Tribunal Federal (STF).
Até colaboradores diretos do presidente advertem para ameaças advindas da fragilização de magistrados no ano em que indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estarão à frente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
O governo, no entanto, vem vendendo a ideia de que que as investigações devem prosseguir. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são apontados como defensores dessa linha, que conta ainda com o apoio de Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) e Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação da Presidência).
Sobre essa estratégia, há a avaliação de que os desdobramentos do caso propiciam a consolidação da imagem de que Lula enfrenta os poderosos.
No ano passado, no entanto, Lula foi informado da relação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), com um sócio do Master, e dos contratos do banco com o governo da Bahia. Foi tranquilizado pelo senador e pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, quanto aos riscos de envolvimento no esquema.
A avaliação, dentro do governo, é que o caso pode até respingar em aliados, mas atinge diretamente dirigentes do centrão e da oposição.
Isso não evita descompassos. Na terça-feira (27), em entrevista à CNN, o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), se declarou contra a instalação de uma CPI sobre o caso.
Além de ter telefonado reclamando da declaração, Gleisi afirmou, no dia seguinte, que essa não é uma decisão do governo. Já o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), se disse a favor da CPI.
Na oposição não tem sido diferente. O trânsito de Vorcaro entre dirigentes dos partidos do centrão estaria inibindo discursos contra o governo. Um dos políticos mais próximos do banqueiro, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), submergiu. Ele atuou no Congresso em defesa de interesses do dono do Master.
Na sexta-feira (30), o PL -partido de Bolsonaro- levou às redes uma peça em que tentava atribuir a origem do escândalo ao governo. Mas, segundo relatos, a estratégia foi criticada por integrantes do partido.
LAVA JATO
O cálculo político do Palácio do Palácio de que Lula tem mais a ganhar com o escândalo nas próximas eleições não é unanimidade. Políticos de fora do governo têm alertado que o caso é “ecumênico”, por atingir todos os Poderes.
Segundo eles, o Master tem potencial de se transformar numa nova Lava Jato, ou até pior, com a crise respingando no colo do presidente caso o aprofundamento das investigações de fraudes cheguem ao PT da Bahia via Augusto Lima, o ex-sócio de Vorcaro no Master.
Antes de Toffoli subir com o processo do Master para o STF, as investigações do Ministério Público Federal avançavam em torno da participação de Lima na negociação com o BRB (Banco de Brasília). O que chamou a atenção dos investigadores é que, mesmo tendo deixado a sociedade de Vorcaro, ele continuou participando de reuniões ao seu lado no BC.
O banqueiro baiano, preso na Operação Compliance Zero da Polícia Federal no mesmo dia de Vorcaro, aproximou-se dos governos petistas a partir de 2017, quando Rui Costa era governador, e o senador Jaques Wagner era secretário de Desenvolvimento Econômico. Segundo relatos, o senador é um dos aliados mais incomodados com a estratégia governista.
Adversários também apostam no desgaste do governo com disparos partindo da defesa de Vorcaro após a reportagem revelar a irritação do presidente com a conduta do ministro Toffoli na relatoria do inquérito do Master. Em conversas reservadas, Lula chegou a afirmar, em desabafos, que o ministro deveria renunciar a seu mandato na corte ou se aposentar.
A contraofensiva atingiu o governo com a revelação do encontro de Lula com Vorcaro, que contou também com a presença do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e do ex-ministro Guido Mantega (Fazenda), então consultor do Master.
Também debilitou o governo a informação de que o Master contratou o escritório de advocacia da família do ex-ministro da Justiça de Lula Ricardo Lewandowski. Ele ficou na pasta, à qual a Polícia Federal é subordinada, entre 1º de fevereiro de 2024 e 9 de janeiro deste ano.
O BC também virou alvo dos ataques diante de questionamentos sobre a participação do diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino, na compra de carteiras de crédito fraudulentas pelo BRB para ajudar o Master.
O BC negou a relação, e Aquino abriu mão de seus sigilos e colocou à disposição do Ministério Público e da PF suas informações bancárias e os registros de conversas por celular.
Na oposição, o risco no radar é o de o caso atingir importantes lideranças do centrão.
A leitura em Brasília é a de que Vorcaro, com a contraofensiva, tentou mostrar que tem munição contra políticos e autoridades de todos os matizes. Em depoimento à PF, o banqueiro, ao ser questionado sobre sua relação com poderosos, aproveitou para dizer que tem “alguns amigos em todos os Poderes”.
A despeito da extensa lista de pessoas influentes que faziam parte do círculo de amizades e frequentavam os luxuosos eventos patrocinados pelo Master no Brasil e no exterior, Vorcaro está se sentindo abandonado pelos amigos, segundo relatos colhidos pela reportagem.
À medida que os detalhes do esquema vêm à tona, o banqueiro virou uma personagem radioativo, do qual o mundo político quer mais é ficar distante.
Mas, apesar da escalada da tensão nos útimos dias, a expectativa é que o inquérito envolvendo políticos acabe ficando sob a responsabilidade do STF, mantendo também sob controle a disputa política entre cortes superiores, juízes e procuradores nos estados.