Política & Poder

Auditor é demitido por Guedes, e tese de Flávio Bolsonaro sobre acesso ilegal de seus dados perde força

Ela estabelece a restrição ao retorno ao cargo público pelo prazo de cinco anos. Como Guerra já está aposentado, o ato representa, na prática, a cassação do benefício

Ranier Bragon
Brasília, DF

O ministro Paulo Guedes (Economia) demitiu por ato de improbidade administrativa o servidor Glauco Octaviano Guerra, auditor cujo caso foi usado pela defesa do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) para acionar órgãos do governo federal sob o argumento de que o filho do presidente teria tido dados fiscais acessados de forma ilegal.


A portaria com a demissão foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira (25). Ela estabelece a restrição ao retorno ao cargo público pelo prazo de cinco anos. Como Guerra já está aposentado, o ato representa, na prática, a cassação do benefício.


Guerra é um dos cinco auditores da Receita Federal suspeitos de enriquecimento ilícito que recorreram à Justiça e ao Sindifisco, o sindicato nacional dos auditores, sob o argumento de que foram investigados de forma ilegal pelos órgãos de correição da Receita no Rio -o Escritório de Corregedoria da 7ª Região Fiscal (Escor07) e o Escritório de Pesquisa e Investigação da 7ª Região Fiscal (Espei07).


A partir de agosto do ano passado, advogados de Flávio Bolsonaro usaram o caso dos cinco auditores para entrar em contato com órgãos federais, como a Presidência da República, o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), além de acionar a PGR (Procuradoria-Geral da República).

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A hipótese relatada ao governo e à PGR foi a de que os órgãos da Receita Federal no Rio podem ter acessado criminosamente os dados fiscais do senador e embasado, por caminhos extraoficiais, a produção do relatório do Coaf (órgão de inteligência financeira ligado ao Ministério da Economia) que originou, em 2018, a investigação contra o filho do presidente.


Alvo dos auditores investigados e da família Bolsonaro, o então chefe do Escor07, Christiano Paes Leme Botelho, acabou exonerado em dezembro.
Como a Folha mostrou no início do mês, os cinco auditores têm sofrido sucessivas derrotas judiciais na tentativa de fazer valer a tese de que tiveram seus dados acessados ilegalmente.


Glauco Guerra teve a recomendação do Escor07 de demissão sob a acusação de construção de uma casa no valor de R$ 505 mil no Recreio dos Bandeirantes, bairro na zona oeste do Rio, com dinheiro de origem não comprovada.

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O auditor entrou com ação para anular a investigação, mas sentença de novembro assinada pelo juiz Eduardo Rocha Penteado, da 14ª Vara Federal do Distrito Federal, rejeitou o pedido.


Guerra afirma que a casa pertence aos sogros, mas em sua sentença o juiz lista depoimentos do vendedor e do contador contradizendo o auditor, além de relatar que débitos nas contas dos sogros no mesmo período somaram apenas R$ 65 mil.

O juiz registra ainda que Guerra afirmou na ação que os sogros é que deveriam ser penalizados, se “comprovada a insuficiência de fundos” por parte deles.

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“Afasto tal alegação, considerando que se constatou que houve simulação no negócio de compra e venda, sendo o real proprietário do imóvel o autor [Guerra], que residiu no imóvel com sua esposa e filhos, permanecendo os sogros residindo em um apartamento localizado em prédio humilde, em Madureira.”


O advogado de defesa de Guerra, Claudio Serpa da Costa, afirmou que já havia ingressado com ação judicial contestando a recomendação de demissão feita pelo Escor07 e que aguarda acesso ao parecer para se manifestar. Em manifestação anterior, ele disse que a investigação foi ilegal e que a casa é do sogro de seu cliente.


Glauco Guerra chegou a ser preso no ano passado na Operação Mercadores do Caos, suspeito de integrar esquema de desvio de verbas na aquisição de respiradores pulmonares pelo Governo do Rio de Janeiro durante a pandemia da Covid-19.

Glauco é o segundo dos cinco auditores que tiveram a demissão publicada pelo Ministério da Economia.

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Flávio Bolsonaro foi denunciado no caso das “rachadinhas” sob acusação de liderar uma organização criminosa que recolhia parte dos salários de alguns de seu ex-assessores na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em um esquema operado por Fabrício Queiroz, amigo do presidente Jair Bolsonaro.


Na terça-feira (23) o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anulou por maioria dos votos a quebra de sigilo bancário e fiscal do senador no âmbito das investigações das “rachadinhas”. A decisão não tem relação com as investigações em torno dos auditores fiscais.


O argumento vencedor no STJ foi o de que houve problemas de fundamentação nas quebras autorizadas pelo juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro.

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Galeria Flavio e Jair Bolsonaro com Fabricio Queiroz Fabricio Queiroz foi preso pela Polícia Federal na manhã desta quinta-feira (18)

As informações são da Folhapress






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