Mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro indicam que o advogado Walfrido Warde articulou contatos com integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para tentar encontrar uma saída para a crise do Banco Master. Os diálogos, divulgados pela Veja nesta sexta-feira (9), mencionam reuniões com autoridades, tratativas envolvendo o Banco Central e uma tentativa de viabilizar a venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB).

Segundo a publicação, Warde mantinha contato com pessoas próximas ao presidente e teria usado essas relações para encaminhar demandas de interesse do banqueiro. As conversas também fazem referência a uma reunião entre Lula e Vorcaro no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024, quando o Master enfrentava dificuldades.
Em uma das mensagens, Vorcaro afirma estar com uma “chave” para garantir a reeleição do presidente. A reportagem não esclarece o significado exato da declaração, mas a relaciona à rede de contatos que o banqueiro acreditava ter construído junto ao governo.
Reuniões e articulações políticas
As conversas mostram que Warde procurou aproximar Vorcaro de figuras com influência política e econômica. No início de 2024, o advogado perguntou ao banqueiro se poderia organizar um encontro com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Vorcaro concordou, e Mantega foi contratado posteriormente como consultor do Banco Master por R$ 14 milhões, segundo a Veja.
A publicação também relata que o advogado mencionou contatos com o desembargador José Amílcar Machado, então presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Na ocasião, o banco tinha interesse em questões relacionadas ao pagamento de precatórios, e Warde teria afirmado que resolveria uma demanda apresentada pelo banqueiro.
Outro episódio citado ocorreu em dezembro de 2024, quando Lula recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto. Entre os presentes estavam Mantega, o então CEO do Master, Augusto Lima, e Gabriel Galípolo, que assumiria a presidência do Banco Central. Nas mensagens posteriores ao encontro, Warde afirmou que a reunião havia sido positiva.
A reportagem também aponta divergências entre as visitas registradas oficialmente no Planalto e as conversas em que o advogado relatava encontros com o presidente. Em uma mensagem de maio de 2024, Warde disse que acabara de sair da sala de Lula.

Pressão sobre o Banco Central
Em julho de 2025, quando Vorcaro tentava vender o Banco Master ao BRB, as conversas indicam que o banqueiro e seu advogado demonstravam insatisfação com a atuação do Banco Central. A operação dependia da autorização do órgão.
Após uma reunião com Galípolo, Vorcaro reclamou que o presidente do BC teria apresentado uma nova justificativa para não avançar com a negociação. Warde respondeu que o banqueiro deveria avisar Lula e afirmou que os dois deveriam partir para o enfrentamento.

Em seguida, o advogado enviou mensagens a Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola, então chefe de gabinete da Presidência. Nos diálogos reproduzidos pela Veja, Warde criticou Galípolo e pediu que o recado fosse transmitido ao presidente. Em uma das mensagens, escreveu: “Nós vamos quebrar tudo”.
Segundo a reportagem, Marcola afirmou que levaria o conteúdo a Lula. No dia seguinte, Warde informou a Vorcaro que o presidente havia conversado por telefone com Mantega e que pretendia chamar o ex-ministro após seu retorno de Londres.
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master em novembro de 2025. Vorcaro foi preso, e Warde deixou a equipe de defesa do banqueiro no início de 2026, quando o ex-cliente passou a tentar negociar um acordo de delação, conforme a publicação.
Outros nomes citados
As mensagens também mencionam o economista Luiz Gonzaga Belluzzo e o ministro Guilherme Boulos, atual chefe da Secretaria-Geral da Presidência. De acordo com a Veja, Warde afirmou ter convencido Boulos a apresentar uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para limitar o pagamento de emendas parlamentares.

No caso de Belluzzo, a reportagem cita um comprovante de depósito de R$ 250 mil encontrado no celular de Vorcaro. O economista confirmou ter recebido dinheiro de Warde, mas negou que o pagamento estivesse relacionado à ação judicial que apresentou em favor de interesses ligados ao Master.
A Veja informou que Warde não quis se manifestar sobre o conteúdo da reportagem. As mensagens reproduzidas pela publicação indicam as articulações relatadas pelo advogado e pelo banqueiro, mas não comprovam, por si só, que as autoridades citadas tenham atuado de forma irregular ou que Lula tenha interferido diretamente nas decisões do Banco Central.