Isaac Marra
Especial para o Jornal de Brasília
O advogado Sacha Reck conduziu a licitação destinada a renovar a frota de ônibus do Distrito Federal para que duas empresas que eram suas clientes ganhassem uma fatia do milionário negócio de transportes de passageiros em Brasília. Essa é uma das principais hipóteses levantadas pela CPI do Transporte Público, responsável por investigar possíveis irregularidades no processo licitatório, aberto em 2012.
O distrital Bispo Renato Andrade (PR), presidente da CPI, espera esclarecer as poucas dúvidas que restam até o dia 29, quando Sacha Reck poderá ser submetido a acareação com Galeno Furtado, presidente da Comissão de Licitação. Os dois apresentaram versões completamente diferentes sobre seus papéis na concorrência pública. Enquanto Galeno afirma ter recebido de Sacha o edital de licitação já pronto, o advogado sustenta que a comissão ajudou a preparar o documento.
Ação decisiva
Com base nos depoimentos colhidos até agora, não há dúvidas, para a CPI, de que Sacha teve participação intensa e proativa durante todo o desenrolar da concorrência pública. “Ele ocupava sala na então Secretaria de Transportes, fazia pareceres, tinha livre acesso a informações privilegiadas e, nessa condição, preparou o processo licitatório para os clientes dele ganharem a licitação”, garante o bispo Renato.
A forte influência exercida por Sacha no processo licitatório pode ser explicada por uma de suas declarações à CPI, na avaliação de Andrade. O advogado informou ter sido procurado pelo empresário Victor Bethonico Foresti, responsável pela Viação Cidade Brasília, um dos próximos a ser inquirido pela CPI.
“É no mínimo estranho alguém que teve a empresa desqualificada no processo recorrer ao Sacha e não ao secretário de Transportes ou à comissão de licitação”, suspeita o distrital do PR. “Queremos saber o teor dessa conversa”.
Novos depoimentos
A CPI do Transporte Público volta a se reunir na quinta-feira, sem ouvir novos depoimentos. Os distritais e a equipe técnica da Casa pretendem esmiuçar os depoimentos prestados até agora, cruzar dados e preparar o interrogatório das próximas oitivas. A partir dessas análises, outros nomes poderão ser incluídos na lista de convocados para depor.
Nas próximas reuniões, serão ouvidos Wagner Colombini Martins, sócio-diretor da empresa Logit Engenharia, e Guilherme de Salles Gonçalves, sócio de Sacha Reck em um escritório de advocacia, além de Victor Bethonico.
A CPI tem 180 dias a contar de 14 de maio, data de sua instalação, para apresentar suas conclusões.
Advogado comandava licitação
Sacha Reck entrou na licitação do transporte público pelas mãos da Arcadis Logo, empresa contratada por um consórcio que tem seu pai e um irmão entre os sócios. Por circunstâncias que a CPI ainda desconhece, mas investiga com prioridade, Reck tornou-se protagonista do processo licitatório, inclusive relegando o presidente da Comissão de Licitação a um papel secundário, conforme o presidente da CPI. A comissão acredita que, com livre acesso a informações privilegiadas, ele favoreceu empresas que eram suas clientes, criando as condições para incluí-las entre as vitoriosas na licitação
Para deputado, tarifa técnica é “a caixa preta”
Considerada uma grande caixa-preta pelo presidente da CPI, a tarifa técnica — valor cobrado pelas operadoras ao governo por pessoa transportada, geralmente maior que o preço na catraca — também está na mira da comissão que investiga possíveis irregularidades na licitação para explorar o transporte público no DF.
A diferença entre o valor da tarifa técnica e o preço da passagem é subsidiado pelo governo, que também banca as viagens de pessoas com deficiência, idosos e estudantes, que têm transporte gratuito garantido por lei.
“Será que todas essas pessoas realmente têm direito ao transporte gratuito?”, questiona Andrade.
As altas somas envolvidas nessa conta — segundo Renato Andrade, cerca de R$ 300 milhões foram gastos até agora com a tarifa técnica — merecem mais atenção do governo. Uma das propostas é recadastrar os usuários para confirmar se todos estão aptos ao benefício. ”Nem isso o governo teve coragem de fazer até agora”, reclama Andrade. “O Estado não pode continuar pagando o que paga às empresas já que o aumento da tarifa foi enorme”, finaliza.