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Opinião

Vistos para a Itália: uma nova oportunidade para descendentes de italianos

O novo visto é destinado a todos os descendentes de italianos, independentemente da geração.

Redação Jornal de Brasília

11/12/2025 17h18

passaporte italiano

Foto: Reprodução/ Redes socias

Por Renata Bueno*

Em um mundo cada vez mais interligado, mas ainda repleto de barreiras migratórias, o governo italiano acaba de abrir uma porta significativa para milhões de descendentes de italianos espalhados pelo mundo.

Só no Brasil, estima-se que exista uma comunidade de cerca de 30 milhões de ítalo-descendentes. Como brasileira de nascimento e cidadã italiana por jus sanguinis, acompanho de perto essas mudanças: tanto como advogada de imigração quanto como defensora da diáspora italiana no Parlamento de Roma, onde tive a honra de ser a primeira deputada nascida no Brasil. 

Com o decreto publicado em 24 de novembro de 2025 na Gazzetta Ufficiale, a Itália reconhece a urgência de atrair mão de obra qualificada e, ao mesmo tempo, valorizar as próprias raízes históricas. Mas o que isso significa para você, descendente de italianos? E como essa nova facilitação pode ser o primeiro passo para reconstruir o vínculo com a terra dos seus antepassados? 

Assim como outros países europeus, a Itália enfrenta um acelerado envelhecimento populacional e a falta de profissionais em setores essenciais, entre eles construção civil, saúde, turismo e tecnologia. Para 2025, o Decreto Flussi prevê apenas 151 mil vagas para trabalhadores não europeus, dentro de um total de 452 mil para o triênio 2023–2025. Até então, brasileiros e demais descendentes competiam por essas vagas limitadas, o que tornava o processo lento e extremamente burocrático. 

A situação se tornou ainda mais complexa quando, em março de 2025, o governo da premiê Giorgia Meloni aprovou a Lei 74/2025, limitando o direito à cidadania por jus sanguinis apenas a filhos e netos de italianos nascidos na Itália. Isso excluiu bisnetos, tataranetos e gerações posteriores, pessoas que, até então, tinham direito pleno ao reconhecimento da cidadania, bastando comprovar a linhagem. Milhares de processos foram congelados, e a Corte Constitucional deve julgar a constitucionalidade da lei em 11 de março de 2026, um debate que acompanho de perto, pois considero a cidadania um patrimônio cultural inalienável. 

Diante das críticas e das demandas econômicas, o governo apresentou uma reação pragmática: o Decreto Tajani, assinado pelo chanceler Antonio Tajani. A nova norma cria um canal especial de vistos de trabalho, sem limite numérico, destinado exclusivamente a descendentes de italianos em sete países com forte presença da diáspora: Brasil, Argentina, Estados Unidos, Austrália, Canadá, Venezuela e Uruguai. 

É uma mudança estratégica que restringe a cidadania, mas facilita a imigração laboral. Como defendi em audiências parlamentares, essa medida ajuda a suprir a falta de mão de obra e, ao mesmo tempo, reforça o recupero delle radici italiane, a reconexão com as raízes.

O novo visto é destinado a todos os descendentes de italianos, independentemente da geração. Ou seja, bisnetos, tataranetos e além podem se beneficiar, desde que consigam comprovar a ascendência. Não é necessário ter cidadania italiana. 

O foco principal é o visto de trabalho subordinado (não sazonal), embora alguns casos de trabalho autônomo também sejam contemplados. 

Para usufruir do benefício é necessário comprovar a descendência italiana por meio de certidões de nascimento, casamento e óbito traduzidas por tradutor juramentado, exatamente como nos processos de cidadania. É preciso apresentar um contrato de trabalho válido na Itália, uma proposta formal de uma empresa italiana, onde o próprio empregador solicita a nulla osta junto ao Ministério do Trabalho. Também é necessária a documentação para o visto, como passaporte válido, comprovante de meios financeiros, seguro-saúde e atestado de antecedentes criminais. 

Na Itália, o empregador solicita a nulla osta. No consulado italiano no Brasil, você apresenta o pedido do visto D de longa duração, anexando o contrato e os documentos de descendência. Ao chegar na Itália, em até oito dias, é preciso solicitar o permesso di soggiorno na Questura, onde o prazo médio atual é de 30 a 60 dias, significativamente mais rápido do que o sistema tradicional de cotas. 

Esse não é apenas um visto temporário, ele pode ser uma ponte para um futuro definitivo na Itália e na União Europeia. Após dois anos de residência legal e trabalho regular, você pode solicitar a naturalização italiana, adquirindo cidadania plena e passaporte europeu. Esse status é vitalício e permite viver, trabalhar e estudar em qualquer um dos 27 países da União Europeia. 

Além disso, a residência oferece benefícios como acesso ao sistema público de saúde italiano, gratuito para residentes; matrículas universitárias com taxas reduzidas em instituições de prestígio, como a Universidade de Bolonha; e a possibilidade de registro no AIRE para participação nas eleições italianas. 

No Brasil, onde mais de 682 mil cidadãos já estão inscritos no AIRE, essa medida pode transformar a realidade de milhares de famílias. 

Quanto às viagens de curto prazo, nada muda. Brasileiros continuam isentos de visto para turismo por até 90 dias no espaço Schengen. A partir de 2026, entrará em vigor o ETIAS, uma autorização eletrônica de 7 euros. Para viagens de turismo ou pesquisa genealógica, isso não deve interferir. Para permanências longas, porém, o novo canal de trabalho representa uma verdadeira revolução. 

É importante lembrar que alguns setores exigem conhecimentos básicos de italiano. Sempre recomendo iniciar um curso antes da mudança, pois isso amplia as oportunidades e facilita a adaptação. 

Como advogada, vejo diariamente histórias reais de transformação, como a enfermeira de São Paulo agora empregada em Milão, ou o engenheiro gaúcho que reencontrou a família no Vêneto. Deixo, no entanto, um alerta: quem protocolou pedido de cidadania antes de 28 de março de 2025 deve continuar pelo caminho tradicional. Para os demais, o novo visto é a alternativa mais viável. 

A nova política italiana é, em parte, um reconhecimento tardio da contribuição da diáspora que ajudou a construir países como o Brasil, enviando milhões de trabalhadores entre os séculos XIX e XX. 

Se você é descendente, este pode ser o momento decisivo. Organize seus documentos, busque um contrato de trabalho e dê o primeiro passo.

Renata Bueno é uma parlamentar ítalo-brasileira nascida em 1979 em Brasília, DF, Brasil. Conhecida por seu envolvimento na política e na defesa dos direitos dos descendentes de italianos no Brasil. Renata Bueno foi eleita deputada federal em 2010, sendo a primeira mulher eleita pelo Partido Socialista Italiano (PSI) fora da Itália. Sua atuação política tem sido focada em temas relacionados à cidadania italiana, imigração, e fortalecimento dos laços entre Brasil e Itália. Ela é presidente da Associação pela Cidadania Italiana no Brasil e tem trabalhado para facilitar o processo de reconhecimento da cidadania italiana para descendentes de italianos no país. Além de parlamentar, Renata é advogada e empresária, com o Instituto Cidadania Italiana e Mozzarellart.

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