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Opinião

Os desafios inadiáveis da FAO para salvar o planeta e acabar com a fome

As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante. Até 2050, o aquecimento global poderá reduzir colheitas em até 20% em regiões tropicais

Redação Jornal de Brasília

30/10/2025 18h25

Foto: Agência Brasil

Por Renata Bueno*

Ao longo da minha trajetória como parlamentar italiana e advogada dedicada à cooperação internacional, sempre defendi que nenhuma nação pode enfrentar sozinha as grandes crises do nosso tempo. A segurança alimentar é uma dessas causas universais: transcende fronteiras, ideologias e economias. 

Em 2025, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) celebra 80 anos. Mais do que uma instituição histórica, é um farol que guia a humanidade diante das transformações que desafiam nossa sobrevivência, tecnológicas, climáticas e sociais. O futuro da alimentação já não é uma questão de amanhã, mas uma urgência de hoje. Este artigo encerra a série especial que escrevi ao longo do ano em homenagem aos 80 anos da FAO, uma reflexão sobre seu papel, seus desafios e as oportunidades que moldam a alimentação global. 

O relatório The Future of Food and Agriculture: Trends and Challenges, da própria FAO, é claro: o modelo atual de produção e consumo não é sustentável. O “business as usual” deixou de ser uma opção. Para garantir um planeta saudável e uma humanidade nutrida, precisaremos de mudanças estruturais, do campo às cidades, das políticas públicas às cadeias de valor. 

Inteligência artificial, biotecnologia e agricultura de precisão já transformam os sistemas agroalimentares. Drones monitoram solos, algoritmos otimizam colheitas e a edição genética via CRISPR promete aumentar a produtividade em até 70% em regiões vulneráveis, segundo a FAO. Essas inovações podem reduzir desperdícios em até 30% e mitigar a fome em áreas áridas da África Subsaariana. 

Mas o progresso tem seu preço: a dependência tecnológica pode excluir milhões de pequenos agricultores, responsáveis por 80% da produção nos países em desenvolvimento. Na Itália, testemunhei esse paradoxo: a digitalização impulsionou as exportações de produtos artesanais, enquanto comunidades rurais sem conectividade ficaram ainda mais isoladas. A FAO, portanto, tem o dever de democratizar o acesso à inovação, fortalecendo programas como o FAST Partnership, que une clima, agrifood e finanças para acelerar tecnologias inclusivas. 

As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante. Até 2050, o aquecimento global poderá reduzir colheitas em até 20% em regiões tropicais, ampliando a insegurança alimentar de 500 milhões de pessoas. Secas, enchentes e fenômenos extremos já custam bilhões à agricultura global e ameaçam tornar dietas saudáveis inacessíveis a 2,4 bilhões de pessoas, segundo o SOFI 2025. 

Assim como o Acordo de Paris busca compromissos climáticos, a FAO precisa ocupar papel central nesses debates, promovendo uma agricultura climática-inteligente, que una agroecologia, reflorestamento e inovação verde para reduzir emissões e proteger a biodiversidade. Nesse contexto, o crédito de carbono surge como eixo estratégico da transição ecológica.

A Europa já busca compensar emissões e alcançar a neutralidade de carbono, e a agricultura tem papel fundamental nesse equilíbrio: propriedades rurais que preservam solos, florestas e práticas sustentáveis geram créditos de carbono que podem ser comercializados e revertidos em novos investimentos verdes. A FAO deve promover, regulamentar e estimular essa produção ambiental, que compensa, neutraliza e restaura o planeta. 

Até 2050, 68% da população mundial viverá em áreas urbanas. A urbanização acelerada cria “desertos alimentares”, regiões onde o acesso a alimentos frescos é limitado e caro. As desigualdades de gênero também persistem: mulheres representam 43% da força de trabalho agrícola, mas enfrentam barreiras no acesso à terra, crédito e tecnologia, obstáculos diretos à equidade e à segurança alimentar. 

A pandemia e os conflitos recentes na Ucrânia e no Sudão revelaram fragilidades profundas. A fome aguda atinge hoje 281 milhões de pessoas. Superar esse quadro exige políticas integradas: proteção social, empoderamento feminino, inclusão digital e valorização de saberes tradicionais. 

A FAO enfrenta três grandes desafios: fragmentação, setores como agricultura, saúde e comércio ainda operam em silos; financiamento,investimentos em P&D agrícola caíram em um mundo endividado em US$ 97 trilhões, comprometendo metas dos ODS; e credibilidade, em tempos de desinformação, a FAO precisa reafirmar-se como fonte confiável de dados e base para políticas públicas. 

O relatório Transforming Food and Agriculture Through a Systems Approach aponta o caminho: governança integrada, unindo governos, ONGs e setor privado em torno de metas comuns. O World Food Forum 2025, dedicado à juventude e à inovação, será uma oportunidade crucial para renovar esse compromisso global. 

A FAO é mais do que uma observadora. É arquiteta do futuro alimentar, com um papel triplo: catalisadora de transformação, promovendo os “Quatro Betters”: melhor produção, melhor nutrição, melhor meio ambiente e melhor qualidade de vida; promotora de equidade, garantindo que a inovação alcance mulheres, jovens e pequenos produtores; e guardiã da resiliência, antecipando crises e fortalecendo comunidades vulneráveis, especialmente diante de eventos climáticos como La Niña. 

No Brasil e na Itália, programas com esse enfoque já transformam comunidades rurais, integrando sustentabilidade, inovação e neutralização de carbono como pilares de uma nova economia verde. 

O futuro da FAO será definido pela sua capacidade de inspirar uma revolução solidária. Como disse o diretor-geral Qu Dongyu, “transformação é como um mosaico, requer muitas mãos, cores e imaginação.” Que a FAO continue a unir essas mãos, de governos, produtores, pesquisadores e cidadãos, para construir um sistema alimentar mais justo, sustentável e ambientalmente neutro. O mundo observa. E confia que, sob a liderança da FAO, o pão de amanhã será compartilhado por todos.

Renata Bueno é uma parlamentar ítalo-brasileira nascida em 1979 em Brasília, DF, Brasil. Conhecida por seu envolvimento na política e na defesa dos direitos dos descendentes de italianos no Brasil. Renata Bueno foi eleita deputada federal em 2010, sendo a primeira mulher eleita pelo Partido Socialista Italiano (PSI) fora da Itália. Sua atuação política tem sido focada em temas relacionados à cidadania italiana, imigração, e fortalecimento dos laços entre Brasil e Itália. Ela é presidente da Associação pela Cidadania Italiana no Brasil e tem trabalhado para facilitar o processo de reconhecimento da cidadania italiana para descendentes de italianos no país. Além de parlamentar, Renata é advogada e empresária, com o Instituto Cidadania Italiana e Mozzarellart.

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